NOLLYWOOD BABILÔNIA
Ben Addelman, Samir Mallal, Nollywood Babylon, Canadá, 2008

Todo cineasta brasileiro deveria assistir ao documentário Nollywood Babilônia, não só porque se trata de um filme muito instrutivo, mas também porque está repleto de bons conselhos. Recomenda-se especialmente o filme para aqueles que pensam que a realidade nigeriana nada tem a ver com a brasileira. É claro que as macrodiferenças entre os dois países são evidentes e é justamente por isso que é desnecessário falar delas. Mas o que interessa em Nollywood Babilônia é uma outra questão, esta sim bem específica e fundamental para cineastas nigerianos e brasileiros: afinal de contas, para que serve o cinema? Qual o sentido de se pensar em produzir filmes em países como a Nigéria ou o Brasil?

Quando uma pergunta como essa é feita entre nós, em geral ela vem boiando num mar de lágrimas. Não é uma pergunta, é uma lamúria. Lamenta-se a ausência de uma indústria cinematográfica, lamenta-se a hostilidade do mercado exibidor, lamenta-se a indiferença do Estado e da televisão, lamenta-se o fim dos cinemas populares de rua, lamenta-se a morte prematura de gênios e a constância produtiva de velhos medíocres, lamenta-se, lamenta-se, lamenta-se.

Na indústria de cinema popular nigeriana conhecida como “Nollywood”, que consiste em filmes de baixíssimos orçamentos realizados em vídeo e comercializados em feiras e camelôs nas ruas de Lagos, principal cidade do país, a pergunta “para que serve o cinema” tem um sentido bem diverso. Lá ao menos se sabe respondê-la. Em primeiro lugar um filme é feito para se comunicar com um determinado público, no caso, bastante numeroso, isto é, composto por milhões de pessoas. Mas comunicar exatamente o quê? Os filmes nollywoodianos falam sobre magia negra, vudu, bruxaria, desejo de enriquecer, miséria, ascenção social, conversão ao evangelismo e ao cristianismo, dinheiro, sexo e morte. Alguns cineastas pertencem à Igreja Evangélica e filmam histórias de conversão e de exorcismos. Os filmes que realizam são extensões dos cultos praticados em enormes fábricas transformadas em templos. Sacos e sacos de dinheiro saem de lá. Entre dízimos e descarregos, os fiéis compram livros e fitas de vídeo com produções nigerianas.

Produzidos com recursos dos próprios cineastas, os filmes de Nollywood não passam em cinemas de rua (pois eles não mais existem em Lagos), não são veiculados pelos canais de televisão e não entram em festivais internacionais. São produzidos na Nigéria e consumidos ali mesmo. Correm, por isso mesmo, o risco de se esgotar como “ciclo”. Os cineastas nollywoodianos não se importam com isso: filmam sem parar, sendo que alguns, como Lancelot Oduwa Imasuen, já está em seu 158º longa-metragem.

O que a experiência nigeriana apresentada em Nollywood Babilônia nos estimula a pensar é que também no Brasil – um país sem indústria cinematográfica, mas com uma cultura audiovisual extraordinária – filmar deveria ser um ato de extrema necessidade, sendo que nem sempre esse impulso precisaria apenas corresponder ao desejo puro e simples de afirmar uma individualidade “autoral” mais ou menos talentosa, podendo encontrar também um sentido social que a justificasse ou com o qual ela pudesse dialogar, apresentar seus próprios problemas ou pelo menos manter uma relação minimamente viva e estimulante.

Luís Alberto Rocha Melo