| Diário de Sintra,
Brasil, 2008
Diário de Sintra é um filme em primeira pessoa
em que esta nunca se declara diretamente mas está tão
presente e tão palpável em cada imagem, em cada opção
de corte, em cada encenação proposital e cada registro
casual que é preciso repensar o uso de expressões como
“filme íntimo” ou “filme pessoal” depois dele. Há que
se repensar também o que é que se chama de “documentário
poético” no cinema brasileiro contemporâneo, esta matéria
tão recente e já tão cheia de vícios, de manuais-de-utilização,
de cardápios de imagens bonitas. Paula Gaitán utiliza
um repertório visual recorrente neste tipo de cinema:
vemos a mistura de imagens captadas em digital cristalino
com registros da mesma cena em película 16mm bastante
granulada, uma série de imagens da natureza em suas
diversas manifestações, do pôr-do-sol e do quebrar de
ondas numa praia ao vôo de um pássaro em contraluz e
câmera lenta. Está tudo lá, mas o sentido é maior, mais
amplo.
“Estar” não significa criar alusões, simbolismos, metaforizar
através dessa beleza de almanaque a estadia de Paula,
seu marido Glauber Rocha e seus filhos pequenos na cidade
portuguesa de Sintra, nos últimos anos de vida do cineasta.
Estar é uma manifestação da presença física,
disponível aos sentidos básicos do espectador e da diretora,
sem nenhuma obrigação de transcendência (ainda que nela
fatalmente cheguemos). Talvez por isso Diário de
Sintra seja o grande filme brasileiro dos últimos
tempos a filmar a perda e a dor da morte, da ausência:
porque ela não é emulada, é efetivamente filmada,
não é rememorada, mas efetivamente vivida. O
exercício de Paula Gaitán não é o da autópsia, nem tampouco
o da ressurreição. Voltar a um lugar do passado, à memória
do marido morto, do amor interrompido pela morte, é
um trabalho, esforço visível aos nossos olhos. É tornar
presente a ausência. Fazer de Glauber o que a retórica
inflamada de seus defensores menos articulados vive
repetindo pelos cadernos culturais e debates de superficialidades,
mas que nunca havia sido levado a cabo com tanta firmeza
de princípios: em Diário de Sintra, Paula Gaitán
nos prova, por meio de todos os artifícios possíveis,
que Glauber era verdadeiramente uma força da natureza.
A operação é muito simples. Temos um punhado de fotos
de Glauber, registros íntimos dos tempos em que viveu
em Portugal, e algumas outras fotos mais antigas, de
Glauber moço, sem a barba dos últimos dias, com o rosto
menos marcado pelo peso de sua própria história. Numa
seqüência inicial, veremos estas fotos espalhadas pelo
chão de um terreno vazio, a céu aberto. Entra uma menina
em quadro, recolhendo foto por foto, e então as pendura
numa árvore seca logo atrás, como se folhas desta fossem.
Não é mais, nem é menos, mas exatamente isto: Glauber
disperso, fragmentado, e então reagrupado em torno de
uma energia natural, uma árvore. O recurso será repetido
em diversas locações diferentes, com variações: uma
vez as fotos comporão o cenário de uma colina cheia
de enormes pedras e imersa em neblina, outra vez será
enterrada sob a areia do mar e, num plano fixo e deslumbrante,
veremos a correnteza da água ir varrendo aos poucos
a areia até que os olhos de Glauber se revelem, e então
o sorriso, e a foto inteira se mostre ali, marítima,
oceânica.
De forma mais direta e ainda mais reveladora da disposição de
Paula Gaitán em entregar-se tão intimamente a este trabalho
de “re-naturalização” da figura de Glauber, o filme
entregará estas mesmas fotos a diversos moradores de
Sintra, velhinhos e velhinhas que viviam na cidade quando
o cineasta e a família estavam por lá, e pedirá para
que estas pessoas tentem reconhecer, recordar quem era
aquela pessoa das fotos, sem avisar-lhes nada. Uma senhorinha
diz: “Não o reconheço, mas tenho certeza que é daqui”.
Outra tem dúvidas de onde lembra do moço das fotos,
mas aponta uma vila mais ao norte, fora do quadro, e
diz que talvez ele seja de lá. Uma terceira, percebendo
pela postura nas fotos um artista de alguma espécie,
afirma ser Glauber um ator português, de cujo nome não
se recorda, mas que estava ótimo em determinada novela
exibida recentemente. Um dispositivo simples e que,
no entanto, dá a dimensão justa daquilo que Sintra parece
ter significado para Glauber e Paula: um lugar a se
adotar como seu, com todo o peso de ser o último lugar
onde se estará junto um do outro. “Sintra is a beautiful
place to die”, é o que ouvimos o cineasta dizer
num registro sonoro em off.
Percebido como parte daquela geografia, como habitante
natural daquele espaço, acolhido na memória de quem
nunca o conheceu como parte daquela história, Diário
de Sintra então nos levará ao extremo oposto. Desta
vez as mesmas fotos que acompanham todo o filme serão
entregues a pessoas que de fato conviveram com Glauber
e a família durante o tempo em Portugal. “Cá está, esta
é uma imagem de exílio, uma imagem de refúgio, uma imagem
doída”, diz um dos amigos do casal, e assim nossa assimilação
daquela figura como um dos componentes da natureza de
Sintra será desafiada por este não-lugar do exílio,
do lugar escolhido em detrimento de um outro que não
mais se podia habitar. De fato, o que Diário de Sintra
propõe constantemente é um reposicionamento sentimental
de Glauber na ordem do mundo e seu território é de
uma vastidão apenas imaginada. Há um uso muito preciso
de falas do próprio Glauber, muitas delas falando diretamente
de sua proximidade da morte, da doença, dos dias de
sofrimento, e por vezes ouvimos a mesma frase ser dita
em português e então repetida em inglês e espanhol,
ou um discurso que se inicia em italiano e termina em
francês. E, de todo modo, mesmo que habilitado para
a comunicação em diversas línguas, mesmo que arduamente
re-introduzido no ciclo natural daquele espaço, rememorado
por aqueles que o conheceram e também por aqueles que
dele nunca ouviram falar, há um signo inescapável ali.
Colado a Glauber de maneira tão íntima, Diário de
Sintra não poderia apenas narrar sua morte. Em duas
seqüências estarrecedoras, veremos primeiro o filme
“respirar” junto do cineasta seu último fôlego, onde
cada escurecimento da imagem é sucedido por uma nova
cena, também ofegante, também fugidia, também apagada
por um novo escurecimento. Então, de um tremor sonoro,
surge uma imagem de Glauber filmada em super-8, deitado
na rede, talvez o registro mais triste e pesaroso que
se tenha de seus últimos dias: Glauber exausto, fatigado,
com a expressão de quem está partindo. Para onde ir
depois de um impacto destes? Diário de Sintra
vai se apagando junto a Glauber, até desaparecer por
completo.
Um filme que abdica o tempo inteiro dos rodeios pomposos,
da afetação “profunda” e cheia de significados submersos, baseado na superfície de uma dúzia de fotografias.
É só aí que Diário de Sintra pode existir,
na superfície aflorada das coisas. Um filme em que
se declara explicitamente a posição afetiva de onde se
fala (ouvimos versos como “uma viúva se parece com as
árvores, um objeto-sombra”). Um filme desses não poderia
tomar outra atitude diante da morte.
O que não quer dizer que não seja num céu incrivelmente
azul e limpo, num dia claro de sol, que o último plano
do filme queira repousar. O sono dos justos.
Rodrigo de Oliveira
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