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O Tesouro de Sierra Madre,
de John Huston

EUA, 1948
Sinopse
Tampico, México,
1925. Dobbs (Humphrey Bogart) vagueia mendigando pelas ruas da cidade.
Após conhecer Curtin (Tim Holt), outro americano em dificuldades,
ambos passam algumas semanas trabalhando para um empreiteiro desonesto
que desaparece sem pagá-los. Pernoitando num albergue, conhecem
o velho garimpeiro Howard (Walter Huston), que lhes fala sobre a possibilidade
de exploração de veios de ouro nas montanhas da Sierra Madre.
Quando Curtin e Dobbs conseguem receber seu salário na marra e
o último ganha um prêmio na loteria, os três apuram
o capital necessário para iniciar a viagem em busca do ouro. Liderados
pelo experiente Howard, o trio se embrenha pela floresta, conseguindo,
após meses de árduo trabalho juntar uma pequena fortuna.
Mas além da penúria, do isolamento e das constantes ameaças
de bandidos, terão também que enfrentar a ganância
e a cobiça, que gradativamente passa a se apossar de Dobbs, levando-o
à beira da loucura.
Ficha técnica
The Treasure of the
Sierra Madre, EUA, 1948, P&B, 126 min. Direção: John
Huston Produção: Henry Blanke/Warner Bros. Roteiro: John
Huston, baseado no romance de B. Traven Fotografia: Ted McCord Montagem:
Owen Marks Música: Max Steiner Elenco: Humphrey Bogart, Walter
Huston, Tim Holt, Bruce Bennett, Barton MacLane, Alfonso Bedoya
Prêmios
Oscar de melhor direção,
roteiro adaptado e ator coadjuvante (Walter Huston).
Globo de Ouro de melhor
filme, direção e ator coadjuvante.
Prêmio da Crítica
de Nova York para melhor filme e direção.
Prêmio de melhor
trilha musical no Festival de Veneza.
Filmografia de
John Huston (1906-1987)
(apenas como diretor de longa-metragens)
1941-The Maltese Falcon/Relíquia
Macabra *
1942-In This Our Life/Nascida
Para o Mal
1942-Across the Pacific/Garras
Amarelas
1948-The Treasure
of The Sierra Madre/O Tesouro de Sierra Madre*
1948-Key Largo/Paixões
em Fúria*
1949-We Were Strangers/Resgate
de Sangue
1950-The Asphalt Jungle/O
Segredo das Jóias*
1951-The Red Badge
of Courage/A Glória de um Covarde*
1951-The African Queen/Uma
Aventura na África*
1952-Moulin Rouge/Moulin
Rouge*
1954-Beat the Devil/O
Diabo Riu Por Ultimo*
1956-Moby Dick/Moby
Dick*
1957-Heaven Knows,
Mr. Allison/O Céu é Testemunha*
1958-The Barbarian
and the Geisha/O Bárbaro e a Gueixa
1958-The Roots of
Heaven/Raízes do Céu
1960-The Unforgiven/O
Passadp Não Perdoa
1961-The Misfits/Os
Desajustados*
1962-Freud/Freud,
Além da Alma*
1963-The Adrian Messenger
List/A Lista de Adrian Messenger
1964-The Night of
the Iguana/A Noite do Iguana*
1966-A Bíblia...No
Começo/The Bible...In The Beginning
1967-Casino Royale/Cassino
Royale, com Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish e Joe MacGrath
1967-Reflections in
a Golden Eye/Os Pecados de Todos Nós*
1968-Sinful Davey/O
Irresistível Bandoleiro
1969-A Walk With Love
and Death/Caminhando Com o Amor e a Morte
1970-The Kremlin Letter/Carta
ao Kremlin
1972-Fat City/Cidade
das Ilusões*
1972-The Life and
Times of Judge Roy Bean/Roy Bean, o Homem da Lei
1973-The Mackintosh
Man/O Emissário de Mackintosh
1975-The Man Who Would
Be King/O Homem Que Queria Ser Rei*
1979-Wise Blood
1980-Phobia
1981-Victory/Fuga
Para a Vitória
1982-Annie/Annie
1884-Under the Volcano/À
Sombra do Vulcão*
1985-Prizzi’s Honor/A
Honra do Poderoso Prizzi*
1987-The Dead/Os Vivos
e os Mortos*
Obs: Em asterísco
os filmes mais importantes, caso não haja espaço para a
filmografia completa.
