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ARTIGOS
Ser ou não ser
(sobre o reality show Made)
por Luiz Carlos Oliveira
Jr. (02/05/2006)
Vencendo Simon
(sobre American Idol)
por Bolívar Torres
(24/04/2006)
A
doçura dos números
(sobre "I See You, You See Me", clipe dos
Magic Numbers)
por Luiz Carlos Oliveira
Jr. (24/04/2006)
FILMES DA SEMANA
(27
DE MARÇO
A 28 DE MAIO DE 2006)
Dia 27/03
Levanta-te Meu Amor (Arise My Love,
1940) é um dos filmes mais comentados de Mitchell
Leisen, cineasta que, segundo muitos, foi injustamente
relegado ao segundo escalão da comédia
americana dos anos 30-40 (o primeiro escalão,
naturalmente, pertencendo a Ernst Lutisch e Preston
Sturges). Hoje, inclusive, Leisen é mais conhecido
por ter sido o diretor que enfezou tanto Billy Wilder
e Charles Brackett (em A Porta de Ouro) que eles
decidiram que daí em diante dirigiriam seus filmes
e não mais tolerariam as mudanças em seus
roteiros. Levanta-te, Meu Amor foi feito antes
disso, num momento em que sae podiam conjugar os talentos
de Claudette Colbert e Ray Milland como estrelas, Wilder
e Brackett como roteiristas, e um Leisen em estado de
graça. O filme passa no Telecine Cult às
19:55, evocando os saudosos momentos em que o ex-Classic
exibia incontáveis clássicos e retrospectivas
de diretores raros e arejava a programação
das tvs a cabo. Já no Canal Brasil, às
22:35, ainda na homenagem a Amácio Mazzaropi,
passa O Corintiano, filme dirigido por Milton
Amaral em 1966.
Dia 28/03
Enquanto o festival É Tudo Verdade passa
no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Campinas
(com exibição depois em Brasília),
no Canal Brasil a seção É Tudo
Verdade exibe Carrapateira Não Tem Mais Ciúmes
da Apolo XI (2004), um média-metragem de
Fabiano Maciel, sobre a relação do município
paraibano, em 1969 o mais pobre do Brasil, com a nave
espacial americana que levou o homem à Lua. Na
época, o Jornal do Brasil mandou um repórter
para acompanhar a famosa data na cidade paraibana. Trinta
e quatro anos depois, o diretor Fabiano Maciel voltou
à cidade para registrar as mudanças ocorridas
em Carrapateiras. O filme passa às 22:35. No
mesmo canal, às 20:00, começa uma programação
especial em homenagem a Nelson Dantas, um dos maiores
atores do cinema brasileiro, falecido recentemente.
Pena que o primeiro filme exibido não faz jus
ao talento do ator: O Que É Isso, Companheiro,
de Bruno Barreto. Pano rápido.
Dia 29/03
Curiosamente, aquele que é geralmente
o pior dia em destaques da tv nessa semana apresenta
uma raridade essencial e uma bela estréia recente.
Primeiro, é O Poder da Solidão
(The Effect of Gamma Rays on the Man-in-the-Moon
Marigolds, 1972), filme dirigido por Paul Newman
e estrelado por Joanne Woodward. Curiosamente, filmes
de diversos atores-diretores costumam ser mais lembrados
(como Desafio no Bronx, de Robert De Niro, ou
os filmes de Sean Penn e John Turturro). Esse O Poder
da Solidão, inexistente em DVD em qualquer
lugar do globo e jamais lançado em VHS no Brasil,
passa no Telecine Cult às 20:05. O filme foi
simplesmente escolhido por dois críticos importantes,
Louis Skorecki e Serge Toubiana, como um dos melhores
da década de 1970 numa enquete dos Cahiers du
Cinéma. Obrigatório, então. Já
às 22:00, o Telecine Emotion estréia em
sua programação o filme Huckabees
A Vida É uma Comédia (I Heart Huckabees,
2004), filme de David O'Russell incrivelmente não
estreado no país. Estrelado por Isabelle Huppert,
Jason Schwartzman, Dustin Hoffman, Lily Tomlin, Jude
Law, Mark Wahlberg e Naomi Watts, o filme ganhou crítica
na Contracampo quando de seu lançamento em DVD
e VHS. Você pode lê-la aqui.
Pela homenagem a Nelson Dantas, o Canal Brasil exibe
às 20:00 O Casamento, de Arnaldo Jabor.
Dia 30/03
É curioso como a Eurochannel ainda mantém
a mesma Sessão Nostalgia, exibindo dois filmes
de um grande diretor da história do cinema na
última quinta-feira de cada mês. A idéia
seria ótima, não fossem os mesmos nomes
repetidos à exaustão: Federico Fellini,
Luchino Visconti, Claude Chabrol, Vittorio de Sica,
Michelangelo Antonioni... e Alain Resnais, que terá
tanto Meu Tio da América (Mon Oncle
d'Amérique, 1980) quanto A Vida É
um Romance (La Vie est un roman, 1983) exibidos
nesta quinta, respectivamente às 22:30 e 00:30.
Tudo bem que não são filmes pra lá
de badalados, que apresentam uma certa dificuldade em
ser exibidos, e que essa quinta-feira é especificamente
mais especial do que as outras. Mas não poderia
haver Sessões Nostalgia dedicadas a cineastas
igualmente importantes como Michael Powell, François
Truffaut, Eric Rohmer, Robert Bresson, Valerio Zurlini,
Hans Jürgen-Syberberg, Rainer Werner Fassbinder,
Fritz Lang, Ken Russell, Werner Herzog, F. W. Murnau,
Alexander Kluge, Jacques Tati, Georges Franju, entre
outros? Enquanto isso, no Canal Brasil, a homenagem
a Nelson Dantas aumenta consideravelmente de nível
no meio do percurso e exibe Vai Trabalhar Vagabundo
(1973), primeiro longa-metragem de Hugo Carvana, mais
importante ator-diretor (já que falávamos
disso) do cinema brasileiro.
Dia 31/03
À meia-noite de sexta-feira para sábado,
o Eurochannel exibe, em seu quadro dedicado ao cinema
independente britânico (como se lá houvesse
grandes estúdios), o filme AKA (idem,
2002), dirigido pelo anônimo Duncan Roy. O filme
é apresentado em split-screen, e o espectador
tem que se revezar para acompanhar automaticamente os
dois campos visuais e o que acontece neles. Antes dele,
Mike Figgis fez o experimento Time Code, em quatro
telas simultâneas, só que o filme não
vai mais além de uma curiosidade. Resta saber
se AKA consegue ir além disso. No último
dia dedicado à lembrança do ator Nelson
Dantas, o Canal Brasil passa às 20:00 Bar
Esperança (1983), novamente dirigido por
Hugo Carvana e possivelmente o melhor filme do diretor.
Quanto a Nelson Dantas, sente-se muito a falta de O
Viajante, uma das interpretações mais
fortes de sua carreira, com um diretor, Paulo Cezar
Saraceni, com quem ele trabalhou em três ocasiões
(além deste, Capitu e A Casa Assassinada).
Em todo caso, dois filmes de Hugo Carvana sendo exibidos
de um dia para outro não é exatamente
uma ocasião para reclamar disso.
Dia 01/04
É possível assistir a um filme
de aventura e ação chamado Sahara
(2005) e estrelado por Matthew McConaughey? A maioria
das pessoas de bom senso responderia que não,
mas como o bom senso não é tão
bem partilhado quanto Descartes imaginava, taí
ele sendo exibido como o grande destaque da semana no
Telecine Premium, estreando às 22:00. Escolhe
bem que decidir-se pela HBO uma hora antes, pois às
21:00 ela passa Os Incríveis (2004), último
furacão da Pixar a passar pelo país (Cars,
de John Lasseter, deve estar aparecendo em breve), e
um dos poucos filmes de animação americanos
dos últimos anos que não se deve deixar
passar. Mas o grande destaque do dia mesmo é
o programa Retratos Brasileiros dedicado A Marília
Pêra, que o Canal Brasil passa às 17:30,
e o filme que passa em seguida, O Homem Que Comprou
o Mundo (1968), primeiro longa de ficção
de Eduardo Coutinho, estrelado por Flávio Migliaccio
e Marília Pêra.Da mesma forma, talvez a
melhor escolha para um filme em que a atriz está
eternizada seria O Viajante, de Saraceni, ou
a sugestão mais óbvia, Pixote de
Hector Babenco.
Dia 02/04
Por fim, dois clássicos que volta e meia
acabam passando aqui e acolá, de dois grandes
estilistas e perfeccionistas do plano cinematográfico.
