3º CINEOP - Mostra de cinema de ouro preto
Cobertura diária

Os Desafinados, Walter Lima Jr., Brasil, 2008

Estevão Garcia, nosso homem em Guadalajara, escreveu sobre o novo filme de Walter Lima Jr. quando de sua estréia mundial no festival mexicano (texto que pode ser lido aqui). Agora, com algumas exibições já feitas no Brasil, Os Desafinados vai deixando de ser aquele objeto ao qual cederíamos uma simpatia natural – pela trajetória de Walter, pelos filmes que já fez ou ajudou a fazer, pelo tempo sem filmar, por tudo aquilo que Estevão diz em seu texto que projetamos sobre o filme mesmo antes de vê-lo. Do lado de cá, deste que agora escreve pelo menos, o contato com Os Desafinados, mesmo com algumas das simpatias confirmadas, não deixa de ser uma grande decepção.

Fica claro em toda a estrutura atabalhoada e rançosa do filme que o tempo longuíssimo que o projeto levou para finalmente se finalizar fez muito mal a ele. Os Desafinados tem uma proposta clara de retrato geracional, quer filmar “o mundo” (e que o grupo de músicos protagonistas vá à Nova York e Buenos Aires, com os ambientes estrangeiros sempre introduzidos na narrativa por grandes planos aéreos dos cartões-postais das cidades, só confirma esse desejo de incorporar uma globalidade). Mais que isso, quer resumir na experiência de cinco amigos todos os humores e sentimentos disponíveis à geração dos anos 60 e 70, desde a crença ainda bastante romântica e pré-moderna no amor inocente, suburbano, até os impulsos políticos mais declarados, uma relação especial que os rapazes mantém com a arte, com a amizade entre eles, com os elos estabelecidos “na alegria e na tristeza”. Mas Os Desafinados nunca consegue nos provar que aquela gente, que aqueles amigos ali reunidos e sobre os quais pesa o simbolismo de toda uma geração, seja de fato especial como o filme acredita que seja, que mereça de nós o carinho e a identificação que Walter Lima quer nos vender. Num filme de tom assumidamente clássico, cheio de seus truques de roteiro, com desenvolvimento psicológico de personagem e a decupagem variando entre a eficiência inócua e a pura preguiça, é desalentador que os “desafinados” sejam pessoas tão desinteressantes, tão pouco trabalhadas. Num filme de duas (intermináveis) horas e que se propõe ao feijão-com-arroz do cinema popular, sobram os planos de luz “dourada” e outonal e os simplismos dramáticos e falta substância. A decepção maior não é tanto que o filme seja ruim (e é bom lembrar que de alguém que um dia fez A Lira do Delírio tem-se o direito de esperar algo pelo menos instigante), mas que nos jogue dentro de uma situação onde as peças estão todas postas em seu “lugar exato”, para garantir o máximo efeito de aproximação possível, e, no entanto, tudo nos expulse dali de dentro, tudo nos faça desacreditar completamente em todo aquele emaranhado de situações.

Há de se notar, por exemplo, que por mais que o mote da Bossa Nova pareça carregar o filme nas costas, Walter Lima não se dedica minimamente a perceber uma relação entre aqueles músicos e a arte de que tentam viver. Há uma referência dupla (e certamente acidental) ao universo de dois grandes filmes "de música" de Clint Eastwood. Os amigos brasileiros, chegando em Nova York para tocar num concerto no Carnegie Hall e tendo seus planos frustrados, acabam entrando num pequeno clube de jazz no Village e a maneira como o filme adentra o lugar lembra muito uma seqüência de Honkytonk Man onde o sobrinho do protagonista entra escondido num clube parecido e fica, do canto, assistindo seu tio, branco e caipira, tocar com um incrível quarteto de músicos negros, além, é claro, de carregar toda a atmosfera que acompanha os primeiros momentos de Bird. Mas, se em Eastwood o ato de tocar um instrumento, de compor uma canção, era um exercício de pura entrega de energia e forças (chegando ao extremo da fatalidade, do corpo que está desfalecendo, tanto em Honkytonk Man quanto em Bird, mas que ainda assim resiste a uma última música, a uma última execução, um último verso), em Os Desafinados nunca se consegue pensar o momento musical como algo que não seja um grupo de atores dublando uma performance pré-gravada. Tudo muito mecânico, esvaziado da vida que, supostamente, aqueles músicos sabiam cantar como ninguém mais.

E, por fim, sinal trágico dos filmes que carregam um personagem alter ego do cineasta e produzem um filme-dentro-do-filme, o “clássico cinemanovista” que o personagem de Selton Mello dirige (com a encenação sendo creditada ao próprio Selton e a câmera e a imagem preto-e-branco ao grande Dib Lufti), nos poucos minutos que ocupa o lugar de Os Desafinados, parece muito mais honesto em sua rigidez formal e certa ilusão ideológica do que o “filme-de-verdade” em que está inserido.

Ainda voltaremos a Os Desafinados em outra ocasião, com mais cuidado (e, sobretudo, quando o filme puder ser visto por mais gente), mas certamente não será um retorno contaminado pelo encantamento que Walter Lima tenta de todo jeito produzir, falhando clamorosamente em cada uma das tentativas.

Rodrigo de Oliveira