3º CINEOP - Mostra de cinema de ouro preto
Cobertura diária

Tonacci fala

Durante o debate do último domingo, Andrea Tonacci havia prometido que não falaria muito, porque talvez não tivesse tanto assim a dizer a respeito dessa relação entre o trabalho de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla e porque não costuma de fato pensar tão analiticamente a respeito do passado, algo que já declarou inclusive numa entrevista aqui na Contracampo, publicada na edição 79. Mas, como qualquer um que um dia tenha tido a chance de entrevistá-lo ou de ouvi-lo falar pessoalmente, o Tonacci orador domina as palavras e o pensamento sobre cinema com uma elegância e um encantamento impressionantes. Remier Lion, participante da mesa de debate, disse que Tonacci é “um dos últimos de sua espécie”, e é justamente para concordar com Remier que transcrevemos abaixo trechos da participação do cineasta na discussão. Os trechos obedecem a ordem cronológica da fala, e envolvem uma reflexão profunda sobre o ato de filmar de Glauber e Rogério (com o qual Tonacci tem uma identificação íntima), sobre seu contato pessoal com os dois cineastas, a quem chama de “filhos de mães diferentes, mas gêmeos no mundo”, e também um delicioso anedotário da convivência entre eles. (RO)

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“Não sou historiador, não olho tanto pra trás pra tentar entender o papel que a gente teve fazendo filmes, mas o que eu sentia... Se existe uma coisa que eu posso dizer hoje, que eu sinto ao olhar pra trás, é que quando a gente fazia cinema naquela época, não fazia porque tinha um projeto, ‘eu vou fazer um filme porque tenho um projeto, vou realizar um projeto’. Aquilo era mais um caminho de vida, realmente uma tentativa de intervenção na realidade. Eu acho que se fazia cinema pra mudar o mundo e não pra ganhar dinheiro, ou pra ocupar mercado, ou coisas nesse sentido. Era um cinema que nascia da raiva, de uma dimensão de mundo que estava em volta que era totalmente opressiva, vivíamos uma época de ditadura militar no Brasil e de revolução no mundo inteiro, revoluções opostas às vezes, mas num sentido de libertarismo na França que levava, inclusive, à destruição do conceito de ‘cultura’ como um processo de acúmulo, como um processo de ego, um processo de poder de História e esse tipo de coisa. Eu vejo Rogério e Glauber hoje, ao longe, como dois gêmeos. De idades diferentes, filhos de mães diferentes, mas por um acaso gêmeos no mundo, gêmeos neste momento de intervenção e consciência do que significava um processo de intervenção na realidade através da imagem. Esse poder a gente vê quando assiste a Deus e o Diabo, e sabemos ali o que é a cultura visual de um homem, e vemos em Rogério o que é a cultura de um outro homem, uma outra concepção cinematográfica, digamos.”

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“Minha convivência com o Rogério foi, é claro, muito maior, e inclusive foi ele que me apresentou ao Glauber. Glauber vinha a São Paulo e o ponto de encontro que a gente tinha era o Pep’s, ali embaixo da Galeria Metrópolis, onde tinha Almeida Salles, Paulo Emílio, pessoas que aglutinavam essa garotada em volta. O Glauber pra mim, evidentemente, já era um homem e eu e o Rogério éramos meninos, nós tínhamos 20 anos naquela época, éramos crianças.”

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“Falando sobre a maneira de trabalhar dos dois, uma possível proximidade: eu tive a chance de conhecer o apartamento que o Glauber tinha no Rio e o apartamento em que o Rogério morava em São Paulo e eu nem lembro se cama tinha nestes apartamentos! [risos] Papéis, máquina de escrever, uma mesa, com certeza, e é isso. Papelada, livros e máquinas de escrever. Não lembro de banheiras, de fogão, de geladeira. Era um espaço vazio, preenchido pela discussão de idéias o tempo inteiro.”

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“E como nós nos encontramos, Rogério e eu: existia uma revista na faculdade Mackenzie onde se falava de cinema, e eu escrevia nessa revista. E Rogério, que já escrevia no Estadão, era uma pessoa que me surpreendia pela capacidade de síntese, de visão do que era a linguagem cinematográfica. E a linguagem cinematográfica tinha ainda essa força do momento. Quando penso em Rogério e Glauber, penso que eles filmavam num processo como se aquilo fosse um verdadeiro momento de vida. Não é assim, ‘eu tenho essa cena escrita, vou representá-la e fazê-la desse jeito’. Tudo bem, isso existe, essa é a história dos roteiros, eles servem como partitura, mas a interpretação vital do momento é na hora. É aquilo ali que faz com que aquela energia que a Helena estava comentando surja e se revele diante da câmera. Às vezes, até num momento de representação, de criação, você tira o pé do ator e faz uma outra coisa diferente daquilo que ele estava esperando, e é esse o resultado. Não existia uma coisa que hoje a gente chama de “pesquisa”, de “perfomance”, de “preparação”: que critérios são esses? Que comercialismo que se faz sobre a espontaneidade de vida das pessoas, sobre a energia delas como investimento de querer transformar o mundo? Porque o cinema é, de fato, talvez a expressão mais intensa, talvez a forma mais representativa da nossa própria estrutura mental. Nós conseguimos reproduzir uma mecânica que ilustre – porque são imagens, não é texto, não é virtual, é real – que ilustre um pouco nossa estrutura, nossa forma de pensar e estar no mundo. Glauber e Rogério trabalhavam nesta forma.”