Às 16:40, o Cinemax Prime exibe Desejo Humano
(Human Desire, 1954), adaptação
de A Besta Humana de Émile Zola estrelada
por Glenn Ford e Gloria Graheme, que tinham acabado
de ser o casal maldito de Os Corruptos (The
Big Heat) no ano anterior. O filme não é
tão forte quanto o anterior, ou quanto a adaptação
de Jean Renoir, mas merece tranqüilamente ser visto.
Mais à noite, às 22:00, o Film & Arts
exibe Carrie, a Estranha (Carrie, 1976),
um dos mais importantes filmes de Brian De Palma, e
um dos mais impressionantes retratos de high school
na história do cinema americano, além,
claro, de uma das seqüências mais perfeitas
de todo cinema do diretor: o baile de formatura, espécie
de declaração de princípios de
que a arte é sobretudo artifício e utilização
do espaço cinematográfico.
Dia 03/04
Mais uma vez, a principal atração
da segunda-feira pertence à mostra semanal dos
filmes de Mazzaropi. Desta vez, o Canal Brasil apresenta
Betão Ronca Ferro (1970), título-paródia
da célebre novela Beto Rockfeller e primeira
aparição de Pio Zamuner, então
diretor de fotografia (função que continuou
exercendo posteriormente), na direção.
Ao longo dos anos 70, Zamuner foi parceiro fiel dos
filmes de Mazzaropi. Aqui, ele assina esse filme junto
com Geraldo Afonso Miranda também estreante
neste filme , que faria carreira no Rio, dirigindo
comédias eróticas. O filme passa às
22:35. Um pouco antes disso, o Cinemax exibe às
22:00 Naqoyqatsi, terceiro filme da trilogia
de Godfrey Reggio com imagens abstratas e música
de Phillip Glass. Esses filmes costumam ser cultuados
por uma parte das hordas cinéfilas, mas é
difícil entender o
porquê. Eles são o mais próximo
do que o cinema já chegou da nefasta arte new
age, com seu pseudo-hippismo de consumo, ares de
arte cult e um resultado que não passa
de afetado passando por criativo. Em todo caso, é
estréia e não é um filme muito
fácil de se ter acesso.
Dia 04/04
Outro tipo de estréia "o filme é
uma abominação, mas está estreando
e tem algum tipo de interesse, então...".
Trata-se de O Pesadelo de Darwin (Darwin's
Nightmare, 2004), documentário de Hubert
Sauper sobre a exploração e conseqüente
destruição ambiental e econômica
de uma cidade da Tasmânia pela industrialização
da perca, um peixe que depreda todo o ecossistema dos
lagos em que vive. Narrado assim, parece um libelo ecológico
e contra o capitalismo corporativo em alta escala, sobretudo
porque o filme faz questão de mostrar como as
ajudas dos órgãos mundiais não
surtem o mínimo efeito nessa exploração
destruidora. Mas o filme tem uma forma de se construir
que se molda prêt-à-porter para
aquele olhar europeu pronto a se indignar com qualquer
coisa sobre o Terceiro Mundo. Miserabilismo à
vontade, visão exoticizante e ainda por cima
auto-promoção humanitária quando
o diretor se gaba de não mostrar uma cena relativa
à morte de uma prostituta (esse uso promocional
do "não-mostrar" como lição
ética autoproclamada). Em todo caso, o filme
estréia na HBO às 21:00. Para quem quiser
fugir, sempre há opções: a eventual
exibição de Enigma do Poder (New
Rose Hotel, 1997), de Abel Ferrara, na AXN, e a
reestréia de Horizonte Perdido (Lost
Horizon, 1937), de Frank Capra, no Cinemax Prime,
às 21:30.
Dia 05/04
A maior atração do dia não
é um longa-metragem, mas um curta: B2
(2002), filme que Rogério Sganzerla montou a
partir de sobras de O Bandido da Luz Vermelha,
seu longa de estréia. Encomendado para a mostra
Cinema Marginal e Suas Fronteiras, o filme tem colaboração
de Sylvio Renoldi (creditado como co-diretor por Mr.
Sganz) e conta, entre outras coisas, com imagens de
um show de Gal Costa, mas sem o áudio. É
a primeira exibição desse filme na televisão,
então é melhor ficar esperto. Ainda mais
porque tem mais Sganzerla na semana... O filme passa
às 19:30 no Canal Brasil. Mais à noite,
às 23:00, o Cinemax exibe Chris Rock: Sem
Medo (Chris Rock: Never Scared, 2004), dirigido
por Joel Gallen. O filme é basicamente um show
de humor de Chris Rock, terreno em que ele geralmente
consegue ser mais interessante do que interpretando
personagens.
Dia 06/04
Numa semana em que nem a rede Telecine nem a
TV5 apresenta atrações dignas desse nome,
a quinta-feira anda bem morna. Assim como o programa
Brasil Cult, que em seu começo trouxe novos filmes
à programação do Canal Brasil e
agora fica simplesmente regurgitando aquilo que já
estreou na programação anteriormente e
geralmente aparece, mesmo que de dois em dois meses
ou algo do tipo. O filme do dia, em todo caso, é
ilustre: A Noite do Espantalho (1974), de Sérgio
Ricardo, estrelado por Alceu Valença e Geraldo
Azevedo, fotografado por Dib Lutfi (irmão de
Sérgio Ricardo), montado por Sylvio Renoldi e
com mãos de Maurice Capovilla e Jean-Claude Bernardet
no roteiro. Às 22:35, como sempre.
Dia 07/04
Muito se fala da renovação do cinema
alemão, a partir de diretores como Tom Tykwer,
Wolfgang Becker e Fatih Akin. E, embora os três
(e mais alguns) demonstrem eficiência técnica
e narrativa, é patente a falta de uma densidade
maior no trato da imagem, uma rendição
meio triste ao cinema "de mercado" que curiosamente
lembra o próprio cinema brasileiro corrente (embora
ele nos pareça mais estagnado que corrente).
Em 1997, Tykwer e Becker assinaram um roteiro, que foi
dirigido só por Becker. É A Vida É
Tudo o Que Temos (Das Leben ist eine Baustelle,
1997), que o Eurochannel estréia às 22:00.
Pode ser que não seja grande coisa, mas ao menos
o Eurochannel faz seu papel, que é o de nos familiarizar
com a produção cinematográfica
dos países europeus. Outro filme que se enquadra
no "pode ser que não seja grande coisa..."
é Os Quatro Filhos de Adão (Adam
Had Four Sons, 1941), filme do diretor genérico
Gregory Ratoff estrelado por três pesos pesados
da icnonografia feminina em Hollywood: Ingrid Bergman,
Susan Hayward e Fay Wray. O filme passa no Cinemax Prime
às 09:45.
Dia 08/04
Dois pesos pesados da empulhação
no duelo de titãs para ver quem domina o horário
nobre do sábado à noite. Na HBO, estréia
Closer Perto Demais (Closer, 2004),
filme em que Mike Nichols tenta traçar o quadro
de um quadrilátero amoroso mas acaba caindo na
própria teia de relações que deveria
filmar e faz simplesmente um teatrinho filmado com cenários
chiques e situações afetadas, curiosamente
deixando a personagem de Natalie Portman como um peixe
fora d'água no meio de tanta empáfia.
Como Ponto Final, Closer quer ganhar quando
envolve os personagens no glamour de um estilo de vida
e também quer ganhar quando se trata de dizer
que esse estilo de vida é vazio. Consegue no
máximo o prêmio de cara-de-pau. Já
Código 46 (Code 46, 2004) é
a mesma mediocridade assinada por Michael Winterbottom:
um arremedo de forma que é diferente o suficiente
para os menos escolados acharem ousado e algum tema
quente para fazer as hordas alternativas criarem fila
para ver o filme. Dir-se-ia um Soderbergh do outro lado
do Atântico? Pode até ser, mas descontando
o fato de que Soderbergh tem alguns filmes bons, ao
contrário de Winterbottom, cujo talento está
mais próximo de outro Berg: Vinterberg. Assim,
o caminho fica muito livre para recomendarmos o melhor
filme brasileiro dos últimos anos: O Signo
do Caos (2003), de Rogério Sganzerla. Lançado
ano passado, quase dois anos depois de sua morte, o
filme teve uma recepção de público
muito além do que o filme merecia, mas talvez
isso seja mesmo o resultado da maldição
do cinema brasileiro à qual o próprio
Sganzerla se referia várias vezes, em entrevistas,
em textos e inclusive nos filmes. O Signo do Caos
passa às 23:00 no Canal Brasil, na seção
"Seleção Brasileira": finalmente
um filme que justifica o nome que a seção
ostenta!
