1. Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive), de David
Lynch
2. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
3.
Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar
4. O Invasor, de Beto Brant
5. Edifício Master, de Eduardo Coutinho
6. Madame Satã, de Karim Aïnouz
7. O Quarto do Filho, de Nanni Moretti
8. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre
Jeunet
9.
História Real, de David Lynch
9.
Lúcia e o Sexo, de Julio Medem
Escolha da redação
1. Elogio ao Amor, de Jean-Luc Godard
2.
Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive), de
David Lynch
3. O
Invasor, de Beto Brant
4.
Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar
5. Edifício
Master, de Eduardo Coutinho
5. História
Real, de David Lynch
5.
Madame
Satã, de Karim Aïnouz
8.
O Quarto do Filho, de Nanni Moretti
9. Vou para Casa, de Manoel de Oliveira
10. Os
Excêntricos Tenenbaums, de Wes Anderson
(veja as listas de cada
um dos redatores de Contracampo)
1. Elogio ao Amor, de Jean Luc Godard
Quando foi exibido pela primeira vez, em maio de 2001, os Estados
Unidos eram um país ameno, que pregava a paz dos povos, como
na bela foto que elevava Bill Clinton à figura de Deus que vela
os encaminhamentos entre os povos da Palestina e os de Israel. Hoje,
janeiro de 2003, esse país sem passado, que se arroga o destino
do globo, é tão beligerante e perigoso quanto aparece
em Elogio ao Amor, como numa precognição ou numa
piada de mau gosto. Nesse filme de uma beleza árida e construída,
nada fácil, Godard não fala tanto do amor quanto mostra
por que ele é impossível no mundo de hoje, dá as
provas e esboça as soluções. Entre estas últimas,
a memória e a resistência figuram no mais alto escalão.
De quebra, um instante de cinema dos mais simples nos aparece como uma
das mais belas passagens cinematográficas do ano: a fusão do austero
preto e branco da película com o colorido desbotado do vídeo digital.
Godard, num simples corte, dá adeus a uma imagem (de cinema) que se
encerra e saúda uma outra imagem (de um outro cinema) que se inicia,
permitindo a ambas o contato. É a evidência de toda a curiosidade que
o jovem turco ainda mantém pelo suporte físico da imagem. (Ruy
Gardnier e Bruno Andrade)
leia aqui a crítica
do filme
2. Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive), de David Lynch
Numa narrativa sonhada de troca de identidades, sonhamos
e vivemos o pesadelo na cidade de sonhos com os anjos. Uma assassina
cheia de sono, dor de cabeça e culpa, tendo um sonho e muitos delírios
- de amor, tesão, ciúme, inveja e morte. O narrador parece fazer questão
de ser a má consciência de uma vida de ideais vulgares e de um mundo
que expurga os loosers - encontrando suas falhas, sua tristeza, fracasso
e suicídio. Fracasso, fracasso e mais fracasso - e estamos em Mulholland
Drive, estamos na periferia de Hollywood, a Cidade dos Sonhos! Apenas
um sonho ruim de uma ascensão que se perde? Quem dera, o pesadelo está
na cabeça de cada um - o recado está dado, sorte de quem estiver bem
vivo para entender. (Daniel Caetano)
leia
aqui a crítica do filme
2. O Invasor, de Beto Brant
Quando Gilberto diz a Ivan: "Não pense que você não está sujando
as mãos só porque é outra pessoa que está fazendo o serviço", este descobre
que ingressou definitivamente no Brasil dos Silveirinhas e Cacciolas.
Um mundo de ganância e impunidade, onde o que vale é a Lei do Gérson.
Mas chega uma hora que o povo se cansa de não participar do jogo e,
assim como Anísio, resolve cobrar seu quinhão, mesmo que seja a custa
do cumprimento das regras. É o "pesadelo da realidade", como diz o rap.
E enquanto Ivan vai percebendo que embarcou numa estrada sem retorno
e se tornando o verdadeiro invasor, Beto Brant vai se firmando como
o cineasta com a obra mais consistente e coerente dentre aqueles surgidos
no cinema brasileiro durante os últimos anos. (Gilberto Silva Jr.)
leia
aqui e aqui
as críticas do filme
4. Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar
Desde A Flor do Meu Segredo, Almodóvar nunca mais foi o mesmo.