Citações
Sobre a carreira:
"Acho que não
sou um diretor de estilo marcante. As pessoas dizem que sim, mas eu não
posso concordar com isso. Não vejo a menor semelhança, por
exemplo, entre A Glória de um Covarde e Moulin Rouge.
Por mais observador que seja o crítico, duvido que seja capaz de
afirmar que foram feitos pelo mesmo diretor. Já Bergmen tem um
estilo inconfundível. (...) Admiro diretores como Bergman, Fellini
e Buñuel, em que cada filme está, de certo modo, vinculado
a suas vidas particulares, mas nunca adotei este método. Sou eclético.
Gosto de me inspirar em outras fontes, que não tenham nada a ver
comigo; além disso, não me considero simples, única
e exclusivamente um diretor de cinema. É uma coisa para a qual
tenho certo talento e uma profissão, cujos princípios assimilei
no decorrer dos anos, mas também tenho um pouco de talento para
outras coisas, cujos princípios também assimilei. A idéia
de me dedicar a uma única atividade na vida me é inconcebível.
Meu interesse por boxe, literatura, pintura e cavalos tem sido, em determinadas
fases de minha vida, tão importante para mim, em todos os sentidos,
quanto dirigir filmes."
HUSTON, J. Um
Livro Aberto Trad. Milton Persson. LPM, Porto Alegre, 1987. Pag.408-409
Sobre o filme:
"Um dos motivos
que me levou tanto a insistir em fazer este filme foi o personagem do
velho garimpeiro, que logo vi que caía como uma luva em papai.
Telefonei-lhe assim que recebi o sinal verde para começar a produção.
-Pai, o pessoal vai
te convidar para fazer este papel no Tesouro. Você tem que
aceitar. O resultado será fabuloso. E, pai...eu quero que você
tire a dentadura pro filme.
-Pô! Vou ter
que tirar mesmo?
Expliquei-lhe que
achava que o velho Howard tinha que ser sensato, astuto e desdentado.
Ele concordou, mas sem demonstrar muito entusiasmo.
(...) Foi sem dúvida
o melhor desempenho de todos os filmes que já fiz até hoje.
(...) O Tesouro é um dos poucos filmes que não me
faz trocar de canal quando passa na televisão. A euforia daquele
momento de triunfo, quando ele dança diante da montanha, soltando
insultos a torto e a direito para seus compadres me deixa todo arrepiado
e de cabelo em pé: é um tributo à grandeza, (...)."
HUSTON, J. Um
Livro Aberto Trad. Milton Persson. LPM, Porto Alegre, 1987. Pag.170.
Sobre Humphrey Bogart:
"(...) Nunca
escrevi um filme especialmente para Bogey. Mas depois de ter feito a adaptação,
eu me dizia em seguida: ‘Apenas Bogey pode representar este papel’. Sempre
me espantei ao perceber a que ponto as pessoas se assemelham aos personagens
que representam. Bogart era semelhante, na vida, aos personagens que representava
na tela. Mas não se pode dizer que era sempre o mesmo, um estereótipo.
Acho que havia um pouco dele no personagem de Uma Aventura na África.
(...) Era um companheiro maravilhoso. Não tinha nenhum senso de
seriedade. E, se percebia pretensão nos outros, atacava-os da maneira
mais direta."
CIMENT, M. Hollywood
– Entrevistas Trad. Élcio Fernandes. Brasiliense, São
Paulo, 1988. Pag. 124.
Texto de apresentação
Um dos mais célebres
trabalhos de John Huston, que muitos reputam como obra-prima, O Tesouro
de Sierra Madre, apesar de sabidamente ter sido planejado pelo diretor
como um projeto anterior à sua convocação como membro
do exército americano durante a 2ª Guerra Mundial e
adiado até o fim desta última, deve ser visto ,em seu produto
final, como um filme que carrega inequívocamente diversas marcas
do contexto histórico do pós-guerra e da participação
de seu diretor e roteirista como realizador de documentários para
as forças armadas. Tais documentários em nada agradaram
o Pentágono, por estarem carregados de intensa visão humanista
e pouco glorificadora das ações de combate, tendo sido em
grande parte mutilados (como The Battle of San Pietro) ou simplesmente
tido sua exibição vetada (o que ocorreu com Let There
Be Light, que retrata ex-combatentes superando seus traumas em um
hospital psiquiátrico). O íntimo contato com situações
de combate parece ter reforçado em Huston uma visão um tanto
cética com relação às contradições
inerentes ao ser-humano, sujeito a demonstrar seu lado negro em situações-limite,
sejam elas determinadas pela guerra ou pela ganância, que acaba
paulatinamente por contaminar Dobbs.