Dia 09/04
Por fim, será que o cinema independente
americano ainda tem futuro? No que depender de Dandelion
(idem, 2004), parece que não. O filme apenas
repete uma série de procedimentos e temas sobre
jovens cheios de sensibilidade e dificuldades de enfrentar
a vida, daquela maneira completamente clichezada que
a gente está acostumado depois de assistir a
uma infinidade de filmes e de algumas séries
que tentaram copiar o clima (a mais famosa é
Dawson's Creek). Podem dizer que é simples
falta de criatividade, mas também pode-se creditar
isso ao grande mal que J. D. Salinger fez na cabeça
dos jovens com seu O Apanhador no Campo de Centeio,
que acabou se tornando uma espécie de bíblia
alternativa de jovens tímidos e sensíveis.
Burp! Dirigido por Mark Milgard, Dandelion passa
na Cinemax às 22:00.
Dia 10/04
Com o fim dos canais dedicados exclusivamente
à produção dos anos 60 para trás,
como Telecine Classic e a RetrôTV,
o panorama daquilo que se chama geralmente "filmes
antigos" mingua definitivamente e a exibição
de filmes de destaque torna-se cada vez mais rarefeita.
É uma pena, porque nenhum dos canais que existem
hoje nas principais redes de tv a cabo consegue criar
uma diversidade de alto padrão em sua produção,
meramente jogando seus filmes na programação.
Mesmo os canais que ainda exibem filmes "velhos"
não o fazem com um padrão de qualidade
interessante. Em alguns anos, saímos de um panorama
excelente para uma panelinha triste,que por vezes até
questiona a validade de uma coluna semanal sobre filmes
da semana, quando os destaques semanais poderiam ser
apenas uns três ou quatro filmes, por vezes no
mesmo dia. Mas, bom, o trabalho é esse e gostamos
de fazê-lo. Se não é motivo para
soltar fogos, é pelo menos simpática a
estréia de O Papai Playboy (The Pleasure
of His Company, 1961), de George Seaton, na programação
do Telecine Cult, às 22:00. Se Seaton é
uma dessas figuras totalmente anônimas no que
diz respeito a estilo, ao menos o filme é protagonizado
por Fred Astaire e Debbie Reynolds, e cativa pelo magnetismo
de suas estrelas. Mais tarde, no Telecine Premium, estréia
Adorável Julia (Being Julia, 2004),
versão do livro de Somerset Maugham dirigida
por Istvan Szabó. Szabó teve seu nome
alçado à condição de diretor
cultuado nos anos 80, quando fez Mephisto e Coronel
Redl, tornando-se o diretor mais famoso da Hungria
depois de Miklos Jancsó. Seu trabalho foi se
tornando cada vez mais insosso com o passar dos anos,
e o academicismo já percebido em seus trabalhos
mais celebrados assume dimensões enormes, como
no vergonhoso Sunshine. Talvez a pompa de uma
ficção literária de época
como Adorável Júlia se preste mais à
seara do diretor. A conferir às 22:00. Já
no Canal Brasil, às 22:35, continua a homenagem
a Amácio Mazaroppi, desta vez com O Jeca Macumbeiro
(1975), direção de Pio Zamuner e Mazaroppi.
O filme foi a maior renda do ano de 1975, com 2,5 milhões
de espectadores.
Dia 11/04
Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre
mi madre, 1999), um dos mais belos filmes de Pedro
Almodóvar, entra na programação
do Telecine Cult às 22:00. Seu novo filme, Volver,
acaba de ser exibido em pré-estréia na
Espanha, mas aqui provavelmente só poderemos
vê-lo na época dos festivais. Mas o destaque
do dia é bem mais raro e pouco visto. Trata-se
da dupla de filmes de curta-metragem que Ivan Cardoso
fez sobre a obra de Helio Oiticica, HO (1980)
e Heliorama (2003), que passam no Canal Brasil
às 14:30 e às 14:45, respectivamente.
Ótima oportunidade para se familiarizar com um
dos maiores nomes do filme curto brasileiro, formato
em que fez possivelmente o melhor de sua produção.
Seria conveniente exibir, junto com esses dois, aquele
que possivelmente é seu trabalho mais vigoroso,
À Meia-Noite com Glauber (1997), onde
Oiticica se mescla com Glauber Rocha e Zé do
Caixão para produzir uma figura híbrida
da vanguarda brasileira. Se Heliorama não
apresenta grandes desafios, em contrapartida HO é
puro esplendor e talento.
Dia 12/04
Num dia sem nenhuma atração particularmente
interessante, o jeito é destacar uma comédia
dirigida por um realizador que fez carreira no gênero,
Arthur Hiller, mas que ficou mais conhecido não
por seu talento, mas por ter feito o chorador Love Story
e por ter sido presidente da Academia (sim, aquela que
concede o Oscar) na década de 90. Em todo caso,
Particularidades do Casamento (Married to
It, 1991) tem ao menos um casting curioso, com Stockhard
Channing, Cybill Shepherd, Beau Bridges e Mary Stuart
Masterson, entre outros. O filme estréia na programação
do Telecine Emotion às 20:00.
Dia 13/04
Já viu Sonatine? Naturalmente o
filme que entrou para a nossa memória foi o de
Takeshi Kitano, de 1994. Mas dez anos antes, a atriz
e diretora Micheline Lanctôt realizou um filme
com esse nome, e com ele ganhou o prêmio para
melhor diretor estreante no Festival de Veneza (o equivalente
ao Caméra d'or de Cannes). O filme ficou relativamente
esquecido por bastante tempo e eis que agora a TV5 faz
uma exibição às 20:30. No mínimo
uma curiosidade, no máximo uma pepita esquecida
pelo tempo. Vale "dar uma conferida", como
diria um personagem de Pedro Cardoso. Depois disso,
muito mais confiável é passar para o Canal
Brasil e assistir a Lúcia McCartney, uma Garota
de Programa (1971), segundo longa-metragem de David
Neves, que a seção Brasil Cult exibe às
22:35.
Dia 14/04
Mais um dia em que temos que improvisar os destaques,
já que não há nada que faça
abrir os olhos passando ou estreando. Por um Triz
(Out of Time, 2003), de Carl Franklin, é
um dos poucos casos recentes de um thriller que responde
a todos os desafios que o gênero coloca, mas responde
com estilo e inteligência meio incomuns no cinema
de hoje. Precisamos esperar ansiosamente por um 24
Horas ou um O Plano Perfeito para reavivar
esse gosto particular. E isso, o filme de Carl Franklin
faz com mestria. Para quem não acredita, é
só ligar no Telecine Action às 20:00.
Quase no mesmo horário, às 20:10, passa
Um Encontro com Seu Ídolo! (Win a Date
with Tad Hamilton!, 2004), no Telecine Premium.
O filme é dirigido por Robert Luketic, que, se
não tem um currículo invejável,
ao menos dirigiu um eficiente e simpaticíssimo
veículo de Reese Witherspoon, o primeiro Legalmente
Loira (2001). Aqui, ele não tem Reese, mas
a muito menos expressiva Kate Bosworth, mas quem sabe
a eficiência possa apresentar índices semelhantes...
Dia 15/04
Parece que HBO e Telecine Premium combinaram
de fazer deste fim-de-semana uma espécie de férias
para o espectador, já que a primeira lança
às 21:00 Dirty Dancing 2: Noites de Havana
e a segunda lança às 22:00 Wimbledon:
O Jogo do Amor. Tem níveis em que não
dá para escolher o menos pior. Ou então,
talvez o menos pior seja Encontro com Vênus
(Meeting Venus, 1992), do mesmo Istvan Szabó
que comentávamos no começo. O filme passa
às 21:30 no Cinemax Prime. Se, como diz a canção,
todo mundo espera alguma coisa de um sábado à
noite, nessa semana a data fornece algo próximo
de uma frustração total...
Dia 16/04
Por fim, o Cinemax começa a monopolizar
as atrações inéditas no domingo,
com filmes que, se não são essenciais
ou imperdíveis, ao menos dão um gás
novo aos lançamentos de filmes recentes que não
são blockbusters, ou seja, independentes americanos
(como em Dandelion na semana passada) ou de outras cinematografias
(como é o caso agora). Borboleta Púrpura
(Zi hudie, 2003), dirigido por Lou Ye, não
é o que se esperava de seu diretor depois do
singelo e cativante Rio Suzhou. A grandiosidade da produção
e os tons de romance histórico água-com-açúcar
mostra, sim, que o diretor tem estilo, mas dessa vez
ele se entrega a uma assinatura que elimina os toques
pessoais e ousados de seu filme anterior, em prol de
uma obra oficial (já que sweu filme anterior
foi feito de forma clandestina) não só
nas autorizações, mas na forma. Em todo
caso, a pompa do filme cria alguns belos momentos de
romance e cor que podem lembrar um ou outro do cinema
de um David Lean. Aliás, no filme inteiro, Lou
está mais para um lean do que para um Zeffirelli.
O filme estréia na programação
do Cinemax às 22:00.