Saiu de cena a histeria, entrou a melancolia. E é justamente pela suavidade
que seu cinema redobrou sua força: é da angustia interna, da fragilidade,
do abatimento que saem as emoções mais intensas. Há algo indizível em
seu filme, uma perplexidade inexorável - como as lágrimas que Marco
não consegue evitar. É uma perplexidade diante do mistério humano, do
enigma da alma. Radicalizando o espírito generoso e tolerante de Tudo
Sobre Minha Mãe, Almodóvar encontra personagens que buscam o outro,
que buscam entrar na fantasia do outro. Celebra, como nunca se viu,
a beleza da sensibilidade humana e da compreensão. Fale com ela. Só
faltou mesmo Caetano Veloso cantar : "Gente espelho da vida/ doce mistério/
vida doce mistério." (Bolívar Torres)
leia
aqui a crítica do filme
5. Edifício Master, de Eduardo Coutinho
Eduardo Coutinho subverte a noção tradicional de documentário-painel
ao negar a síntese do ambiente retratado por sua câmera. Não faz um
retrato do edifício, ou de Copacabana, ou da Zona Sul do Rio ou da classe
média. Limita-se a retratar os encontros com seus personagens para lhes
dar a chance de construir seus personagens. Os entrevistados elaboram
suas narrativas sem se ater a verdades objetivas. A verdade está na
retórica. Importa mais como eles se expressam do que os fatos narrados
propriamente ditos. No Master, não existem tipos, mas indivíduos. A
soma de suas singularidades pode até ser sintoma de algo maior, mas
deve ser compreendido a partir da riqueza de cada um. (Cleber Eduardo)
leia
aqui a crítica do
filme
5. História Real, de David Lynch
Costuma-se colocar História Real como um filme à parte
na carreira de David Lynch pois faltaria um elemento de estranheza (que
de acordo com os fazedores de moda e preguiçosos de plantão é a marca
registrada do diretor). Ledo engano, o toque de bizarria que aparecem
em vários momentos de sua obra sempre andou próximo ao lado que é revelado
(as cidades de Twin Peaks ou Veludo Azul parecem esconder
histórias tão humanas quanto à de Alvin Straight). Construído sobre
um magnífico trabalho com o tempo cinematográfico (e uma belíssima atuação
de Richard Farnsworth), História Real acaba se revelando um filme
justamente sobre o tempo. Seja este o que está marcado no rosto expressivo
de Farnsworth, seja aquele em que dura sua viagem que Lynch reconstruí
sem pressa, construindo ao longo do caminho algumas das imagens mais
fortes com que já nos brindou. Lançado aqui, por conta dos atrasos da
distribuição, quase ao mesmo tempo que Cidade dos Sonhos, História
Real ajudou a marcar 2002 como um ano especial para os fãs de Lynch,
com duas obras primas, ao mesmo tempo diferentes e complementares. (Filipe
Furtado)
leia
aqui a crítica do filme
5. Madame Satã, de Karim Aïnouz
O cinema brasileiro mostrou em 2002 um pungente retrato sobre a
luta entre exclusão/inclusão no Brasi de hoje (O Invasor),
um panorâmico retrato sobre um Brasil impossível de sintetizar
(Edifício Master), mas faltava um retrato do inconformismo
per se, daquele gênero de excluído que não
encontra seu lugar simplesmente porque não há lugar possível
para uma reconquista, uma reconciliação. A personagem
de Madame Satã serve de inspiração para Karim Aïnouz
contar a história não de um malandro qualquer, e muito
menos de um marginal sem igual, mas da própria resistência
agindo, de um cego inconformismo que iguala todas as instituições,
todas as hierarquias e derruba-as todas ao chão, tal a veemência
da vontade. A câmera abre mão de sua placidez usual para
seguir fielmente os corpos em movimento, traçando um bailado
revoltado, uma breve (e necessária) lembrança de que nem
o mais democrático regime possível conseguirá dar
lugar a quem nunca terá lugar. Juramento trágico, a meio
passo entre o "lance de dados (que) jamais abolirá o acaso"
de Mallarmé e a idéia de "parte maldita" de
Bataille, Madame Satã é por excelência o
filme político do ano. (Ruy Gardnier)
leia
aqui a crítica do filme
5. O Quarto do Filho, de Nanni Moretti
Um homem amargurado chega ao ginásio onde sua filha disputa uma
partida de basquete. Ela está com a bola na mão, mas percebe que o pai
lhe trouxe uma péssima notícia. A bola é abandonada enquanto o corte
nos remete a pai e filha chegando em casa e abraçando a mãe no hall
de entrada. Primor de decupagem. A sutileza no trato de emoções faz
a diferença neste filme soberbo de Nanni Moretti, diretor que sabe que
um plano não deve, jamais, chantagear o espectador. Embalado pela bela
balada de Brian Eno, o drama familiar torna-se tão trágico quanto desafiador.