É certo que
o ceticismo de Huston mais se identifica com a sabedoria e desconfiaça
do velho Howard, o que fica claramente patente durante a sequência
na qual Dobbs, após receber o prêmio da loteria declara sua
amizade e soliedariedade a Curtin, acompanhado pelo olhar incrédulo
do garimpeiro, para quém este mais parece um momento de deja-vu,
já prevendo o que poderia suceder futuramente, e que, mais
interessado na fortuna propriamente dita, espera talvez uma última
grande emoção para o fim da vida, daí o seu entusiasmo.
Mesmo Huston não sendo de todo pessimista, contrapondo ao volúvel
Dobbs o ético e generoso Curtin, é certamente a força
do personagem Dobbs se impõe. Não só pela veracidade
com que roteiro e direção apresentam aos poucos suas transformações
psicológicas, e não se deve desconsiderar aí a dívida
para com a experiência de Huston com a psiquiatria em Let There
Be Light, mas também pela excelência da atuação
de Humphrey Bogart, que resgata muito dos papéis de vilão
que interpretara em inúmeros filmes dos anos 30, como Anjos
da Cara Suja ou Floresta Petrificada, antes de alçar
o patamar de astro, determinada pelo próprio Huston em Relíquia
Macabra e reforçada indelevelmente por Casablanca. A
condição de grande astro é também posta em
cheque pela premiada performance de Walter Huston, pai do diretor e um
dos grandes nomes do teatro americano na primeira metade do século
XX, convencido pelo filho a se apresentar sem dentadura.
Voltando à
contextualização de O Tesouro de Sierra Madre no
momento do pós-guerra, não podemos deixar de destacar a
contribuição do néo-realismo italiano, que tirou
o cinema do interior dos estúdios. Apesar de certamente não
manifestar afinidades temáticas ou estéticas com o cinema
de Rosselini, sem este é bem possível que O Tesouro
não tivesse sido uma das primeiras produções dos
grandes estúdios de Hollywood a ser quase inteiramente rodada em
locações fora do território americano, o que colabora
sobremaneira para a verossimilhança da fita. Foi esta segunda metade
dos anos 1940 o momento onde parece haver se iniciado a decadência
da política dos grandes estúdios, que já vinha sofrendo
alterações desde o início da década, com o
rompimento das funções estanque determinado pelo fenômeno
Preston Sturges, um dos primeiros roteiristas a acumular a função
de diretor, vindo a ser seguido por outros profissionais que se iniciaram
criando roteiros, como não apenas John Huston, mas também
Billy Wilder e Joseph L. Mankiewicz por exemplo, determinando um caráter
mais autoral dentro de um sistema de produção essencialmente
industrial.
Sem sombra de dúvida
um dos destaques dentro da irregular obra de seu diretor, O Tesouro
de Sierra Madre apresenta uma série de elementos recorrentes
em boa parte filmes de Huston, notadamente o empenho dos personagens em
alguma espécie de missão ou aventura, imbuídos de
um espírito que remete aos jogos de azar, sempre buscando romper
desafios, desafios estes que na maior parte acabam por esvair-se num esforço
inútil,como em Relíquia Macabra, O Segredo das
Jóias, O Diabo Riu Por Último, Os Desajustados, O Homem
Que Queria Ser Rei ou À Sombra do Vulcão.
Além disso, temos aquí um dos mais precisos e cruéis
retratos da eterna cobiça e avareza do ser humano, por sinal o
mesmo tema de outra obra-prima do cinema, Ouro e Maldição/Greed,
de Erich von Stroheim, que será muito adequadamente exibido
pela Sessão Cineclube ainda neste mês de junho.
Gilberto Silva Jr.
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