Dia 17/04
A boa notícia da semana é que as
estréias voltam a aparecer nas programações
dos canais, sobretudo os da rede Telecine. Se em geral
os filmes que estréiam não são
decisivos ou incrivelmente raros, ao menos eles imprimem
uma arejada necessária às grades de programação
e enchem essa coluna do que falar. A novidade
desta segunda-feira é a volta do saudoso programa
Canal 100, antigo cinejornal poético sobre esportes
que freqüentou por anos e anos as salas de cinema
antes do longa-metragem. Agora, a série ressurge
no Canal Brasil, com um episódio de estréia
comentado pelo crítico e pesquisador Muniz Sodré,
às 19:15. Resta saber se o novo Canal 100 manterá
o frescor de seus áureos tempos ou será
apenas o pálido produto nostálgico que
ressurgiu nos anos 90, numa tentativa frustrada de fazer
renascer o formato. Mais à noite, novamente temos
Amácio Mazzaropi com suas aventuras do Jeca.
Às 22:35, passa O Jeca Contra o Capeta
(1976), dirigido por Pio Zamuner e pelo próprio
Mazaroppi. O filme é uma paródia
a O Exorcista, o famoso filem de William Friedkin,
e participa de um momento bem prolífico dos anos
70 que reeditava aquele da chanchada metalingüística
de um Carlos Manga, debochando à moda tupiniquim
dos sucessos americanos. Vale a pena lembrar que Mazzaropi
é uma das figuras mais bem representadas do cinema
brasileiro em termos de internet, com um enorme site
dedicado à sus obra, www.museumazzaropi.com.br.
Nele, por exemplo, se encontra um excelente texto escrito
por Zulmira R. Tavares sobre O Jeca Contra o Capeta,
aqui.
Quem diria, a fortuna crítica de Mazzaropi está
mais disponível do que a de Nelson Pereira dos
Santos, Humberto Mauro, e em certa medida até
Glauber Rocha...
Dia 18/04
Começou no dia 16 o Cine PE, certamente
o mais importante festival de cinema brasileiro depois
da tradicional dupla Gramado-Brasília. E já
desde a semana passada o Canal Brasil vem passando em
sua programação alguns dos filmes que
foram lá exibidos e premiados nos últimos
anos. Nada tão especial assim, mas nesta terça-feira
passa Vinil Verde (2004), um dos melhores filmes
da safra recente de curtas-metragens brasileiros. O
filme é dirigido por Kléber Mendonça
Filho, crítico do Jornal do Commercio de Pernambuco
e do site Cinemascópio, e conhecido dos leitores
da Contracampo por participar do quadro de cotações
da revista. mas recomendar o filme não é
brodagem nenhuma, porque o filme tem o ritmo e o vigor
que apenas uma parte ínfima da produção
audiovisual brasileira tem. Basta conferir, às
20:00. Mais tarde, às 22:00, no Telecine Cult,
estréia Zelary (idem, 2003), filme da
República Tcheca dirigido por Ondrej Trojan que
concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O que
se espera é o mesmo dos filmes que volta e meia
aparecem no Oscar: produção cara e esmerada,
mensagem de bravura e esperança diante da ameaça
(invariavelmente o nazismo), e uma certa qualidade de
"suplemento de alma" que geralmente os americanos
pedem das produções "estrangeiras"
mas não da própria. Em todo caso, trata-se
de um filme que não entrou em cartaz, não
veio para os festivais, e que tem sua chance de ser
descoberto por fãs do gênero na tv a cabo
mesmo. Faz parte.
Dia 19/04
Monica Vitti é imediatamente reconhecida
como atriz de Michelangelo Antonioni na primeira metade
dos anos 60, culminando com o magnânimo Deserto
Vermelho/O Dilema de uma Vida, que volta
e meia o Eurochannel reprisa. Mas, posteriormente, ela
estreou em filmes de inclinação pop, que
faziam dela uma espécie de figura pop inimaginável
na densidade psicológica dos personagens angustiados
de Antonioni. Filmes como A Moça com a Pistola
e, sobretudo, Modesty Blaise (a famosa personagem
dos quadrinhos, levada às telas por Joseph Losey),
fizeram essa passagem, assim como A Dama Escarlate
(La Femme écarlatte, 1968), filme dirigido
por Jean Valère e roteirizado por Paul Gégauff,
um dos parceiros mais célebres de Claude Chabrol
àquele momento. Quem passa é o Eurochannel,
às 22:00. Em seguida, veremos a enésima
reprise de As Corças (Les Biches,
1968), filme de Claude Chabrol do mesmo ano, também
roteirizado por Gégauff, mas dessa vez a musa-cult
que aparece na frente da tela é Stéphane
Audran. À meia-noite. Obrigatório para
quem (ainda) não viu.
Dia 20/04
Muitas atrações nesta quinta-feira
gorda véspera de feriado de Tiradentes. Uma das
mais interessantes vem da TV5, que estava devendo coisas
interessantes em sua programação desde
que parou de exibir os quatro filmes de Rohmer do ciclo
que fez. Nô (idem, 1998) é o terceiro longa-metragem
de Robert Lepage, mais famoso por seu trabalho de diretor
teatral do que pelo ofício de cineasta. A julgar
por A Face Oculta da Lua, seu filme mais recente
(2003), não há muitos motivos para torná-lo
célebre. Mas não é sempre que um
de seus filmes se torna tão disponível.
Passa às 20:25. Já na rede Telecine, estréiam
dois filmes no Cult (Can-Can, de Walter Lang,
às 19:30, e O Mundo Perdido, de Irwin
Allen, às 22:00 ambos são de 1960)
e um no Premium, Kinsey (2004), dirigido por
Bill Condon, às 22:00. Condon não é
um cineasta com uma pegada de grande artista, mas seus
filmes têm uma delicadeza no tratamento dos sentimentos
que o diferencia tanto da produção genérica
de Hollywood quanto da produção independente
exibida no Sundance (tão ou mais genérica
do que a de Hollywood). Kinsey, junto com Deuses
e Monstros anteriormente, não são
grandes filmes, mas são retratos contundentes
sobre convivência e sexualidade, bem mais do que
a tão propalada sensibilidade de um filme bem
convencional como O Segredo de Brokeback Mountain.
Mas o grande destaque do dia fica para A Grande Feira
(1961), marco do ciclo baiano do cinema novo, que o
Canal Brasil passa às 22:35 na seção
Brasil Cult. Dirigido por Roberto Pires, o filme conta
em seu elenco com duas musas do período, Luiza
Maranhão e Helena Ignez. Pode não ser
nenhuma estréia, mas é certamente o filme
obrigatório do dia.
Dia 21/04
Mais estréias do Telecine Cult nessa sexta-feira:
A Rainha Tirana (The Virgin Queen, 1955),
de Henry Koster, às 19:30, e A Difícil
Arte de Amar (Heartburn, 1986), de Mike Nichols,
às 22:00. No primeiro, o maior interesse é
Bette Davis, e, no segundo, o famoso talento de Mike
Nichols em trabalhar com os atores, que neste filme
são Meryl Streep e Jack Nicholson. Mas talvez
a maior atração do dia seja um documentário
obscuro chamado Touch the Sound (2004), dirigido por
Thomas Riedelsheimer. O filme recebeu uma tradução
porca em português, "Sinta o Som", que
não dá conta da natureza de sua protagonista,
Evelyn Glennie, que ficou surda aos 12 anos e produz
música percussiva a partir do toque. Entre os
músicos que participam do filme se destaca Fred
Frith, figura decisiva no panorama da música
experimental dos últimos 30 anos. O filme passa
às 22:00 no Cinemax.
Dia 22/04
E finalmente um fim-de-semana com grandes destaques.
Aproveitando que o Telecine Premium lança O
Vôo da Fênix (The Flight of the Phoenix,
2004, dir. John Moore) às 22:00, o Telecine Cult
exibe o filme original, dirigido por Robert Aldrich
em 1965, às 19:30. Ótima dobradinha e
uma excelente oportunidade para renovar contato com
esse filme, indisponível no Brasil, e com um
grande cineasta infelizmente esquecido por grande parte
do público cinéfilo. Às 22:00,
passa Drugstore Cowboy (idem, 1989), filme que
tornou Gus Van Sant famoso. Com Van Sant, se dá
o fenômeno oposto. Queridinho do público
alternativo no começo de carreira, o diretor
saiu do radar de grande parte da imprensa internacional
ao longo da década de 90 para retornar apenas
quando Elefante (2003) ganhou a Palma de Ouro
em Cannes. Duas faces de uma mesma moeda: Aldrich era
o queridinho dos anos 50, e Kiss Me Deadly figurava
nas listas de todo mundo...