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“Quando eu conheci o Rogério ele já tinha na cabeça o Bandido, mesmo antes de fazer o Documentário. Porque eu me lembro que a gente ia... São Paulo, se a gente pensa na Rua Augusta, em Jardim Europa, antes de chegar ao Rio Pinheiros, a cidade terminava ali, e dali para frente era um mangue. Tinha uma ponte que se subia até o Morumbi e via-se de lá a cidade, e ele já comentava cenas que eu não sabia que eram do Bandido, porque ainda não existia esse nome, e eu não sei nem se naquele momento ele já tinha contato com a própria história do Bandido da Luz Vermelha, mas existia já uma visão desse universo da destruição que é feita com o ser humano nessas grandes cidades. Ele falava do significado que tinha aquela fumaça vinda do lixo, aquela opressão da megalópole. Eu devo ao Rogério, devo literalmente, a consideração de que o cinema era muito mais que a representação de uma história, uma tentativa de se dar bem no mundo, de narrar as coisas, ou simplesmente ser um contador de histórias. Era um instrumento de descoberta, de revelação no ato de realização e da intencionalidade de interferir realmente, com essas imagens, na cabeça dos outros. Isso era o cinema que se pensava na época, e não uma coisa cultural: ‘eu tenho uma cultura, eu tenho um personagem, uma tradição, vou usar isto para fazer aquilo’. Não me lembro de conversas nossas neste sentido, não havia esse tipo de racionalização. Ela se torna posterior, como racionalização, quando ambos, Glauber eventualmente 7 anos antes de Rogério, mas quando os filmes começam a ser vistos e de fato interferem, e de fato provocam alguma coisa. Isso faz com que esses jovens autores passem a ser vistos como personagens-realizadores. E na medida que são duas pessoas muito conscientes das estratégias de manipulação que se fazia, politicamente, de tudo e qualquer coisa, sabem que essas estratégias são interessantes para a auto-afirmação desse personagem, pra sua existência como personagem político e interferente na realidade. E nesse ponto acredito que esse chamado conflito, que a gente olha de longe, no sentido dessa divisão, dessa dicotomia entre os dois, ‘este é gênio e este não é’, ‘este é A e este é B’, quando na verdade todos são homens, todos viviam o mesmo momento, e os dois lutavam, e lutavam literalmente, por um mundo melhor.”

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“Em 66, quando fomos ao Rio, no Festival JB, eu acredito que já ali ficou claro que existia um outro grupo de pessoas, o Julio, o Neville, os mineiros, Geraldo Veloso, Marcinho Borges, e você percebia que existia algo de estômago, alguma coisa de mal-estar ali. Eram mais gritos do que filmes, eram mais expressões de angústia e de compulsão, de obsessão, do que realmente projetos feitos para passar em festival, ou tal história bonitinha e conveniente que cai bem aqui. Nisso existe uma diferença radical com o que se vê no cinema brasileiro de hoje.”

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“Um belo dia, Glauber estava em São Paulo e nós tínhamos que ir ao Rio, porque o laboratório, a Líder, era no Rio. Tinha um barzinho ali na frente e foi ali que eu conheci tudo o que a gente chama hoje de Cinema Novo, e eu concordo inteiramente quando se diz que o Cinema Novo era o Glauber, ele é o Cinema Novo – claro que existia o Julio, o Nelson Pereira, o Cacá, o Paulo César – mas a energia não objetivamente cinematográfica, o cinema como instrumento de mudança, era ali que se conversava. Foi ali que eu tive essa visão, esse aprendizado. E nessa viagem ao Rio, num fusca vermelho que eu tinha na época, eu estou no volante, Rogério sentado ao meu lado, e Glauber atrás, com a cabeça posta entre as orelhas de um e outro e, literalmente, durante as seis horas de viagem, nós fomos os primeiros a assistir, de ouvido, o que viria a ser depois o Terra em Transe. E a tal ponto houve essa interferência da presença do Glauber ali conosco sobre o meu trabalho que, se não fosse por isso, Paulo Gracindo e Nelson Xavier não estariam no meu filme Blá-Blá-Blá, que ficou pronto em 68 – se não fosse uma palavrinha do Glauber com os dois, eles não estariam no filme. E aí o Gracindo faz aquele papel quase histriônico que vem, evidentemente, de quem já tinha trabalhado com ele anteriormente. A minha direção era pedir a ele determinadas expressões, determinados gestos, mas esta carga acumulada que ele consegue colocar no filme eu devo aos filmes que ele fez antes, e o filme que ele tinha acabado de fazer era o Terra em Transe.”

Fala de Andrea Tonacci proferida no debate realizado em 15 de junho de 2008, no auditório do Centro de Convenções de Ouro Preto.