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A patrulha das patrulhas
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Talvez um
dia Cacá Diegues venha a ser lembrado mais fortemente
por uma imagem verbal do que pelos filmes que realizou.
Mesmo admitindo o acerto de algumas fitas, sua intimidade
com a escrita foi capaz de cunhar um termo cujas façanhas
nenhuma de suas personagens cinematográficas recentes
conseguiram alcançar. Quando, logo no início da década
de 1980, denominou de “patrulha ideológica” aqueles que
o criticavam por fazer cinema popular, criou o instrumental
retórico perfeito para tipificar a esquerda dogmática.
Nem Tieta, nem Orfeu, nem o astrofísico Antônio e nem
mesmo o Deus brasileiro foram capazes de esteticamente
realizar o que no âmbito das práticas culturais a conjugação
destas duas palavras realizou: ser uma influência permanente,
um símbolo que nutre a imaginação coletiva a ponto de
paralisá-la em sua contemplação. Basta a simples elocução
para que o silêncio se instaure em qualquer assembléia,
e que do fundo da lembrança dos presentes os sons e as
imagens da repressão surjam em um prolongado fade
out. Qualquer tentativa de controle institucional
por parte do governo trás à memória o estigma de vinte
anos de ditadura. E
não há nada mais repugnante para um artista liberal que
censores organizados em patrulhas ideológicas.
A força sugestiva de “patrulha ideológica” provém da antipatia
comum que os dois termos provocam neste artista que chegou
à democracia após o longo período do Golpe. A união de
“patrulha” e “ideologia” numa única e potencializada expressão
de alerta, uma sirene e uma carteirinha da UNE, 1965.
Rondas militares, carbonos clandestinos, manifestos, códigos
de guerrilha ou jingles de gomas de mascar. “Patrulha ideológica”
sintetiza todo esta atmosfera um pouco literária para
quem cresceu durante a década de oitenta, mas efetivamente
sentida pelas gerações anteriores. Para estes últimos,
“Patrulha ideológica” sintetizava os traços da censura
num molde comum às feições do partidário da esquerda ou
da direita.
Desmascarar a insanidade totalitária passou a ser a grande
missão do intelectual em tempos de liberdade. Jogando
com o horror dos porões, com a melancolia do exílio e
os estrondos das bombas de gás lacrimogêneo, eles vêm
participando ativamente dos debates políticos atuais.
Vigilantes incansáveis, com o seu indicador apontado expõem
os stalinistas antes mesmo que suas bandeiras possam ser
desfraldadas no plenário. A veemência com que apontam
o que consideram uma blasfêmia individualiza de tal sorte,
que o stalinista queda isolado como uma obra de Oscar
Niemayer. Analisa-se o grau de trotskismo ou maoísmo do
discurso com rigor. Ou seja, com a atuação sistemática
de Diegues e asseclas, todos aqueles que tentam regular,
agenciar ou monitorar os gastos na cultura possuem grandes
probabilidades de serem tachados de patrulheiros ideológicos.
Suas vergonhas ficarão à mostra tão logo se ponham eretos
e a alvorada democrática banhe as regiões sombrias de
seu discurso.
Após vinte anos de democracia, causa estranheza que um
vocabulário limítrofe da ditadura venha a provocar tanta
pudicícia intelectual. Basta que ressoe “patrulha ideológica”
no recinto fechado para que o locutor reflita e, num ato
de repressão interna, sufoque o stalinista que existe
em seu peito, modere suas palavras de ordem e venha a
compor a linha de frente dos defensores de um Brasil republicano.
Assim, vemos crescer substancialmente a “patrulha das
patrulhas”, um regimento especial de homens e mulheres
dispostos a obstruir com sua firmeza moral os fantasmas
do atraso. A eficácia do “contra-patrulhamento” conseguiu
que as discussões em torno da Ancinav e das tvs digitais
fossem sufocadas antes que se alastrassem e mobilizassem
um número cada vez maior de stalinistas fanáticos por
controle.
Que fascínio estupefaciente será este que uma simples
expressão vem causando no âmbito das políticas culturais
brasileiras? Debates de importância estratégica ficam
paralisados pela atuação da patrulha das patrulhas ideológicas,
e o país parece envolvido em uma languidez nauseante cuja
química tóxica provém de uma mistura indefinível de medo
e nostalgia. O trauma adquirido na imposição de parâmetros
fascistas de produção cultural acaba confundindo-se com
um leve tremor fetichista diante de suas mordaças e carimbos.
Mais do que o temor justificável de recaída em uma nova
ditadura, a vigilância destes intelectuais desencantados
reflete a percepção velada de que vivemos somente para
perpetuar sua memória. Há um culto ao totalitarismo que
se manifesta através de sua irrefletida negação, um apego
a signos e expressões do passado cujo estreitamento se
produz na medida do maior repúdio.
Libertos do cativeiro,
estes homens e mulheres por vezes sentem o desamparo do
horizonte aberto, a vertigem da escolha irrestrita, e
cantam a época em que foram cativos, mas ao mesmo tempo
protegidos pela viatura das milícias. O mote deste canto
nostálgico chama-se “patrulha ideológica”. Talvez o solfejo
não seja totalmente consciente desta saudade adocicada.
Existiu a tortura, a imposição do silêncio e o
sofrimento. Mas, em meio à ritualística macabra do regime
militar, filmes continuaram sendo financiados a ponto
de até o momento superarem em número e diversidade a produção
da retomada. De uma certa forma, muitos cineastas tiveram
que negociar
com o regime para que amadurecessem estilisticamente e
chegassem hoje com uma obra consolidada. Dentre eles,
destacou-se o comandante da patrulha das patrulhas, Carlos
Diegues.
Não pretendo me aprofundar neste tema espinhoso, polêmico,
que foi a relação do cinema novo com a ditadura – não
quero me tornar a patrulha da patrulha das patrulhas ideológicas.
Este artigo foi escrito somente para ressaltar a influência
persistente de um vocabulário de caserna dentro dos debates
culturais contemporâneos. Percebo que enquanto os fantasmas
de Stálin e Geisel continuarem servindo para legitimar
o arquivamento de propostas, impedindo a ampliação do
diálogo, estaremos pagando um tributo à infâmia ao invés
de abrindo caminhos para a consagração da democracia.
Quando Cacá Diegues e seguidores gritam “patrulha ideológica”,
no fim das contas, plantam uma pista falsa para que continuem
a produzir seus filmes sem a inconveniência de quaisquer
critérios de financiamento público. Eles jogam com o medo
do totalitarismo para não serem importunados. Querem simplesmente
filmar a qualquer custo e mediante a condições alheias
as leis mais elementares, sejam as do mercado ou as do
estado.
Na Revista de
domingo de O Globo de 3 de setembro de 2006, quando
inquirido por Rodrigo Fonseca sobre se temia uma cobrança
do público com respeito aos dez milhões gastos em seu
último filme O maior amor do mundo, Cacá cortou logo a conversa dizendo “não preciso
dar satisfação a ninguém”. E, antes que o cineasta se
volte para nossa direção e nos aponte sua sanha anti-stalinista,
terminemos por aqui...
Guilherme Sarmiento |
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