61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

A Festa da Menina Morta, Matheus Nachtergaele, Brasil, 2008 (UM CERTAIN REGARD)

Confesso que quando soube que Matheus Nachtergaele iria dirigir um filme, fiquei um tanto curiosa para saber que filme ele faria, ele que participou substancialmente da visualidade do cinema brasileiro dos últimos dez anos. Bem, A Festa da Menina Morta, filme de título misterioso e sugestivo, soa um pouco como mais do mesmo. Isso se deve, sobretudo, pelos contatos que estabelece com a obra de Claudio Assis, ou melhor, com o imaginário que este forjou (ou “sintetizou”, já que os elementos que ele utiliza não são exatamente “novos”): realismo áspero, alegorias brutas, impulsos e desejos humanos exacerbados no limite do grotesco, animais sendo mortos como expressão do lado primal do homem (do homem que vive no subdesenvolvimento, especialmente). Estão lá também a imagem granulada e saturada e o gosto pelo personagem histérico e afeminado.

Nachtergaele, porém, investe mais na acentuação de questões histórico-sociais por trás do frenesi de uma comunidade em desconforto. O Santinho, além de ser um sujeito excêntrico e autoritário, é uma espécie de encarnação ambígua da idéia do líder religioso auto-proclamado do sertão brasileiro, “enviado” cujo dom maior é explorar a ingenuidade de um povo desamparado. E este povo, marcado, claro, pela pobreza, é formado em grande parte por descendentes de índios – os subalternos do Santinho incluídos –, o que coloca ainda em cena questões raciais e sócio-econômicas que remetem às raízes de problemas diversos do Brasil atual. O misticismo, no entanto, não é desqualificado como um simples “ópio”, ou como causa de subdesenvolvimento: ele permanece no campo da incógnita e do mito. A tal menina, nunca sabemos exatamente como ela morreu ou as circunstâncias que se seguiram à sua morte e a transformaram num espírito “atuante”, ou ainda se suas aparições assombram alguém de fato ou são pura fantasia manipuladora do Santinho e demais. Mas, apesar da presença de todas estas proposições, o filme falha em articulá-las de forma mais consistente e causar, pois, maior interesse ou envolvimento. Tudo fica num desvairio que torna-se rapidamente cansativo.

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Le silence de Lorna, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Bélgica/França/Itália, 2008 (COMPETIÇÃO)

Os irmãos Dardenne talvez tenham se tornado os realizadores mais previsíveis do circuito do cinema de autor. Se em A Criança já era possível perceber uma fórmula sobressair-se em detrimento de uma força própria do material do filme, em Le silence de Lorna esta fórmula encontra-se já tão aparente que submerge todo o resto. Desta vez, a estratégia da “moral em suspenso” está aplicada à urgente questão da imigração que aflige a União Européia. Lorna, uma jovem albanesa, paga por um casamento branco com um belga. O lugar do sentimental é reservado à condição de viciado em drogas do rapaz. Ele quer largar e pede a ajuda dela; ela, por sua vez, embora tente, não consegue ficar totalmente indiferente e manter uma relação apenas “comercial” com ele. Em oposição à frieza do pacto estabelecido entre os dois – que denota um estado de “corrompimento” do homem –, a presença de lampejos de afeto. Do outro lado, porém, o esquema escuso no qual ela está envolvida prevê o assassinato dele dissimulado como overdose e o prosseguimento da cadeia de contravenção: ela se casará com um russo em troca de uma grande soma de dinheiro, para passar a nacionalidade belga adiante.

Tudo filmado com grande sentido de urgência, o que em tese não deixaria margem para dramas e sentimentalismos. Só que a moral está apenas falsamente em suspenso e tudo é muito bem arquitetado para que o espectador se sinta confrontado com o embate entre a justificativa personalista do ato criminoso e a “lógica do coração”: ao silêncio criminoso de Lorna segue-se a demência de uma gravidez psicológica, motivada pela culpa que ela sente por ter deixado o rapaz morrer no momento em que ele finalmente parecia estar se recuperando do vício. Legítimo cinema “mão na consciência”, como diria nosso Ruy Gardnier: frente às escolhas dos personagens somos levados a nos posicionar. A sensação de liberdade crítica, no entanto, é ilusória, pois o roteiro se antecipa a ela, pela forma como traça o destino dos personagens em redenções ou condenações, conduzindo-nos a um julgamento indireto...


Tatiana Monassa