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Eureka,
de Shinji Aoyama

Japão, 2000
Em 2000, quando foi
exibido em pré-estréia mundial em Cannes, a imprensa internacional
não sabia o que fazer com Eureka. A começar por seu
formato: três horas e trinta e sete minutos, a maior parte dessa
duração filmada em preto-e-branco sepiatone (ou seja, todos
os tons de cinza e preto convertidos para sépia). E mais: uma cena
inicial de seqüestro de ônibus – quando foi exibido no Festival
do Rio em 2000 era impossível não fazer a relação
com o então recente episódio da linha 174 –, e depois cenas
e cenas de tempo dilatado, em que nada (ou aparentemente nada) acontece,
e três pessoas são simplesmente filmadas em atos cotidianos,
tentando conviver entre si e sobreviver ao acontecimento trágico
do início do filme.
Shinji Aoyama, até
então, era apenas um realizador desconhecido para a platéia
ocidental e razoavelmente conhecido para o público japonês
por fazer alguns telefilmes e longas-metragens que sempre eram comparados
ao cinema de Takeshi Kitano: filmes de ação lentos, contemplativos,
com uso forte de humor e efeitos de choque. Mas a comparação
com o mais celebrado cineasta japonês da atualidade esconde ao menos
um dado muito importante, talvez decisivo no cinema de Aoyama: seus personagens,
ao contrário dos policiais ou yakuzas filmados ou interpretados
por Kitano, são jovens deslocados no mundo de hoje, perdidos numa
imensidão de signos de comportamento e cultura pop (cabelos, roupa
e postura levam a crer que esses personagens são filhos de Kurt
Cobain, netos de James Dean, primos de Quentin Tarantino e consumidores
de toda a cultura mundial destinada aos jovens, de rock a cinema, de acessórios
a idéias).
Do condutor de ônibus
de Eureka para o estranho detetive Mike Yokohama de A Floresta
Sem Nome (exibido no último Festival do Rio BR, em 2002) muda
no fundo muito pouca coisa: no meio de uma trama de filme de gênero,
drama ou policial, instaura-se uma crise existencial que povoa tanto os
protagonistas quanto as pessoas de quem ele cuida (a família que
ele passa a criar em Eureka) ou os pacientes que ele observa (na
estranha clínica de A Floresta Sem Nome). À trama
de ação (em Eureka) ou policialesca (achar a filha
de um rico empresário em A Floresta Sem Nome) se substitui
não uma ausência de trama (como os detratores do filme gostariam
de acreditar), mas uma trama propriamente especulativa, em que aquilo
que deve ser decidido não é mais da natureza do romanesco
(ele conseguirá atingir sua missão? terminará ele
com sua amada? o bem vencerá finalmente o mal?), mas das escolhas
com as quais lidamos todos os dias (cuidar do próximo ou considerá-lo
como um objeto, reaprender [ou não] a dar significado às
coisas, questionar-se sobre os valores que a sociedade ensina como valores
nobres).
Filme seco, esvaziado,
intencionalmente desertificado (não à toa seu filme seguinte
a Eureka chama-se Lua no Deserto), Eureka assume
para si uma estratégia arriscada. Para filmar a vida de dois meninos
que perdem os familiares e, assim, todos os valores, Aoyama decide fazer
o espectador experimentar, assistindo ao filme, a mesma ausência
de dados em que se apoiar para continuar vendo o desenrolar da história
(se história há). Cria-se daí uma inconsolável
cumplicidade entre espectador e personagens: não necessariamente
uma identificação – não nos é possível
identificar com personagens destituídos de características
–, mas uma confluência de experiências. Em Eureka tem-se comumente
a impressão de que todos os personagens vivem abandonados, e que
o abandono é a condição primordial de uma nova geração.
Talvez essa característica faça, em alguns momentos, com
que Eureka lembre um pouco os primeiros filmes de Hal Hartley, como Confiança,
Amateur e, principalmente, Simples Desejo.
Eureka toma
seu nome emprestado de uma canção do compositor e intérprete
americano Jim O’Rourke (a canção "Eureka", que
toca no fim do filme, é por sua vez inspirada no filme de Nicholas
Roeg de mesmo nome). Estando O’Rourke associado a grupos convencionalmente
rotulados como "post-rock" (Tortoise, Gastr del Sol),
uma das saídas mais fáceis para os jornais franceses foi
caracterizar o filme como "post-cinema". É mais
uma boutade do que algo rigoroso, mas é bastante possível
aproximar o som lento e denso dos grupos de post-rock com o andamento
climático e arrastado de Eureka, filme em que chegar não
é tão importante quanto fazer o percurso, em que o estilo
e o charme da narração é mais importante do que está
sendo contado. Com Eureka, Shinji Aoyama se tornou um dos cineastas orientais
mais interessantes de acompanhar. Sua carreira, tal como seus personagens,
estão sempre em vias de redefinição.
Ruy Gardnier
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