Dia 23/04
Falando em Henry Koster, o Telecine Cult estréia
em sua programação O Manto Sagrado
(The Robe, 1953), filme que se tornou famoso
não por seu diretor ou por sua excelência
técnica e/ou artística, mas pelo fato
de ter sido o primeiro filme feito em CinemaScope a
chegar nas salas de cinema (na verdade, é o segundo
filme feito em CinemaScope, o primeiro tendo sido considerado
tecnicamente insuficiente pelo próprio estúdio
da Fox e nunca tendo tido exibição). Será
que o Telecine Cult vai respeitar o formato original
em 1:2,55 que tornou o filme lendário? A resposta
estará visível na tela às 12:30.
Mas o grande destaque do dia é O Pistoleiro
(The Stranger Wore a Gun, 1953), filme de André
de Toth com Randolph Scott e vários extras distintivos
(Lee Marvin, Ernest Borgnine). O filme foi originalmente
feito em 3D, o que invariavelmente se perde quando o
filme vai para a televisão, mas ainda assim resta
a sensibilidade flagrante de de Toth para flagrar um
mundo sujo em que a violência sai dos gestos dos
personagens e das ações e é dirigida,
pelo estilo, direto ao espectador. Quem viu uma pérola
como Crime Wave, um dos melhores filmes dos anos
50, sabe disso perfeitamente. O Pistoleiro não
carrega a fama dos melhores filmes de André de
Toth, mas considerando sua quase invisibilidade no mundo
inteiro, é um filme a não se perder de
forma alguma. Quem exibe é o Cinemax Prime, às
21:30.
Dia 24/04
Continuando a saga semanal de filmes de Mazzaropi, o
Canal Brasil exibe Jecão... Um Fofoqueiro
no Céu (1976), direção de Pio
Zamuer e do próprio Amácio Mazzaroppi.
No filme, o Jeca ganha na loteria esportiva e entra
em conflito com o fazendeiro da região, que quer
tirar-lhe o dinheiro. Numa das tentativas, Jecão
é assassinado, mas engana os anjos e desce de
volta à Terra para proetger sua família
e colocar o assassino atrás das grades. Com apenas
meio milhão de espectadores, não foi um
dos grandes sucessos do ator-diretor-produtor, que vinha
de grandes êxitos de 2,3 milhões de espectadores
registrados. Passa às 23:35. Mais à noite,
Marco Altberg seleciona A Lenda de Ubirajara (1976),
segundo longa-metragem de André Luiz Oliveira
o primeiro é o mítico Meteorango
Kid, Herói Intergalático , para
o Cineclube do canal, às 02:15.
Dia 25/04
Aproveitando que Clube da Lua está aí
nos cinemas, o Telecine Cult exibe O Mesmo Amor,
a Mesma Chuva (El mismo amor, la misma lluvia,
1999), primeira colaboração entre o diretor
Juan José Campanella que se divide entre
dirigir filmes argentinos e seriados americanos como
Law and Order e o ator Ricardo Darín,
um trabalho conjunto que dera antes o eficiente e lacrimejante
O Filho da Noiva (2001), muito bem-sucedido entre
o público cult do Rio e de São Paulo.
O filme passa às 22:00. Mas o verdadeiro destaque
do dia é A Condessa de Hong Kong (A
Countess from Hong Kong, 1967), que o Film &
Arts passa às 20:00. Último filme de Charles
Chaplin, A Condessa... fecha um ciclo de vinte
anos de incompreensão e comparações
inapropriadas com as obras anteriores de seu realizador.
como uma série de grandes realizadores que pertenceram
intimamente à moda da época e se desligaram
dela, o desprezo e a facilidade de se livrar da obra
sem um maior cuidado é impressionante, e só
torna a visão desses filmes em algo mais necessário
e emocionante.
Dia 26/04
Novamente Marco Altberg seleciona outra pérola
obscurecida da década de 70. Dessa vez, é
Perdida, uma Mulher da Vida (1976), de Carlos
Alberto Prates Correia. Prates teve uma carreira sólida
nos anos 70 e 80, com direito a prêmios nos principais
festivais nacionais, mas fazendo filmes que estavam
longe do convencional e apresentando uma estética
nada consensual. Infelizmente, ele não consegue
rodar nada desde Minas Texas, ou seja, há
17 anos, enquanto tantos outros empulhadores sem talento
têm livre acesso a nosso mercado cinematográfico.
É como as coisas funcionam. Independente disso,
resta o esplendor de Perdida, possivelmente o
melhor filme de Prates Correia, que brilha acima de
toda a laia. O filme passa às 22:35.
Dia 27/04
A Noite Nostalgia do Eurochannel, que acontece a cada
última quinta-feira do mês, desta vez não
é dedicada a um cineasta, mas a uma atriz. Não
qualquer atriz, mas uma das mais preciosas, belas e
talentosas estrelas do cinema, Claudia Cardinale. Nessa
dose dupla, o primeiro filme é A Moça
com a Valise (La ragazza con la valigia,
1961), de Valerio Zurlini, já destacado aqui
mais cedo neste ano. Em seguida, o canal passa um filme
ainda inédito em sua programação,
A Tenda Vermelha (Krasnaya palatka, 1971),
dirigido por Mikhail Kalatozov, realizador soviético
famoso por ter feito Soy Cuba e Onde Voam
as Cegonhas. A Tenda Vermelha é o
último filme do diretor, e uma co-produção
entre União Soviética e Itália,
co-estrelada por Sean Connery, com uma versão
original de 3h15 e uma versão
internacional, explorada comercialmente, de 2h01, e
é essa, infelizmente, que o canal vai exibir.
Ainda assim, seja pelo diretor, pela atriz, pelo ator,
e pela peculiaridade do projeto, é um filme digno
de não se perder (Há também de
se mencionar que o filme foi rodado no curioso processo
Sovoscope 70, um Scope soviético, com um formato
de 1:2,20, para depois ser reformatado em 35mm e 1:1,66).
A Moça com a Valise, um Zurlini obrigatório,
passa às 22:30, e A Tenda Vermelha, um
raro Kalatozov (ou Kalatozishvili, como prefere o IMDb),
à 00:30. Nos outros canais, temos o Telecine
Cult estreando Lili, Minha Adorável Espiã
(Darling Lili, 1971), notório e controverso
filme de Blake Edwards, em que o diretor brigou com
o estúdio pelo corte final e, anos depois, lançou
uma versão "director's cut" inabitualmente
reduzida no tamanho em cerca de meia-hora. A versão
que o TCC exibe também não é considerada
a versão "do diretor", mas a do estúdio.
Fechando um dia cheio, vale a menção de
Caingangue A Pontaria do Diabo (1973),
filme de Carlos Hugo Christensen que ocupa a seção
Brasil Cult. Faroeste brasileiro, tentando entrar na
onda dos filmes italianos, o filme é mais uma
incursão de Christensen numa área que
ele quase sempre habitou, a do gênero estiloso,
tentando misturar os gêneros que trabalhava com
um toque mais ornamental, só que infelizmente
sem a abstração genial de figuras como
Seijun Suzuki, Jean-Pierre Melville e, claro, Sergio
Leone. O filme passa às 22:35.
Dia 28/04
Num dia sem maiores atrativos para ficar em casa em
frente à televisão à espera de
bons filmes na programação a cabo, aparece
uma curiosidade que, no mínimo, diz respeito
a um belo filme de um grande autor, Nicholas Ray. Trata-se
de Algemas Partidas (Let No Man Write My Epitaph,
1960), filme de Philip Leacock baseado em livro de Willard
Motley, e espécie de "continuação"
de O Crime Não Compensa (Knock on any Door,
1949), que Ray realizara com Bogart no começo
de sua carreira. Se isso não é atrativo
o suficiente, basta adicionar que este é o único
filme em que você poderá ver ao mesmo tempo
Shelley Winters, Jean "New York Herald Tribune"
Seberg e a cantora Ella Fitzgerald. Não é
a maior das inutilidades. Algemas Partidas passa às
18:30, no Cinemax Prime.
Dia 29/04
Já é comum aparecerem dias de sábado
em que a maior atração não é
nenhum dos filmes que passam no "horário
nobre" de sábado à noite. Mas dessa
vez temos atrações de luxo fora dos grandes
canais de lançamento, mas também dentro
deles. A começar por A Vila (The Village,
2004), um dos grandes filmes feitos nessa década
até agora, que a HBO exibe às 21:00. O
filme assume uma relação quase terrorista
com seu espectador, mostrando um suspense que se realiza
lá pela metade do filme e, em seguida, nos fazendo
acompanhar uma fábula política muito mais
pungente, a necessidade (ou não) do isolacionismo
para criar uma sociedade sã e não-violenta.
