A Primeira Noite de um Homem,
de Mike Nichols


The Graduate, EUA, 1967, Cor


Antes da revolução

1967. Enquanto os EUA já se encontravam envolvidos até o pescoço no atoleiro vietnamita, explodiam pelo mundo movimentos, que chegariam ao ápice no ano seguinte (alguns mais, outros menos organizados), nos quais a juventude (mas não só ela) se colocava frontalmente em crise com os valores regentes que herdavam dos pais num mundo que passava pelo estágio mais agudo da chamada Guerra Fria e das intervenções anti-democráticas, inclusive no Brasil. Nos EUA, este foi um momento especialmente agitado nas universidades, e entre estas algumas das principais se localizavam na Califórnia, especialmente na área de São Francisco. Mas, afinal, por que começar um texto sobre A Primeira Noite de um Homem, uma "comédia romântica", com estas informações? Porque é impossível compreender o sentido da realização e dos temas deste filme sem colocá-lo neste contexto, e ver como "comédia romântica" pouco se aplica a ele.

Num certo momento do filme, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) vai à Universidade de Berkeley atrás da sua musa Elaine (Katharine Ross), e aluga um quarto numa pensão. O desconfiadíssimo proprietário pergunta: "Você não é um daqueles agitadores, não é?"; ao que ele, prontamente responde: "Oh, não!" Mas, se de fato Ben Braddock está longe de poder ser caracterizado como um "daqueles agitadores", segundo o conceito do seu senhorio (o que certamente incluiria reuniões secretas, panfletos, comícios e manifestações), é isso de fato o que ele é. Ben Braddock vive em A Primeira Noite de um Homem o trajeto que torna um jovem alienado, retirado do mundo, em um revolucionário.

É bem verdade que sua revolução está longe de incluir passeatas e palavras de ordem políticas, mas esta é só uma das provas da sutil habilidade de Mike Nichols em realizar um autêntico filme político (e não um tolo filme-panfleto). Se Nichols está falando neste filme das menores revoluções, aquelas que acontecem entre quatro paredes ou que afetam apenas três ou quatro pessoas, a força metafórica do trajeto de Ben Braddock é bem clara. O personagem que vemos no final é completamente diferente daquele que vimos no primeiro plano do filme (e não por acaso Nichols praticamente repete o mesmo enquadramento e canção no penúltimo plano), e o que acontece no meio disso é a descoberta de Ben do seu lugar no mundo, daquilo pelo que vale a pena lutar. A principal cena do filme para se entender isso é a do primeiro passeio noturno de Ben e Elaine, na qual eles selam a sua aliança numa conversa que não ouvimos, fechados num carro (numa "reunião secreta", como as que os "agitadores" fazem). Logo antes, ele havia confessado a ela que se sentia "jogando um jogo cujas regras não entendo, regras que foram criadas pelas pessoas erradas". Depois dali, Ben encontra um motivo para desafiar as regras e propor o seu próprio jogo.

Nichols escolhe um dos mais velhos dilemas humanos (o conflito de gerações) para usar como centro de atenção na exposição desta luta, mas ele está falando de muito mais do que isso. Está falando de um conflito de interesses, de motivações. Quando Ben volta para casa da faculdade, no início do filme, o que lhe falta é justamente isso: motivação. Ele não consegue entender do que falam as pessoas à sua volta ("deixe-me te dizer só uma palavra: plásticos", diz um amigo da família), o que esperam dele afinal, e o que ele mesmo deseja. Ben não vive exatamente um dilema geracional, portanto, e sim de conflito com os ideais daqueles que o cercam. Nichols deixa claro ao longo do filme que as questões relativas a estes ideais não são apenas coisas "dos nossos pais", como podemos ver nos personagens de Carl Smith e seus amigos, e sim um mal social, por assim dizer. Os ideais do filme, neste sentido, se aproximam totalmente dos movimentos de contestação da época, inclusive na seara cinematográfica (muito pode ser dito da influência das "novas ondas" do cinema mundial no estilo do filme de Nichols, sua câmera, sua montagem).

E é neste sentido que é importante entender aquela que talvez seja a principal personagem do filme, Mrs. Robinson (Anne Bancroft). A transformação da mulher liberada e dona do seu nariz do início do filme na quase-vilã recalcada do final nada tem a ver, por exemplo, com um olhar reacionário como o de Adrian Lyne em Atração fatal, e a personagem de Glenn Close neste (esta sim o fantasma da culpa de um "mau ato"). O que de fato explica a complexa relação de Mrs. Robinson com sua filha é a inveja de ver nesta a possibilidade de fazer com Ben a revolução que Mrs. Robinson não pôde fazer em seu tempo (em parte por causa da própria filha). Mrs. Robinson é o espelho distorcido deste espírito revolucionário, é o fruto da dor de uma revolução fracassada, abortada - personagem trágica por excelência. No final, ela diz à filha: "É tarde demais", e ouve como resposta "Não para mim".

Embora seja verdade que, no caso de Nichols, não desprovida de algum cinismo (mais tarde ele veio a declarar que acreditava que "Benjamin e Elaine vão acabar exatamente como seus pais"), a crença de que ainda não era tarde demais é o melhor resumo do filme e, talvez, dos sentimentos de toda uma geração, em 1967.

Eduardo Valente