3º CINEOP - Mostra de cinema de ouro preto
Cobertura diária

O primeiro debate

Dentro da temática história deste 3º CineOP, foi realizado no último domingo o debate “Glauber Rocha e Rogério Sganzerla: Inventividade dos Anos 60”, numa mesa mediada pelo curador da mostra, Cléber Eduardo, e composta por Helena Ignez, Andrea Tonacci, Joel Pizzini, Remier Lion e o nosso Luiz Alberto Rocha Melo. O que se viu ali já era anunciado desde a homenagem às famílias de Glauber e Rogério na cerimônia de abertura e se confirmou à medida que cada um dos participantes fazia de sua fala um relato da memória afetiva que os ligava às figuras dos dois cineastas. Quando a Mostra de Ouro Preto propôs esta reunião de Glauber e Rogério sob o mesmo signo, tentando desfazer a disposição dicotômica que sempre se atribuiu aos dois, como se fossem inimigos eternos num mesmo campo de batalha, sabia que não se poderia chegar às “vias de fato”, ou seja, ao debate estético e político sobre o que, nos filmes de cada um, na materialidade de seu trabalho (incluindo aí os textos escritos pelos dois, que “faziam cinema com a máquina de escrever, antes mesmo de terem uma câmera na mão”, como bem lembrou Helena Ignez), os une ou os separa, enfim, que não se poderia chegar ao debate cinematográfico mais direto sem antes passar por uma celebração pública de uma “reconciliação” entre as famílias, entre os sentimentos de parte a parte, que na verdade nunca foram irreconciliados, na intimidade da relação entre mãe, esposas, filhos e filhas de Glauber e Rogério, mas que os anos sempre colocaram também neste mesmo campo de batalha. O papel de Paloma Rocha nesta história, elo mais direto, filha de Helena com Glauber que depois conviveu com o padrasto Rogério, tem sido muito interessante e emocionado, ao longo destes últimos dias. Paloma parece encarnar este desejo de um “armistício” público que acompanhe a paz e a integração (mesmo que atribulada e dolorida, pelo acúmulo das histórias) que existe desde sempre entre estes dois núcleos de força do cinema brasileiro.

No debate, portanto, como resumiu Tonacci, falou-se da vida que existe por trás do cinema, ou por causa dele. Joel Pizzini chegou mesmo a esboçar o que poderia ser uma discussão mais específica sobre o trabalho de Glauber e Rogério, lembrando alguns chavões clássicos já atribuídos aos dois (alta cultura x baixa cultura, moderno x pós-moderno) e lendo trechos de textos em que os dois elogiam-se um ao outro, reconhecem entre si uma fonte de desafio e também de inspiração para o trabalho. Luiz Alberto Rocha Melo foi ainda mais preciso numa tentativa de olhar que compreenda os dois cineastas em conjunto, dizendo que o que os une verdadeiramente é a experiência do exílio. Não apenas o exílio físico, aquele que torna Claro, filme que Glauber roda na Itália em 1975, uma manifestação bem próxima de algo que Rogério fizera, poucos anos antes, em seus filmes na Belair. A experiência do exílio também compreenderia, segundo Rocha Melo, o exílio interior, dentro do próprio país: a solidão de dois criadores que carregavam sobre si o peso de uma potência criativa e uma atuação política de intervenção e liderança que acabaria por fazê-los sujeitos marginais de si mesmos e, ao longo dos tempos, cada vez mais enfraquecidos por toda esta carga (uma coisa que fica clara nas opiniões de todos é que a morte de ambos era, antes de uma falência física, uma conseqüência da intensidade do fazer artístico de cada um e de toda a frustração e solidão que isso também significava).

Mas não foi esse o rumo que o debate tomou e talvez não se consiga chegar de fato, nos espaços de discussão que ainda restam até o fim da Mostra, ao específico das relações. O que, de toda a forma, seria impossível de trazer ao leitor, mesmo que eu relatasse cada uma das intervenções neste debate do domingo, é traduzir a carga emotiva dispersada por aqui, sentimentos tão poderosos a ponto de tornarem um espaço coletivo, com convidados e platéia, numa grande comunhão de pessoas disponíveis à rememoração, mesmo que íntima, da relação que mantém com estes cineastas, com seus filmes, com aquilo que a simples existência deles no mundo provoca na experiência de vida de cada um de nós.

Deixo aqui, no entanto, dois registros de áudio (que o leitor pode ouvir clicando aqui e aqui) em que Helena Ignez, certamente o depoimento que mais emocionou a todos, fala sobre a influência destas duas presenças em seu trabalho de atriz e em sua vontade de fazer e viver da arte. Tonacci (em sua fala transcrita no outro texto deste terceiro dia) e Helena, cada um a seu modo e sob pontos de vista diferentes, dão um pouco da dimensão do que está acontecendo por aqui em Ouro Preto. Algo de muito precioso, realmente.

Rodrigo de Oliveira