Mensagem que atinge diretamente os EUA e sua política
externa, mas também atinge intimamente a natureza
das relações entre dentro e fora, em nível
individual, familiar, profissional, etc. Ao invés
de criar um mostro que está do lado de fora,
talvez seja sempre olhar para o evil within,
como dizem os americanos. Enquanto isso, o Telecine
Premium estréia um filme que está entre
"aqueles que não podemos mencionar",
mas no Telecine Cult teremos uma dose dupla de Jet Li
e um dos mais belos filmes de Spike Lee, Crooklyn
Uma Família de Pernas pro Ar (Crooklyn,
1994), este último às 22:00. Mais cedo,
passa Nascido para Vencer (Zhong hua ying
xiong, 1986), único filme dirigido por Jet
Li até a presente data. O filme não conta
entre os filmes mais celebrados pelos fãs do
ator ou do gênero, mas vale como uma curiosidade.
Já O Mestre (Long xing tian xia,
1989) é o primeiro trabalho de colaboração
entre Tsui Hark como diretor e Jet Li como protagonista,
o que iria culminar na épica saga de Wong Fei-Hung
com os seis episódios de Era uma Vez na China
(sendo que Tsui dirigiu apenas os três primeiros).
Como todo filme de Tsui Hark, é um filme para
se ver pela incrível agilidade da montagem que
por várias vezes ultrapassa nosso entendimento
(mas não é feita apenas para parecer "dinâmica",
como a maioria). Então, vamos de programa triplo
para o sábado: Nascido para Vencer às
18:30, O Mestre às 20:15 e Crooklyn
às 22:00.
Dia 30/04
Das quatro versões cinematográficas de
O Grande Gatsby, nenhuma delas ganhou voga suficiente
para fazer parte da memória do cinema mundial.
Aliás, a própria carreira de Scott Fitzgerald
em Hollywood, como colaborador não-creditado
em uma série de filmes ao longo dos anos 30,
tampouco deu obras que ficaram na memória das
multidões ou dos círculos cinéfilos
(à exceção talvez de The Women,
de George Cukor [1939], e, claro, de Three Comrades
[1938], roteiro assinado por Fitzgerald e dirigido por
Frank Borzage). Em todo caso, o Telecine Cult exibe
a segunda versão de O Grande Gatsby (The
Great Gatsby, 1949), filme dirigido pelo bastante
anônimo Elliott Nugent, estrelando Alan Ladd.
Uma curiosidade: no Brasil, o filme se chamou Até
o Céu Tem Limites. Lírico, não?
Dia 01/05
Raoul Peck aparecera anteriormente com certos filmes
políticos, focando especialmente em países
africanos (dois filmes sobre Lumuba, por exemplo) e
no Haiti (também dois filmes), seu país
de origem. Abril Sangrento (Sometimes in April,
2005) é um filme de ficção, mas
que tenta trazer à luz de um público mais
amplo uma série de informações
sobre o genocídio de Ruanda em 1994. O filme
passa na HBO às 21:00 e, supõe-se, deve
apresentar mais do que um formato ecoturístico
de veemência prêt-à-porter como
a bobagem que é O Jardineiro Fiel. Já
no Canal Brasil, continuando a maratona em homenagem
a Mazzaropi, o canal quebra a corrente cronológica
e sai da década de 70 para voltar aos anos 50,
exibindo Chico Fumaça (1958), dirigido
por Victor Lima. Oitavo filme de Mazzaropi, em que nosso
herói salva um trem de descarrilar e adquire
notoriedade imediata, indo para a cidade grande, transformando-se
em político
e sendo assediado por uma infinidade de mulheres bonitas.
O filme passa às 22:35.
Dia 02/05
Para grande parte dos detratores, e até mesmo
dos admiradores, de Louis Malle, a parte mais rica de
sua filmografia são os documentários.
Assim como Werner Herzog, Malle dividiu-se entre ambos,
e seus filmes de ficção costumam ser apenas
as facetas mais conehcidas de um trabalho mais complexo.
A TV5, que já realizou outrora um ciclo com alguns
dos documentários de Malle, nos dá uma
chance de flagrar o primeiro episódio de uma
série que o diretor fez sobre a Índia,
L'Inde fantôme, em 1968. O filme passa
às 14:20. Mais à noite, o Telecine Cult
estréia um filme que, se bobear, ainda está
passando em cartaz por algum canto do país. Trata-se
de As Chaves de Casa (Le chiavi di casa,
2004), de Gianni Amelio. Cineasta da contenção,
resvalando por vezes num academicismo e numa certa entrega
à convenção, Amelio é capaz
de realizar filmes de uma secura exemplar (Golpe
no Coração, sobretudo, mas também
As Portas da Justiça ou Lamerica).
As Chaves de Casa é bem mais seco do que
um filme com essa temática um pai redescobre
depois de anos a possibilidade de amar seu filho com
paralisia cerebral poderia ser, mas ainda assim
resvala numa obrigação de estrutura ficcional
meio banal, que não faz bem nenhum ao filme (o
momento em que o filho some tira o filme do ritmo e
não faz com que se ganhe nenhuma tensão;
pode-se dizer o mesmo da infame cena de natação
em Diários de Motocicleta). Ainda assim,
o filme é capaz de algumas cenas bastante fortes,
e é dono de uma trilha sonora bela e delicada
como não se vê há muito no cinema
de circuito comercial. O filme passa às 22:00.
Dia 03/05
Dira Paes, uma das atrizes mais talentosas de sua geração,
escolhe A Lira do Delírio (1978) para
passar no Canal Brasil nessa quarta-feira, às
22:35. O filme de Walter Lima Jr. participa de um momento
de grande vitalidade do cinema brasileiro, em que os
diretores preferiam uma urgência que convivia
com uma atuação fortemente física
por parte dos atores (Ato de Violência,
Bar Esperança, Tudo Bem e sobretudo
Muito Prazer). Resulta que Walter Lima Jr. fez
um de seus filmes mais poderosos, em que a velocidade
supera a delicadeza. É também o filme
da vida de Anecy Rocha, irmã de Glauber e esposa
de WLJr., tragicamente falecida num acidente de elevador.
Pena que no cinema brasileiro recente ninguém
ainda teve a idéia de dar um papel semelhante
para Dira Paes, que ainda pede um grande personagem.
Enquanto se distrai com os menores, como em O Casamento
de Louise, continua dando de dez e valendo o filme.
Mais tarde, no mesmo canal, temos dois filmes de Claudio
Cunha passando em seqüência. À 00:30,
passa Sábado Alucinante (1979), já
comentado nesta tribuna há algum tempo atrás,
a respeito de suas peculiaridades geracionais. Em seguida,
às 02:20, passa o menos exibido Gosto do Pecado
(1980), em que também estrela Simone Carvalho,
uma das starlets do começo dos anos 80
e por longa data esposa do diretor, com quem rodou o
Brasil inteiro com a peça O Analista de Bagé.
Diretor de pérolas como Oh! Rebuceteio e
Snuff, Vítimas do Prazer, Claudio Cunha
é um dos poucos diretores da pornochanchada que
ainda merecem uma reavaliação
à altura de sua obra (considerando que Jean Garret
e Ody Fraga, mal ou bem, já têm seu quinhão
de respeito)
Dia 04/05
Dupla de estréias no Telecine Cult. A primeira,
às 20:00, é O Morro dos Ventos Uivantes
(Wuthering Heights, 1939),
na versão de William Wyler. O filme teve mais
de uma dúzia de adaptações para
o cinema, passando por diretores importantes, como Luis
Buñuel e Jacques Rivette. A versão de
Wyler com Laurence Olivier como Heathcliff é
a mais famosa de todas, mas de Wyler sabemos esperar
toda a pompa e o peso, ainda mais quando se trata de
uma obra da literatura universal. Em seguida, às
22:00, passa O Último Tango em Paris (Ultimo
tango a Parigi, 1972), de Bernardo Bertolucci, que,
tomadas as devidas proporções, bem poderia
receber atribuições semelhantes às
de Wyler, filtrando uma matriz clássica para
uma moderna. Mas o peso na construção,
a dramaticidade construída par sentir prazer
na privação dos personagens, um ligeiro
gosto perverso que é logo devorado pela necessidade
de normalidade, isso tudo une esses dois cineastas de
maneira pouco previsível mas efetiva. Preferível
aos dois é Sem Essa Aranha (1970), um
dos petardos lançados por Rogério Sganzerla
na Belair para destruir as bases do cinema convencional
e explodir por dentro a lógica do "cinema
sério" brasileiro. O filme passa na sessão
Brasil Cult às 22:30.
Dia 05/05
O Mar por Testemunha (Dead in the Water,
2002) é um filme do brasileiro Gustavo Lipsztein,
apenas exibido aqui no país em mostras (para
uma crítica do filme, clique aqui).
Entre as polêmicas, o fato do filme ter um formato
muito próxmo do gênero americano foi a
única possível discussão sobre
o filme, jogando uma cortina de fumaça para os
menores aspectos de construção do filme.
