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UM HOMEM DE VERDADE
de Rainer Werner Fassbinder, Alemanha,
1982 |
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Um homem encontra uma mulher. Eles se apaixonam. Passam
a viver juntos, têm filhos. Ela vai para Cuba atrás de
uma aventura amorosa. Ele vai morar nas montanhas com
os três filhos. Cinco anos depois da separação eles se
reencontram. Terminam juntos. Um Homem de Verdade
é basicamente isso, uma história de casal, história íntima.
Na verdade, uma história de deslocamento do íntimo, um
vai-e-vem entre o ciclo fechado sobre o casal e a presença
de um mundo que extrapola esse e todos os demais casais.
Até aí, não estamos falando de um filme com características
especiais ou inovadoras. O casal servindo de eixo privilegiado
para questionamentos existenciais, para dizer a verdade,
já tinha sido o mais recorrente núcleo dramático do cinema
moderno (de Antonioni a Godard, de Resnais a Oshima).
Perseguindo esse rastro moderno, Um Homem de Verdade
se sente à vontade para parafrasear Godard, ainda no começo
do filme, quando um executivo diz que não se trata de
“fazer justo um filme, mas de fazer o filme justo”, brincando
com a frase que seria citada ad infinitum após
Vento do Leste (“ce n’est pas une image juste,
c’est juste une image”). Os irmãos Larrieu, contudo, tinham
algo mais na manga quando quiseram transformar a trajetória
conjugal grosseiramente descrita acima em uma apaixonante
mistura de paisagens, gêneros cinematográficos, modos
de ficção e intensidades de atuação. Sem dúvida estamos
diante de uma obra muito superior às fusões previsíveis
entre uma típica figura do cinema moderno e os devaneios
oriundos do cinema de gênero ou de fantasias pessoais,
tudo devidamente tencionado por um novo estatuto da imagem
sem territórios nem fronteiras fixas. Assim como Reis
e Rainha, de Arnaud Desplechin, outro filme estrelado
por Mathieu Amalric, Um Homem de Verdade possivelmente
será visto no futuro como uma espécie de cartão-postal
dos anos 2000. A paisagem em questão, que fique claro,
é o estado afetivo do homem que adentrou esta década possuindo
entre trinta e quarenta e poucos anos. Tomando o exemplo
do Resnais de Amores Parisienses, foi com o auxílio
da canção de variedade (e as músicas compostas por Philippe
Katerine são excelentes) que os Larrieu deram, com Um
Homem de Verdade, uma belíssima contribuição para
esse novo almanaque sentimental. Por algum motivo, não
é mais tão fácil dizer “eu te amo”, e é aí que entra a
canção: é bem mais fácil cantar “eu te amo”.
Mathieu Amalric e Hélène Fillières são os atores encarregados
de protagonizar o casal, e o mínimo que se pode dizer
é que eles jamais serão esquecidos por quem assistiu ao
filme. A primeira parte do filme – Boris e Marilyne se
conhecem de manhã, se enamoram à noite e passam a viver
juntos ao custo de não mais que um falso-raccord
– parece a encenação das elipses de um daqueles comerciais
de margarina que mostram a vida como um bem-estar eterno
(o casal perfeito se conhece, depois se casa, tem filhos,
prospera, família saudável, oh happy day etc). Um Homem
de Verdade parte desse imaginário para inserir a heterogeneidade
que à publicidade não interessaria nem de longe. O casal,
aqui, não se fecha sobre si mesmo, sobre a consumação
de seu sonho de vida feliz em família. Existe um mundo
fervilhando em torno desse casal, portanto interferindo
em sua vida. Em se tratando de um filme tão conscientemente
povoado por clichês, a ponto de afirmar a capacidade da
realidade de produzir seus próprios filmes – e de gêneros
diversos – que se acavalam como num fluxo de programação
televisiva, é curioso ver uma ficção conjugal atingir
seu ápice longe do espaço entre quatro paredes. A parte
em que o filme se instala nos montes Pirineus mostra a
importância de uma estrutura que fuja à idéia de círculo
fechado. Não há apenas o casal em suas alegrias e desentendimentos,
precisando perfazer um ciclo de vida a dois até chegar
ao acordo tão esperado. Há o casal e o mundo. Boris (ou
Ris) e Marilyne (ou Mary) se reencontram ao acaso e se
redescobrem a céu aberto, rodeados pela grande Natureza
e inspirados pelos cantos de uma outra espécie (os pássaros
selvagens que eles observam fascinados). Foi preciso interferir
na vida deles, positivamente, a evidência de um mundo
repleto de desafios naturais, de dispêndio físico, de
alteridade. Mesmo na viagem de um a outro ponto do imaginário
lúdico proposto pela publicidade (o ambiente asséptico
do mundo corporativo e a casa na montanha), o caminho
se prova tortuoso e difícil.
Um Homem de Verdade nunca deixa de ser um filme
só, mas acontece sempre no plural. Não há movimento algum
no filme que se possa definir isoladamente, todas as situações
estão sendo constantemente relacionadas entre si, não
para que se anulem ou se substituam, e sim para que somem.
Habitar a cidade, o mar e as montanhas; viver dois romances
ao mesmo tempo; mudar de profissão, de país e até de nome;
falar a mesma coisa em mais de uma língua (francês e inglês,
por exemplo). Para todos esses empreendimentos, no entanto,
os personagens só dispõem de uma mesma vida e de um mesmo
corpo. E o filme, por sua vez, só dispõe de uma mesma
superfície, de uma mesma tela para transitar da comédia
musical ao drama domiciliar, do romance à aventura, do
documentário à la National Geographic ao western.
Como proceder, então? Como amalgamar tantas possibilidades?
A resposta está num diálogo do início do filme, quando
alguns colegas de profissão discutem a vinheta publicitária
a que acabaram de assistir e elogiam particularmente o
uso de uma técnica: a sobre-impressão. Essa é a figura
de linguagem que resume todo o filme, o que não se limita
ao uso marcante que os irmãos Larrieu fazem dela tanto
no início quanto no final do filme. A sobre-impressão
em Um Homem de Verdade se apresenta também em versões
mais sutis e elegantes. Quando Mathieu Amalric reaparece
imberbe no final do filme, por exemplo, a memória de nossa
retina restitui a barba em seu rosto, mistura dois estados
de uma mesma face – uma sobre-impressão encomendada ao
olhar do próprio espectador. Mais até do que se ele tivesse
se mantido barbudo, naquela cena temos a confirmação de
que, embora readquira o visual do início do filme, Boris
é um homem modificado pela vivência. Ou ainda: ele é uma
variedade de personagens condensados em um. A barba é
a lembrança de uma viagem que, aos olhos devidamente sensibilizados
pelo filme, não se apaga. O que uma pessoa foi e o que
ela é se sobrepõem. O “homem de verdade”, portanto, é
aquele que se assume como mais de um. Assim como o “filme
justo” consiste em vários filmes dentro de um. O que reúne
tudo é a ficção conjugal, a idéia de que é preciso achar
um ponto de interseção entre as diversas formas de vida
e de ficção, esse ponto nada mais sendo que a encenação
da vida de um casal em três fases determinantes: encontro,
separação e reconciliação.
Luiz Carlos Oliveira Jr. |
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