MORRER COMO UM HOMEM
João Pedro Rodrigues, Morrer Como um Homem, Portugal/França, 2009

Em um plano fixo fechado, os olhos de um homem são pintados para a guerra. Fora dos limites do quadro estão os inimigos, as razões e o confronto em si. O mundo de João Pedro Rodrigues é um palco restrito àqueles cujo espaço na ordem das coisas encontra-se negado em maior ou menor medida. Trata-se de um universo cênico controlado, de planos fixos, de contornos muito bem traçados. A pintura do rosto que vimos no primeiro plano, portanto, pode perfeitamente servir de analogia à maquiagem da drag queen Tonia perante a vida; esta guerra seria então a eterna guerra dos “diferentes” por um lugar na sociedade.

Tonia, no entanto, parece estar perdendo sua batalha. Para sua rival na casa de shows, para seu jovem namorado afundado nas drogas, para o tempo que age em seu corpo. E o que filma Rodrigues é sua bravura em seguir com dignidade até o fim. Em sua frontalidade, a câmera do cineasta sempre preocupou-se em tratar da visibilidade das coisas (mesmo ao deter-se em áreas de total penumbra), da materialidade dos corpos habitados por desejos de evasão (seja ela qual for) e de sua gravidade, de sua ligação inexorável à terra. Morrer Como um Homem, não por acaso, está repleto de planos aproximados de pés, como a reforçar a conexão dos personagens com o chão que nunca pode faltar.

Mas, aqui, os impulsos interiores da protagonista já se desprendem de seu corpo que morre, dirigindo-se à atmosfera e distorcendo a realidade aparente. O belo plano-tableau que serve como interlúdio musical e divide o filme em dois é um autêntico tour-de-force que transporta o registro para uma chave onírica. O tempo pára e a subjetividade de Tonia se apossa da imagem do filme. Como em Alice no País das Maravilhas, o passeio na floresta revela uma realidade mágica. No cenário de brinquedo, Tonia conhece a existência remota de Maria Bakker, habitante de um mundo tão palpável quanto fantasioso.

A solução estética de Rodrigues para conciliar o embate entre desejo e sociedade que é a força motriz de seu cinema toma aqui um novo rumo: as cores efusivas, o escapismo e o devaneio contrastam com o corpo que definha em sua feiúra, em sua realidade inegável. As feridas sangram; um travesti não é feito apenas de plumas e energias vibrantes. Por baixo de tudo, ou depois de tudo, ele também precisa lidar com a matéria que se afirma a despeito de suas vontades.

E o tormento que nunca deixa a expressão da amargurada Tonia é também este: sua fé religiosa a coloca desnuda diante de uma verdade mais ampla e profunda; uma operação de mudança de sexo apenas disfarça as aparências, a realidade essencial permanece a mesma. Como no demonstrativo com o pedaço de papel na seqüência dos créditos iniciais, uma série de “dobras” e cortes pode alterar a forma, mas nunca a natureza da matéria. Trata-se, ao limite, de uma questão moral – moral esta bem distante daquela moldada pelos preconceitos da sociedade. E ao trabalhá-la de forma tão rica, João Pedro Rodrigues dá um passo além em seu cinema; existem impasses insolúveis dos quais apenas a bravura pode dar conta. Reside aí a virilidade de uma alma.

Tatiana Monassa