Quem sabe a tv a cabo é a oportunidade de travar
contato com o filme em outras bases, para bem e para
mal. Passa no Cinemax às 22:00. À 00:30,
no Canal Brasil, passa Karina, Objeto do Prazer
(1981), filme de Jean Garret com Angelina Muniz e uma
série de técnicos e diretores da boca
como atores: Claudio Cunha, Rajá de Aragão
e Claudio Portioli. Considerando que é um filme
que não está entre as fiugurinhas fáceis
da programação softporn do canal, vale
a pena o registro.
Dia 06/05
A disputa entre as principais estréias da semana
no horário nobre de sábado fica dividida
entre filmes com algum interesse e só: a HBO
passa Espanglês (Spanglish, 2004),
de James L. Brooks, às 21:00, enquanto o Telecine
Premium exibe Entrando Numa Fria Maior Ainda (Meet
the Fockers, 2004), de Jay Roach, às 22:00.
Dois perfis de comédia de costumes, uma no ramo
mais sofisticado (Brooks), outro de feito mais comercial
(Roach), mas nenhuma das duas com aquilo de distintivo
suficiente para fazer de um filme algo imperdível.
Melhor mesmo é esperar um pouco e zapear até
o Film & Arts, que à meia-noite de sábado
para domingo exibe Cerimônia Secreta (Secret
Cerimony, 1968), filme de Joseph Losey estrelado
por um trio da pesada: Elizabeth Taylor, Robert Mitchum
e Mia Farrow. Curioso que ninguém mais mencione
a carreira de Losey, cineasta que ficou conmhecido apenas
por ter entrado na lista negra americana e ter feito
alguns dos filmes dos "angry young men" britânicos,
principalmente O Criado (The Servant),
mas Losey é bem maior do que isso.
Dia 07/05
Numa semana regular no que diz respeito a estréias
e a filmes de difícil acesso, a maior raridade
fica para o domingo, quando a TV5 exibe Macadam
(1946), último longa-metragem de Jacques Feyder,
que cede a co-direção a Marcel Blistène.
Feyder morreria dois anos depois, tendo deixado alguns
filmes renomados entre eles La Kermesse héroïque
e gravado seu nome junto com Carné na
chancela do realismo mágico francês. Macadam
conta com uma das primeiras damas desse gênero,
Françoise Rosay, e com a presença quase
juvenil de Simone Signoret,que contava então
com 25 aninhos. O filme passa às 20:25. Um pouco
antes, às 19:40, o Telecine Cult estréia
A Cicatriz (Blizna, 1976), primeira experiência
de Krzysztof Kieslowski no longa-metragem, depois de
uma série grande de filmes curtos para a televisão
e para o cinema. O nexo entre falta de sentido e o ambiente
político da Polônia naquele momento é
flagrante, e a secura do filme garante seu interesse.
Kieslowski na Polônia e Kieslowski na França
são como duas pessoas diferentes fazendo obras
diferentes. Na França, a sensibilidade de KK
assume ares de uma banailidade pseudo-existencialista
que na realidade é exasperantemente de sacristia.
Dia 08/05
Sexto filme de Mazzaropi, Fuzileiro do Amor (1956)
participa de um momento diferente daquele que o eternizou
como o Jeca dos anos 60 e 70. Neste filme, produzido
entre Rio e São Paulo por diretor e roteirista
que trabalhavam no Rio (Eurides Ramos e Victor Lima),
nosso herói vai para o exército para agradar
o pai de sua namorada, e instaura o caos dentro do quartel.
O filme conta com a participação especialíssima
da cantora Ângela Maria, que canta um número,
dos atores Wilson Grey, Daniel Filho e Agildo Ribeiro,
e conta com produção musical de Radamés
Gnattali. O filme passa no aparentemente vitalício
ciclo que o Canal Brasil dedica aos filmes de Amácio
Mazzaroppi todas as segundas-feiras às 22:35.
Bom que dedica, porque há muito tempo que não
tem atração nenhuma além dessa
nas segundas-feiras...
Dia 09/05
Sidney Lumet e Willilam Friedkin partilham uma repercussão
crítica semelhante. Ambos são donos de
carreiras coerentes e coesas, mas ao mesmo tempo de
uma espécie de distinção discreta
na mise-en-scène e na escolha de seus temas.
Não há maneirismos de câmera, fotografia
ou montagem que revelem de primeira um efeito de assinatura,
e tampouco uma postura breakthrough que busque levar
o gênero para um novo patamar (seara em que geralmente
entram os grandes impostoresda vida). A carreira de
ambos os cineastas é, em comparação,
quase anônima, daí a freqüente denominação
deles mais como artesãos competentes do que como
autores, embora alguns sinais um tanto evidentes os
coloquem numa categoria acima. Então, é
curioso e sintomático que Friedkin tenha filmado,
em 1997, o primeiro filme que Sidney Lumet dirigiu,
Doze Homens e uma Sentença (Twelve
Angry Men, 1997), filme que o Telecine Emotion exibe
às 22:00. Curioso, já que as preocupações
de um não necessariamente refletem as do outro.
No mesmo horário, o Telecine Cult estréia
em sua programação 800 Balas (idem,
2002), filme de Álex de la Iglesia feito entre
A Comunidade e O Crime Ferpeito, que não
chegou a ser nem lançado nem estreado em festivais
no Brasil. Quem já viu um filme dele sabe o que
esperar: algumas piadas referenciais, alguma medida
de apuro visual barroco, e uma trivialidade que pode
desagradar a alguns e agradar a outros. Como Peter Jackson
antes de ser um autor multimilionário, Álex
de la Iglesia mostra um carinho muito grande pelo cinema
de gênero de baixo orçamento, mas esse
carinho se transforma rapidamente em uma apologia trash
que tem um interesse bastante reduzido.
Dia 10/05
Um diretor que precisou ficar velhinho para que todo
mundo visse nele mais do que um entertainer,
Blake Edwards tem
sua carreira dentro de Hollywood sobretudo como um diretor
de comédias, cujas obras mais famosas seriam
os filmes com Peter Sellers como o Inspetor Clouseau.
É bastante curioso que parte de seus filmes,
entretanto, não circule muito sobretudo
quando não se trata de comédias. É
o caso de Escravas do Medo (Experiment in
Terror, 1962), filme estrelado por Glenn Ford e
Lee Remick, num jogo de gato e rato em que o ladrão
chantageia a secretária a ajudá-lo num
roubo a banco, e ela conta com a ajuda da polícia
para que ele não faça mal a sua irmã
que é refém dele. No Brasil, o filme está
indisponível em qualquer formato, só sendo
visível quando passa no Cinemax Prime. E, embora
no ano passado esse filme já tenha sido recomendado,
não custa chamar a atenção para
ele novamente. Escravas do Rancor passa às 12:45.
Num dia como essa quarta-feira, que não tem nada
de muito relevante a destacar, uma figurinha repetida
está de bom tamanho.
Dia 11/05
Para compensar a quarta-feira sem estréias, duas
estréias da pesada nesta quinta-feira. Às
19:20, o Telecine Cult relembra seu passado de Classic
e exibe um dos cineastas retrospectados quando o canal
dava mais atenção a filmes de 1970 para
trás. O diretor é Joseph L. Mankiewicz
e o filme em questão é Eles e Elas
(Guys and Dolls, 1955), com Marlos Brando, Jean
Simmons e Frank Sinatra. A década de 50 é
o período em que o cinema de JLM está
no auge, começando com A Malvada, passando
por A Condessa Descalça e terminando em
De Repente, no Último Verão (com
outras pérolas menos conhecidas entre estes filmes,
como Dizem Que É Pecado e Um Americano
Tranqüilo). Pena que o TCC não vai exibir
o filme no formato correto (como o filme aliás
já tinha passado na época em que quem
programava o canal gostava de cinema e se preocupava
com a maneira correta de exibir os filmes), preferindo
um full-screen que destrói a elegância
e o senso de enquadramento de Joseph L.Mankiewicz, mostrando
apenas 50% do 1:2,55 do CinemaScope original. Já
na TV5, passa um filme de Barbet Schroeder que também
é indisponível no Brasil, Os Trapaceiros
(Tricheurs, 1984). O filme é estrelado
por Jacques Dutronc, famoso como cantor popular na França,
mas também ator em filmes como A Teia do Chocolate
de Chabrol e sobretudo Van Gogh de Maurice Pialat,
e também conta com Bulle Ogier, grande atriz
do teatro e do cinema (sobretudo com Rivette) francês.
Já Schroeder pode ir do mais desbravador (More,
Nossa Senhora dos Assasinos) ao mais convencional
(Antes e Depois, Cálculo Mortal),
sendo que um não necessariamente produz melhores
filmes do que os outros. Os Trapaceiros passa
às 20:30.
