61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

Er shi si cheng ji (24 City), Jia Zhang-ke, China, 2008
(COMPETIÇÃO)
La vie moderne, Raymond Depardon, França, 2008
(UM CERTAIN REGARD)


Assisti os filmes de Jia Zhang-ke e de Raymond Depardon num curto intervalo de tempo, o que me suscitou paralelos entre os dois que talvez não me ocorressem em outras circunstâncias. Para começar, é curioso como o título do filme de Depardon remete muito mais ao universo industrial filmado por Jia do que à vida campesina de seus personagens. Sabemos, no entanto, que a Jia interessa muito mais a relação dos indivíduos com este corpo muito maior do que eles que é a estrutura pesada e gigantesca de um modo de produção estatal que moldou a vida dos chineses e que agora se desenraiza aos poucos – não sem grandes danos à terra, claro –, do que propriamente a concepção de mundo que estes têm. É nas memórias afetivas dos seus personagens, na forma como o cotidiano de trabalho na região do complexo de 24 City moldava todas as suas experiências de vida, que Jia vai buscar a História. A partir de relatos banais, alguns deles representados em seguida, cria-se um sentimento de ficção cinematográfica, de encadeamento de pequenas cenas que nos aproxima dos personagens e nos transporta pra um outro universo. As cartelas com trechos de poesias e a presença marcante da música popular contribui ainda mais para esta “composição de ambiente”.

Jia é o condutor: seja nos longos travellings que deslizam pelo espaço, afrontando a força de recorte do quadro, seja na cuidadosa composição da imagem das entrevistas, ou mesmo na forma como busca fixar o rosto das pessoas em suas “fotografias” expostas ao tempo, sentimos que há uma espécie de “olhar neutro”, externo, que nos apresenta a tudo aquilo. Depardon, por sua vez, é personagem atuante. Personagem assumido da própria relação das suas imagens com seu objeto. Os longos planos que abrem e fecham o filme, nos quais a câmera percorre as estradas que levam às moradas quase ocultas dos camponeses que o diretor deseja encontrar, insere-o como presença irrefutável no espaço. Fazer uma imagem é para ele imprimir instantes como expressão da História que os atravessa e estabelecer uma mediação entre sua subjetividade e a de seus personagens. À enunciação predominante nas entrevistas de 24 City, que traduz um desejo de sintetização de uma vivência coletiva, La vie moderne responde com uma dimensão dialogal, que se manifesta mesmo nos momentos em que o espírito de observação se instala, e provoca uma decomposição daquilo que vemos.

Poderia dizer que, enquanto Jia parte de uma imagem “flutuante” para fixar matérias pesadas, como as peças de aço, o concreto, as instituições chinesas, ou o próprio território natural deste país continental, Depardon parte de uma fixação do que está diante de sua câmera para destilar camadas de sentidos flutuantes. Para ele não há revelação: em um olhar mudo, é possível termos o constrangimento de para quem a câmera de cinema é uma estrangeira completa, as expressões peculiares de uma cultura que já se torna remota personalizadas num indivíduo, o testemunho de um encontro, a criação de um momento de cinema, a impossibilidade de esboçar qualquer discurso sobre o personagem, etc. Por isto talvez a necessidade do cineasta de voltar, voltar e voltar ao mesmo “tema”. Como ele mesmo explicita na trilha sonora do filme, sua paixão pelo estilo de vida daqueles camponeses – e pela iluminação característica da região – o faz querer retornar mais uma vez, para filmá-los novamente (a esta altura a idéia de uma trilogia, que se “fecharia” em torno do “assunto” já se dissipou completamente, em favor da idéia de um projeto em eterno processo). Filmar torna-se então uma espécie de gesto alquímico a amalgamar um diário pessoal, um registro objetivo e um mundo de sentimentos sem nome que desfilam pela superfície da imagem. Ao fim de La vie moderne, sabemos que passamos a conhecer melhor a vida dos fazendeiros e agricultores daquela região da França, mas temos a impressão de que, mais do que isso, realizamos uma jornada que nos leva a questionar todas as certezas que temos sobre a organização da vida sócio-econômica contemporânea.

Para além de seus aspectos mais do que particulares, estes filmes de Jia e de Depardon compartilham esta perspectivação que reúne presente, passado e futuro numa só reflexão a interrogar as diversas gerações e a relação entre elas. Compartilham também a constatação da disparição de um estilo de vida (e, conseqüentemente, de um mundo) e uma busca pelas individualidades e subjetividades por trás do que aparenta ser um coletivo humano operando de acordo com um sistema fora de seu controle direto. Tanto um quanto o outro parecem nos perguntar: quem são essas pessoas que dia-a-dia fizeram de uma cartilha de atividades um modo de vida, sustentando um funcionamento social muito, mas muito maior do que elas? E para onde vai toda uma forma de organização da existência quando os tempos mudam e a extinção as ameaça? Felizmente, as respostas não são muito conclusivas; para nos alentar, ficamos ao menos com a certeza de que tratam-se de pessoas como qualquer um de nós, alocadas num determinado “lugar” da sociedade a partir do qual trabalham – e sonham.

Tatiana Monassa