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A Festa da Menina Morta, Matheus
Nachtergaele, Brasil, 2008
(UM CERTAIN REGARD)
Confesso que quando soube que
Matheus Nachtergaele iria dirigir um filme, fiquei um tanto curiosa para saber
que filme ele faria, ele que participou substancialmente da visualidade do
cinema brasileiro dos últimos dez anos. Bem, A Festa da Menina Morta,
filme de título misterioso e sugestivo, soa um pouco como mais do mesmo. Isso
se deve, sobretudo, pelos contatos que estabelece com a obra de Claudio Assis,
ou melhor, com o imaginário que este forjou (ou “sintetizou”, já que os
elementos que ele utiliza não são exatamente “novos”): realismo áspero,
alegorias brutas, impulsos e desejos humanos exacerbados no limite do grotesco,
animais sendo mortos como expressão do lado primal do homem (do homem que vive
no subdesenvolvimento, especialmente). Estão lá também a imagem granulada e
saturada e o gosto pelo personagem histérico e afeminado.
Nachtergaele, porém, investe mais na
acentuação de questões histórico-sociais por trás do frenesi de uma comunidade
em desconforto. O Santinho, além de ser um sujeito excêntrico e autoritário, é
uma espécie de encarnação ambígua da idéia do líder religioso auto-proclamado
do sertão brasileiro, “enviado” cujo dom maior é explorar a ingenuidade de um
povo desamparado. E este povo, marcado, claro, pela pobreza, é formado em
grande parte por descendentes de índios – os subalternos do Santinho incluídos
–, o que coloca ainda em cena questões raciais e sócio-econômicas que remetem
às raízes de problemas diversos do Brasil atual. O misticismo, no entanto, não
é desqualificado como um simples “ópio”, ou como causa de subdesenvolvimento:
ele permanece no campo da incógnita e do mito. A tal menina, nunca sabemos
exatamente como ela morreu ou as circunstâncias que se seguiram à sua morte e a
transformaram num espírito “atuante”, ou ainda se suas aparições assombram
alguém de fato ou são pura fantasia manipuladora do Santinho e demais. Mas,
apesar da presença de todas estas proposições, o filme falha em articulá-las de
forma mais consistente e causar, pois, maior interesse ou envolvimento. Tudo
fica num desvairio que torna-se rapidamente cansativo.
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Le silence de Lorna,
Jean-Pierre e Luc Dardenne, Bélgica/França/Itália, 2008 (COMPETIÇÃO)
Os irmãos Dardenne talvez tenham se
tornado os realizadores mais previsíveis do circuito do cinema de autor. Se em A
Criança já era possível perceber uma fórmula sobressair-se em detrimento de
uma força própria do material do filme, em Le silence de Lorna esta
fórmula encontra-se já tão aparente que submerge todo o resto. Desta vez, a
estratégia da “moral em suspenso” está aplicada à urgente questão da imigração
que aflige a União Européia. Lorna, uma jovem albanesa, paga por um casamento
branco com um belga. O lugar do sentimental é reservado à condição de viciado
em drogas do rapaz. Ele quer largar e pede a ajuda dela; ela, por sua vez, embora
tente, não consegue ficar totalmente indiferente e manter uma relação apenas
“comercial” com ele. Em oposição à frieza do pacto estabelecido entre os dois –
que denota um estado de “corrompimento” do homem –, a presença de lampejos de afeto.
Do outro lado, porém, o esquema escuso no qual ela está envolvida prevê o
assassinato dele dissimulado como overdose e o prosseguimento da cadeia
de contravenção: ela se casará com um russo em troca de uma grande soma de
dinheiro, para passar a nacionalidade belga adiante.
Tudo filmado com grande sentido de urgência, o que em tese não deixaria margem
para dramas e sentimentalismos. Só que a moral está apenas falsamente em
suspenso e tudo é muito bem arquitetado para que o espectador se sinta
confrontado com o embate entre a justificativa personalista do ato criminoso e
a “lógica do coração”: ao silêncio criminoso de Lorna segue-se a demência de
uma gravidez psicológica, motivada pela culpa que ela sente por ter deixado o
rapaz morrer no momento em que ele finalmente parecia estar se recuperando do
vício. Legítimo cinema “mão na consciência”, como diria nosso Ruy Gardnier: frente
às escolhas dos personagens somos levados a nos posicionar. A
sensação de liberdade crítica, no entanto, é ilusória, pois o roteiro se antecipa a ela, pela forma como traça o destino dos personagens em redenções ou condenações, conduzindo-nos a um julgamento indireto...
Tatiana Monassa
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