E o obstáculo da desilusão é vencido, pois Moretti acredita na vida,
apesar de suas vicissitudes. E é sensível a ponto de fazer com que uma
preocupação do cotidiano, o treino do dia seguinte da filha, consolide
a reaproximação da família. (Sérgio Alpendre)
leia
aqui e aqui
as críticas do filme
9. Vou Para Casa, de Manoel de Oliveira
Um gesto de concisão e sabedoria. Filme de uma juventude singular,
de uma energia quase sussurrada. Olhar que atravessa o corpo de seu
personagem (e de seus “figurantes”) num meticuloso decalque de presenças
e ausências – através do pôr-se em cena, do dar-se à vida. Dos ciclos
de hábitos e pequenos afetos que ligam personagem, espaços e objetos.
(Do espetáculo teatral à representação do cotidiano. Da alegria de um
par de sapatos novos à tristeza profunda da saudade). Repentinos, o
personagem, o olhar e o cinema se retiram: “Vou para casa”, só isso.
Palavras de terna secura, de uma poderosa suspensão – Michel Piccoli
e Manoel de Oliveira lançam-se na simplicidade de uma história sobre
a perda e a solidão, sobre a rotina e a saudade; fazendo dela um desconcertante
elogio às pequenas permanências da própria vida e de sua sublime capacidade
de nos tirar de nosso próprio eixo. “Um homem livre pensa em tudo menos
na morte, e sua sabedoria é uma meditação não sobre a morte, mas sobre
a vida” (Spinoza, Ética). (Felipe Bragança)
leia
aqui a crítica do filme
10. Os Excêntricos Tenenbaums, de Wes Anderson
O
lanterna de nossa lista é o filme mais ambicioso do jovem Wes Anderson,
cujo talento foi alvo de uma de nossas primeiras seções de DVD/VHS.
Mesmo sem o frescor de Bottle Rocket ou a harmonia interna de
Rushmore, Os Excêntricos Tenenbaums dá provas de sobra
de que Anderson é uma voz nada desprezível entre seus contemporâneos:
além de um excepcional diretor de atores, seu olhar inconfundível e
extremamente original sobre as relações humanas encontra perfeita sintonia
em seu estilo peculiar. Não há mais nada que provar. Anderson é um cineasta
maior. (Fernando Veríssimo)
leia
aqui a crítica do filme
11. O ano não se faz só de dez filmes
excelentes. Uma revista também não. E ainda que estes
dez filmes acima tenham sido suficientes para garantir um ano repleto
de bons encontros e descobertas, é preciso também mencionar
filmes que fizeram a felicidade petit-comitée da Contracampo
em 2002. O primeiro desses é Sinais, de M. Night Shyamalan.
Estreado em época de festivais, o filme fez sensação
atrasada no conjunto da redação. Igualmente celebrado
foi Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira. Menos fluido e evocativo,
mais exigente e denso do que Vou Para Casa, esse filme de Oliveira
ficou também a dois votos de entrar no top-ten. Um dos
realizadores mais celebrados pela revista no ano lançou um filme
que não abre tantos territórios quanto ratifica os já
conquistados, o que foi suficiente para Fantasmas de Marte de
John Carpenter conquistar também seis menções.
O polêmico Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, dividiu
a redação, que não sabia se abria mais os olhos
para as inúmeras qualidades do filme (agilidade, senso de direção,
curto-circuito do pop com o social) ou os igualmente inúmeros
problemas (tipificação, simplificação, tarantinização).
Na dúvida, recebeu um número expressivo de votos. François
Ozon, adaptando uma peça de juventude de Fassbinder em Gotas
d'Água Sobre Pedras Escaldantes, realizou talvez seu
filme mais interessante, provocativo, com sotaques pó-mó,
mas definitivamente interessante. Admiradores da mise-en-scène
acima de tudo votaram em A Teia de Chocolate, de Chabrol; os
mais entusiasmados pelos dilemas humanos lembraram de A Agenda
de Laurent Cantet; os saudosos do grande espetáculo hollywoodiano
votaram em Onze Homens e um Segredo, provavelmente o melhor filme
de Steven Soderbergh; Os Palhaços de Federico Fellini
foi lembrado em chave mais nostálgica; e O Pornógrafo
de Bertrand Bonnello vem dar um sopro de vida no novo cinema francês,
fazendo da nudez objeto de excitação (Ovidie) e problematização
(o que enfim é pronografia?). Tudo isso para uma possível
lista B de Contracampo... (Ruy Gardnier)