| Nossa Vida Não Cabe Num Opala, de
Reinaldo Pinheiro, Brasil, 2008
Fronteira, de Rafael Conde, Brasil, 2008
A casa de brinquedos é um lugar grande demais
É espantoso e francamente desestimulante ver como dois
projetos tão radicalmente opostos como Nossa Vida
Não Cabe Num Opala e Fronteira, partindo
de vontades de cinema e relações com o mundo tão distintas,
não conseguem escapar de um denominador comum cada vez
mais freqüente no cinema brasileiro: a dos filmes que
tentam trabalhar no coração da expressividade da imagem
(seja pelo frenesi pop de um ou pela tranqüilidade parnasiana
de outro), mas que estão fadados ao fracasso pela completa
incapacidade de lidar com emoções que surjam minimamente
articuladas dentro deste universo de cinema. O repertório
de registros está lá, a consciência instrumentalizada
da imagem, os dispositivos de efeito, um domínio das
vontades, e tudo isto é tomado como uma espécie de “garantia
do consumidor-realizador”: sua expressão garantida
ou seu dinheiro de volta. Não é à toa que, num filme
completamente mergulhado no arcaísmo, na visão mais
tacanha e mais repisada do humano diante da desumanidade,
Reinaldo Pinheiro se orgulhe em dizer que seu Nossa
Vida Não Cabe Num Opala é “radical”. Parece haver
uma confusão cada vez mais arraigada entre o choque
(pelo excesso ou pela rarefação) e algum sentido superior
automaticamente embutido nele. Reparem, não é exatamente
um cinema que abdica da encenação como espaço próprio
do surgimento da emoção (nisso, por exemplo, o que se
tem feito hoje, num escopo que vai de O Magnata
a As Tentações do Irmão Sebastião, é muito diferente
do que acontecia nos tempos de Buffo e Spallanzani
ou Mauá). O eterno dilema do cinema entre o “mostrar”
e o “deixar ver” aparece re-significado: a habilidade
mais apreciada não é a da condução de um olhar por um
ambiente ficcional, mas a de quanto mais impressionado se
pode deixar o espectador sem que, no entanto, qualquer
expressão propriamente dita interfira no processo. Uma
cartilha tácita, de perguntas feitas e respostas prontas.
De um lado, Nossa Vida Não Cabe Num Opala parece
a ressaca de um certo cinema paulistano oitentista (a
citação direta a Anjos da Noite num cartaz fixado
no bar onde os protagonistas jogam sinuca não é mera
piada interna), que ressurge nos anos 2000 com o cinismo
e o acúmulo de “sabedoria” necessários para tratar a
degradação das relações humanas na cidade do jeito que
ela merece: aos bofetões. A “radicalidade” está em assumir
um tratamento estético torpemente inspirado no cinema
de Cláudio Assis (esse patriarca da podridão humana)
e misturá-la a todo o engodo pós-apocalíptico de um
Heitor Dhalia (há até, quem diria, uma confirmação da
bunda feminina como grande receptáculo da imoralidade
que nem toda a pureza angelical pode combater). Isso
tudo numa história abertamente inspirada em Rocco
e Seus Irmãos: quatro irmãos, dois deles boxeadores,
envolvidos em pequenos crimes, ajudam-se entre si enquanto
tentam sobreviver num mundo capitalista opressor. Teremos
Jonas Bloch repetindo seu papel de Amarelo Manga,
Paulo César Peréio como a consciência fantasmática do
pai, como Marcelo Nova havia sido em O Magnata,
e um punhado de outros constrangimentos, espalhados
entre petardos do tipo “tô enjoada desse cheiro de carne
podre” ou “o mal mora em mim”.
O filme de Rafael Conde é de uma espécie absolutamente
diferente – e, no mais das coisas, vindo de um diretor
que já provou ter um pensamento muito mais cuidado na
sua relação com o cinema, sobretudo em dois ou três
grandes filmes em curta-metragem que realizou. A plataforma
é toda outra, e se fôssemos falar de referências no
cinema brasileiro recente, elas estariam na adaptação
de Suzana Amaral para o Uma Vida em Segredo de
Autran Dourado, e longinquamente, no que Paulo César
Saraceni fez com o romance de Lúcio Cardoso em A
Casa Assassinada. De fato, Fronteira (adaptado
de Cornélio Penna), caminha sempre entre o pitoresco
interiorano e suas regras espaço-temporais muito próprias
e um sentimento fúnebre, indissociável de todo o acúmulo
de história de que este ambiente parece impregnado,
uma história sempre crepuscular, narrativa do fim das
coisas, em última instância, do fim da liberdade representado
pelos grandes casarões antigos, dos quais se tenta escapar,
sempre sem sucesso. Um espaço onde as emoções caminham
sempre pelos subterrâneos e fazê-las aflorar exige
pulsão dramatúrgica e – lição aprendida em Saraceni,
mas também no Leon Hirzman de São Bernardo –
frontalidade no confronto com estas situações, frontalidade
física, eventualmente até mesmo um tanto de coragem
no jogo de revelação daquilo que o próprio ambiente
interiorano e todas as suas implicações parecem manter
em segredo.
Pois, em nome de um repertório muito afiado de planos
bem-compostos, de cortes ritmados, do exercício muito
consciente do classicismo (lembrar de A Chuva nos
Telhados Antigos, um curta que era, antes de tudo,
sobre a atualidade do plano e contraplano como uma dinâmica
que ainda dá conta da relação entre dois apaixonados
no cinema de hoje), Rafael Conde faz de tudo para esvaziar
qualquer senso de narratividade de Fronteira
– o que não seria um problema não fosse o filme um
trabalho exatamente disso, de narração, daqueles exemplos
mais claros de tentativa de adaptação que fica no meio
caminho entre a liberdade de encenação e o texto marcadamente
literário, atravancado. Uma tentativa de fluidez e alongamento
dos planos, de rarefação emocional, de apagamento dos
traços dramáticos mais carregados, que parece surgir
anteriormente ao próprio projeto do filme: novamente
a sensação de uma cartilha do “como fazer” para conseguir
o “melhor efeito”, ignorando certas especificidades
do material que pedem um olhar particular, próprio.
Uma menina santificada pela crença de uma pequena comunidade,
uma velha tia que abusa desta crença em nome de benefícios
pessoais e um viajante solitário que se envolve com
a santa e bagunça a ordem das coisas: há coisas aí carentes
de uma dignidade maior do que cortar a imagem no auge
da primeira transa entre o viajante e a santa para um
plano “misterioso” da lua cheia, enquanto os gemidos
dos dois são ouvidos em off.
E quando a última seqüência do filme aparece (para não
estragar a surpresa digamos apenas que, se antes era
de Saraceni que falávamos, agora a memória puxa fortemente
o melhor de George Romero), temos a confirmação de tudo
aquilo que Fronteira seria não fosse sua mania
– metaforizada no plano da lua sob gemidos – de sempre
fugir daquilo que realmente importa ao universo diegético
mas que escapa do caminho já traçado a priori
pelo filme que se faz sobre este universo.
Rodrigo de Oliveira
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