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O sampleamento de uma nação (sobre
a cerimônia de abertura do CineOP)
Villa Rica, um cinema encravado no coração de Ouro Preto,
fundado na década de 50. Numa cidade que se equilibra
no meio de uma das mais rigorosas arquiteturas naturais
do país (as montanhas se avolumam como se fossem imensos
paredões harmoniosamente dispostos, sabe-se lá por Quem),
o Villa Rica é uma sala stadium por destino geográfico:
foi construída na encosta de um morro, e mesmo seus
corredores, emulando a própria cidade, não são mais
do que imensas ladeiras internas. É uma sala especial,
onde todos os sentidos (e, sobretudo, a lei da gravidade)
te fazem se direcionar incondicionalmente para a tela
branca, enorme, ali na frente.
Pois ontem, enquanto entrava no Villa Rica já lotado,
esperando o início da cerimônia de abertura, e as homenagens
aos dois protagonistas deste 3º CineOP – uma in memoriam,
onde os familiares de Rogério Sganzerla e Glauber Rocha
receberiam troféus, e outra in presencia, quando
seriam exibidos os primeiros curtas-metragens dos dois
–, pois bem, ontem, enquanto entrava no Villa Rica,
ecoavam por ali uns ruídos e vozes desconexas, estranhas,
e só com um pouco mais de concentração, reconhecíveis:
no meio do falatório da platéia pré-sessão, o sistema
de som lançava frases soltas de Glauber e Rogério, tiradas
de entrevistas antigas, e até mesmo algumas das mais
famosas linhas de diálogo dos filmes de ambos. Um cinema
numa ladeira, os detalhes art-déco lindamente restaurados,
a iluminação climática, e esses sons estranhos, claramente
deslocados, favorecendo a tal lei da gravidade: tudo
contribuía pra nos jogar no espaço ainda vazio da tela,
antes mesmo que nela aparecessem as imagens e os sons
que esperávamos e conhecíamos.
E então, uma surpresa. Se dois anos atrás comentei,
a respeito da cerimônia de abertura da Mostra de Tiradentes,
o absoluto arcaísmo oficialesco (pompa, circunstância,
generais fardados, políticos inflamados e quetais, tudo
muito estranho), a Universo Produção – organizadora
de Tiradentes e do CineOP – foi ao extremo oposto. Uma
banda destas de vanguarda (aquelas que se apresentam
com tambores de pele de carneiro e computadores Mac
misturados) se coloca no palco à frente da tela e, numa
longa apresentação, dialogam musicalmente com as imagens-resumo
do cinema brasileiro da década de 60, que são projetadas
atrás deles. Seqüências de São Paulo S/A a Roberto
Carlos em Ritmo de Aventura, passando por boa parte
da obra de Glauber e Rogério, além de muitas intervenções
sonoras retiradas dos filmes de ambos. O que se viu
não foi muito diferente do que acontece em metade das
festas moderninhas por aí: cinema-de-VJ, as imagens
de uma década sampleadas ao som de batidas eletrônicas,
antropofagia versão anos 2000, com a diferença que o
que se cospe fora não é algo exatamente novo, mas somente
uma colcha de retalhos disponível aos sentidos em toda
sua desejada fragmentação. Antônio das Mortes entra
em quadro, aponta seu rifle para o extra-campo, atira:
e então o VJ da banda repete o mesmo movimento do personagem
cinco vezes seguidas, em velocidade alterada. Enfim,
vocês entenderam o negócio.
Não é questão de comentar a qualidade da apresentação
da tal banda. O fato é que, mesmo por tabela (e, suspeito
eu, um tanto inconscientemente), a organização do festival
fez da abertura do CineOP um grande exemplo iniciador
de tudo o que se discutirá por aqui nos próximos cinco
dias: de um lado, as aproximações entre as obras e os
gênios de Glauber e Rogério, historicamente tidos como
figuras opostas no jogo do cinema brasileiro, e do outro
a temática da preservação dos materiais audiovisuais,
dos arquivos, da importância dos processos de restauração
e recuperação de filmes brasileiros como parte da construção
de uma História do país.
Primeira questão central, jogada à mesa pelo trabalho
frenético do VJ: uma vez disponíveis, uma vez recuperadas,
restauradas, preservadas, a quem pertencem essas imagens?
