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Daunbailó,
de Jim Jarmusch

Down By Law, EUA, 1986, Preto e Branco
Impossível
pensar em cinema independente americano, seja lá qual for o significado
que ele hoje possa ter, sem lembrar imediatamente de Jim Jarmusch. Lá
no início dos anos 80, quando ainda se falava da "primeira geração" desse
cinema, estava um filme como Estranhos no Paraíso, feito com recursos
mínimos e montado às pressas para ser exibido em Cannes no ano em que
o vencedor foi Paris, Texas, de Wim Wenders (filme cuja belíssima
fotografia é assinada por Robby Müller, que trabalhou não só em Down
by Law como em todos os outros filmes que Jarmusch fez a partir de
então). O cinema de Jarmusch irrompe da atmosfera de vida de uma geração
que cresceu em contato com um universo já dominado por clichês (no que
a televisão desempenhou papel fundamental), um cinema que enxerga na saturação
de signos a origem do esvaziamento de sentido da própria cultura que os
produziu.
Rodado
em 1986, Down by Law não repete a rigidez formal do anterior Estranhos
no Paraíso, mas mantém alguns procedimentos como a primazia do plano
médio e a fotografia em preto-e-branco. Já nas seqüências inicias, somos
apresentados a um curioso estado de coisas: o cafetão Jack (John Lurie)
sendo ridicularizado por uma prostituta; Zack (Tom Waits, cuja música
compõe a trilha sonora do filme), depois de terminar a relação com uma
mulher que não tolera sua apatia, vagando por becos imundos; Roberto Benigni
como um turista italiano tão deslumbrado quanto perdido. Em duas cenas
que parecem decalcadas das séries policiais de televisão, Jack e Zack
são presos por razões distintas. Roberto, que antes tentara travar contato
com Zack, só reaparecerá já chegando à prisão (não sabemos se a história
do homicídio que cometeu é verdadeira ou simplesmente deriva da arte de
narrar ficções em que os americanos fizeram escola). Dentro da cela, os
dois primeiros passam a maior parte do tempo brigando e discutindo, enquanto
Roberto, ou simplesmente Bob, tenta se comunicar com eles através de provérbios
e tiradas típicas de mocinho de filme B. O mesmo tédio que tomava conta
das vidas de Jack e Zack antes deles serem capturados tem continuidade
no tempo flácido dos dias na cadeia. E para eles não adiantará, num momento
seguinte, fugir do presídio, pois o mundo que se estende para além dos
limites da cela não rompe com a monotonia. É o próprio retângulo da imagem
o que os encarcera: mesmo quando Bob, numa cena anterior à fuga, entoa
a frase que ganha um coro formado pelas vozes de todos os presos ("I
scream, you scream, we all scream for ice-cream!"), só se tem notícia
do espaço-fora-da-tela por intermédio do som: tudo que resta aos olhos
cansados dos personagens de Down by Law está ali, na imagem encerrada
em si mesma.
O estrangeiro
é o único que vai buscar escapar disso - primeiro num sentido figurado,
através da janela que ele desenha na parede da prisão, e depois no sentido
concreto, planejando a fuga que aprendeu com os filmes americanos. Jack
e Zack, por sua vez, não mais dialogam com tal mitologia, pois possuem
a vista anuviada pelo fluxo interminável de imagens e as artérias obliteradas
pelo excesso de junk-food e TV-dinner. A cultura que encantou multidões
mundo afora já não funciona dentro do próprio nascedouro. Somente Bob,
o estrangeiro recém-chegado, ainda lhe agrega sentido. É ele quem consegue
vibrar com os ícones daquela mitologia, ele que já a conhecia à distância,
que procura imitar o vasto universo ficcional por ela criado, que leu
Walt Whitman e Robert Frost em italiano. Bob é o único que capta o espírito
de camaradagem do buddy film e se refere aos outros dois como amigos -
"Cada um por si!", Zack responde em nome do individualismo que
rege sua existência.
Filmada
por Jarmusch, a América parece uma civilização encontrada no lixo e colocada
para funcionar com pilhas gastas. Daí a lenta rotação do sempre sonolento
e mal-humorado Jack, assim como a locução de rádio simulada por um Zack
fracassado, ou os retalhos de arquitetura encontrados em meio ao nada
(a casa abandonada cujo interior é idêntico à cela da prisão). Para os
"nativos", o espaço perdeu o relevo, perdeu a heterogeneidade, perdeu
as cores. Down by Law é um filme antes descolorido do que preto-e-branco.
Na seqüência que pode fazer parte de uma antologia com as principais imagens
do cinema da década de 80, ocorre a inversão que transforma Jack e Zack
em estrangeiros dentro do próprio país, sendo convidados, como se fossem
dois mendigos famintos, para sentar à mesa onde Roberto e sua recém-descoberta
paixão Nicoletta preparam-se para jantar. O casal, como que egresso diretamente
de um pastelão italiano, dança apaixonadamente ao som de uma típica canção
americana dos anos dourados. Os dois americanos partem, encontram uma
encruzilhada e se dividem: vai um para cada canto - sem rumo qualquer.
Já o estrangeiro, este encontra lar na América, resolve ficar (já havia
sido assim em Estranhos no Paraíso), resolve viver para sempre
ao lado da mulher que lá conheceu e que já ama. Como num conto de fadas
- que os americanos, eles mesmos, não mais vivem.
Luiz
Carlos Oliveira Jr.
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