Dia 12/05
Em 1989, quem era Stephen Sommers? Era simplesmente
um sujeito que dirigia seu primeiro filme a partir de
um roteiro original seu, Tudo ou Nada (Catch
Me If You Can), uma comédia de colégio
secundarista misturada com corridas de carros. Quase
vinte anos depois, Stephen Sommers é uma grife
e um diretor-produtor que se empenha em reatualizar
um certo imaginário de filmes-de-aventura-à-moda-antiga,
revitalizando filmes de terror (A Múmia),
de aventura (O Escorpião Rei), pérolas
da literatura infanto-juvenil (Huckleberry Finn)
e heróis do cinema de ficção científica
(um de seus próximos projetos é Flash
Gordon). Dentro desse cenário, um projeto
como o de Tudo ou Nada assume outros ares, prestando
referência a filmes como Juventude Transviada
e American Graffiti (talvez ele veja em George
Lucas uma espécie de modelo a seguir, e ambos
são muito coerentes em seus amores nostálgicos
pelo cinema de outrora). O filme passa no Telecine Cult
às 22:00.
Dia 13/05
Um sábado cheio de atrações meia-boca.
Bob Esponja O Filme estréia às
16:00 no Telecine Premium, como numa espécie
de horário nobre da criançada (o Telecine
não tem um canal como o HBO Family para um público
infantil), e Mar Adentro (idem, dir. Alejandro
Amenábar, 2004) estréia no horário
nobre adulto, às 22:00. Já na HBO, a estréia
mais chamativa da semana é Blade Trinity (idem,
dir. David S. Goyer, 2004), às 21:00. Se nenhuma
dessas opções sustenta um interesse, a
saída pela direita é mergulhar no Disney
Channel e, já tendo visto o belo e irregular
O Novo Mundo de Terence Malick, assistir a Pocahontas
(às 20:00) e a Pocahontas 2 Viagem
a um Novo Mundo (às 21:30) para compreender
melhor alguns aspectos de como cada diretor dá
ênfase a algum dos aspectos de uma das histórias
mais conhecidas e repetidas da história americana
(embora naquele momento "América" fosse
apenas um território sem nome). [continua]
Dia 14/05
E, em seguida, é bom emendar com Flechas Flamejantes
(Captain John Smith and Pocahontas, dir. Lew
Landers, 1953), mais um filme que relata o encontro
do conquistador dos mares com a nativa indígena
que deu o primeiro romance interracial da América
do Norte e o feriado norteamericano de Ação-de-Graças.
O filme estréia no Telecine Cult às 14:30.
Mas, em mais um domingo morno, talvez a maior atração
seja mesmo Ninguém me Ama (Personne
ne m'aime, 1994), primeiro longa-metragem de Marion
Vernoux o que não quer dizer grande coisa
com um elenco composto por pilares do cinema
de autor francês, como Bernadette Lafont (Eustache,
Chabrol), Bulle Ogier (Rivette) e Jean-Pierre Léaud
(Truffaut, Godard, Eustache) o que já
é alguma coisa. O filme estréia na programação
da TV5 às 20:25.
Dia 15/05
Norman Z. McLeod é um desses diretores que provavelmente
nunca terá um estudo mais detido, embora tenha
trabalhado com uma série de comediantes considerados
de ponta na Hollywood dos anos 30 e 40. O Valente
Treme-Treme (The Paleface, 1948) é
o segundo dos cinco filmes que McLeod fez com Bob Hope
como protagonista. Para cinéfilos, no entanto,
o maior interesse deste projeto é que nos créditos
de roteirista consta Frank Tashlin, que dirigiria a
continuação quatro anos depois e receberia
seu primeiro crédito de diretor de um filme que
não fosse de animação. O filme
estréia no Telecine Cult às 22:00. Já
no Canal Brasil, continua a "horário Mazzaropi"
da segundas-feiras à noite, dessa vez com O
Noivo da Girafa (1957), dirigido por Victor Lima,
em mais uma parceria entre a Cinelândia Filmes
carioca e a Cinedistri paulista. No filme, Mazzaropi
trabalha no jardim zoológico e tem na girafa
do parque sua maior confidente. Além da girafa,
a co-protagonista do filme é uma Glauce Rocha
ainda bem moça, antes de completar os 30 anos.
Mais à noite, Dira Paes seleciona Dias de
Nietzsche em Turim (2001) de Julio Bressane para
passar no Cineclube do canal, às 02:15. Dá
água na boca imaginar um projeto de Bressane
com a musa Dira como atriz...
Dia 16/05
Kirk Douglas e George C. Scott como protagonistas, além
de aparições disfarçadas de Burt
Lancaster, Robert Mitchum, Frank Sinatra e Tony Curtis.
É A Lista de Adrian Messenger (The
List of Adrian Messenger, 1963), filme bastante
obscuro de John Huston que o Film & Arts exibe às
13:00 e às 20:00 nesta terça-feira. Ainda
que o filme não tenha boa reputação
entre os maiores admiradores de Huston (trata-se provavelmente
de um dos "one for them" da filosofia hustoniana),
é uma oportunidade um tanto rara para se deixar
passar assim facilmente. Ao fim do filme, pode-se zapear
para o Telecine Cult, que estréia em sua programação
o filme Mayrig (idem, 1993), último longa-metragem
de Henri Verneuil, diretor mais conhecido por seus filmes
com pouca personalidade e com muito potencial comercial.
Mayrig é seu projeto mais ambicioso, adaptado
de um livro escrito por ele mesmo sobre o genocídio
que os turcos impuseram sobre os armênios em 1915.
Além do filme, estrelado por Claudia Cardinale
e Omar Sharif, o projeto rendeu uma versão duas
vezes maior, transformada em mini-série. É
bom se precaver para o academicismo exacerbado, mas
é sempre um prazer encontrar-se com la Cardinale...
assim como é também ótimo passar
um tempo com o trabalho de "fotojornalismo arte"
de Evandro Teixeira, a quem Paulo Fontebelle dedicou
um honesto e eficiente documentário, Evandro
Teixeira Instantâneos da Realidade
(2004). O filme passa na sessão É Tudo
Verdade, às 22:35.
Dia 17/05
Hell A Ira Está à Solta
(In Hell, 2003) é o terceiro longa-metragem
americano de Ringo Lam, e o terceiro com Jean-Claude
Van Damme como protagonista. Ainda que Lam não
seja um inventor como Tsui Hark, ele é um notável
encenador e um eficiente artesão. É uma
pena que, em três anos, ele não tenha feito
filmes nem nos EUA nem em Hong Kong. Hell passa
no Telecine Action às 20:10.
Dia 18/05
Último filme de Anselmo Duarte e possivelmente
seu filme menos conhecido , Os Trombadinhas
(1979) passa no Canal Brasil às 10:00 da manhã.
A partir de uma idéia original de Pelé
(que tem participação no filme), com um
roteiro de Carlos Heitor Cony e estrelado por Kátia
D'Ângelo (além de Neuza Amaral, Raul Cortez,
Paulo Villaça, Sérgio Hingst, Alberto
Ruschell...), o filme retrata o drama de meninos de
rua, como Favela antes dele e Pixote depois.
Mais à noite, o Telecine Cult estréia
em sua programação Moulin Rouge
(idem, 1952), em que John Huston (olha ele aqui mais
uma vez) faz uma cinebiografia do pintor e desenhista
Toulouse-Lautrec, encarnado aqui por José Ferrer.
O filme nada tem a ver com o filme de Baz Luhrmann,
a não ser o nome. A conferir às 19:45.
Mas o verdadeiro destaque do dia é a volta aos
melhores dias da TV5, que lança em sua programação
Tilai (idem, 1990), filme de Idrissa Ouedraogo
premiado com o Grande Prêmio do Júri em
Cannes 90. Junto com Abderrahmane Sissako (Mauritânia),
Souleymane Cissé (Mali) e Ousmane Sembene (Senegal),
Ouedraogo é um dos poucos cineastas africanos
a adquirir renome internacional e participação
em festivais. E o acesso a algum filme deles é
algo tão difícil quanto aparecer um novo
filme desses realizadores (Cissé, por exemplo,
não filma desde 1995). Tilai passa às
20:30.
Dia 19/05
Um dia dedicado a Jean-Luc Godard. Primeiro é
no Telecine Cult, que reexibe Alphaville às 19:30.
Por um misto de poesia naif e uma intriga de ficção
científica orwelliana, esse é um filme
que costuma ser admirado pelos detratores do cineasta
e, por uma conseqüência um tanto afetada,
menosprezado pelos godardianos. Naturalmente, o filme
não está entre os melhores trabalhos de
Godard, mas o uso do preto-e-branco para abstrair os
lugares e tornar tudo "futurístico"
é
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