Quando vi Antônio das Mortes dar seus cinco tiros remixados
na tela, pensei logo no que estaria achando de tudo
aquilo Dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, maior responsável
pela memória do trabalho do filho, e que estava presente
à sessão, para ser homenageada logo em seguida. Parece
haver neste cinema brasileiro dos anos 60 um apelo iconográfico
irresistível aos olhos atuais. Não seria muito difícil
imaginar o rosto de Antônio das Mortes ou do Bandido
da Luz Vermelha estampando camisetas de grifes modernosas,
à moda Che Guevara, caso estes filmes tivessem, historicamente,
uma presença sobre a cultura brasileira menos guetificada
do que de fato têm. Mais ainda: uma vez abolida qualquer
idéia semântica, qualquer conseqüência de sentido, é
algo realmente revelador ver uma mesma “seqüência” que
mistura os rostos de Vidas Secas e dos Macunaímas
de Joaquim Pedro, para logo adiante retomar o mesmo
Grande Otelo, agora em contexto chanchadesco, e, mais
adiante ainda, no marginalismo de A Família do Barulho.
Talvez seja difícil responder com alguma certeza a questão
do começo do parágrafo. Mais: responder sobre a validade
ou o ultraje que tal tipo de utilização destes materiais
possa provocar. O que o espetáculo lisérgico da tela
provou é que as imagens ali projetadas, em última instância, pertencem umas às outras, de uma maneira tão
íntima e tão direta que não poderia nunca operar por anulação,
como a história sagrada (e burra) do cinema brasileiro
tentou nos empurrar algumas vezes.
E se as imagens faziam pensar em identificação, o som
levava ao puro descolamento. A platéia da abertura era
formada por alguns convidados do festival, muitos críticos
e jornalistas, e alguns cinéfilos que certamente tinham
familiaridade com os filmes sampleados ali. Mas, de
todo modo, não deixa de ser absolutamente impactante
ouvir, no meio da massa sonora eletrônica produzida
pela banda, o monólogo de Paulo Martins em Terra
em Transe a respeito de seu desencanto cruel e arrogante
com o povo (“Esse é o povo, um analfabeto, um despolitizado”),
ou ainda a voz de Guará Rodrigues, retirada de Copacabana
Mon Amour, num discurso em que elogia a polícia
como o modelo de correção a ser seguido pela sociedade.
Se as imagens sobrevivem enquanto ícones atemporais,
de apelo pop, disponíveis ao consumo e descontextualização
completa, o som, assim isolado, marca a inviabilidade
desta mesma operação em relação ao discurso dos
filmes. A algum espectador perdido e desavisado na cerimônia
de abertura, que não conhecesse os filmes de Glauber
e Rogério, ou as vozes de Guará e Jardel Filho, aquelas
duas intervenções sonoras bem poderiam soar como um
corolário fascista qualquer.
É, no fundo, a isso que o CineOP tentará se dedicar
nos próximos dias: não apenas preencher estes discursos
dos contextos em que foram produzidos, mas também tentar
se fazer comunicar aquilo que, até aqui, a história
oficial tomava como oposição, elementos estanques. E
tudo começou assim, com a celebração ironicamente profana
da junção, a fórceps e sampler, de Glauber e Rogério.
Um começo estranhamente belo e instigante para este
festival.
***
A Contracampo vem pela primeira vez ao CineOP para uma
cobertura diária, à base de comentários a respeito dos filmes contemporâneos
exibidos por aqui (tem o novo do Walter Lima Jr., o
belíssimo Diário de Sintra, o documentário inédito
de André Sampaio sobre Luiz Paulino dos Santos e o segundo
longa-metragem do mineiro Rafael Conde, entre outras
coisas boas), mas também nos relatos dos debates em torno destes dois cineastas-símbolo
do cinema moderno brasileiro. Vamos repetir também o
esquema da última cobertura de Tiradentes,
disponibilizando alguns trechinhos de áudio dos debates
acontecidos aqui, para que o leitor sinta um pouco do
clima das discussões. Sigam conosco pelos próximos dias,
sempre aqui no Plano Geral.
Até lá!
Rodrigo de Oliveira
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