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Ah, os prêmios. Dizer que fiquei
decepcionada com a premiação de Cannes após ter assistido boa parte dos filmes
da competição in loco talvez não traduzisse completamente a minha
sensação. Vivi o Festival buscando no dia-a-dia apreender um pouco das idéias
por trás das escolhas e da organização e, apesar de protestar internamente aqui
e ali, experimentei no geral uma sensação de abertura pro cinema, pra
multiplicidade de expressões que este pode abrigar. Mas conforme o Festival se
aproximava do fim e a expectativa pela premiação se acentuava, foi como se todo
este espectro entrasse num funil: de tudo aquilo visto em conjunto e em “pé de
igualdade”, alguns filmes seriam destacados – o que significa também que
percorreriam o mundo mais do que outros. Nesta apreensão, é natural que se
espere que “justiça seja feita”. Só que logo lembramos que júris são entidades
estranhas e que quase nunca operam de acordo com o que consideramos ser um rigor
de olhar e de julgamento estético-conceitual.
Infelizmente não consegui assistir
ao filme de Laurent Cantet, Entre les murs, então não posso opinar sobre
a Palma de Ouro. Por hora, confio na opinião de alguns amigos, que me relataram
se tratar de um belo filme, digno de portar esta “honraria”. Mas quanto aos
prêmios de roteiro e mise en scène, me sinto impelida a protestar. Com
tantas propostas instigantes lá presentes, premiar mais do mesmo me parece
recair desagradavelmente na obviedade. Como havia dito aqui, o que Nuri Bilge
Ceylan faz em termos de mise en scène em Les trois singes é um
exercício retórico sem alma, que gera uma narrativa tediosa, pelas voltas que
dá para dar conta de uma história mais que banal. E embora o estilo de filmar dos
Dardenne seja completamente diferente, Le silence de Lorna compartilha
de um problema semelhante. Me pergunto qual o mérito em escrever um roteiro
absolutamente tipificado e construído a partir de uma receita baseada em ação e
reação à qual só é necessário acrescentar um tema diferente, desde que seja
baseado em conflitos e frustrações. Por que salvo raras exceções obras mais
arriscadas acabam sendo descartadas em momentos como esses? Será tão difícil
assim identificar o trabalho que constrói um filme quando ele não se auto-explicita?
Já em relação aos prêmios de ator e
atriz, eu não teria nada particularmente contra os escolhidos, mas posso dizer
sem sombra de dúvida que havia outros trabalhos mais fortes na roda. Na chave
do excesso, do transbordamento de energia na imagem a partir do corpo, tínhamos
Martina Gusman em Leonera e Mathieu Amalric em Un conte de Noël.
E na chave da construção mais clássica de personagem, havia Joaquim Phoenix em Two
Lovers, estupendo (como sempre aliás), e Angelina Jolie em Changeling,
absolutamente surpreendente, como nunca a vimos antes.
***
Tulpan, Sergey Dvortsevoy, Alemanha/Suíça/Cazaquistão/Rússia/Polônia,
2008
No entanto, nem tudo no campo das
premiações foi desapontamento. Um júri menos exposto aos holofotes, o do Un
Certain Regard, presidido este ano por Fatih Akin, apresentou-nos uma feliz
surpresa: Tulpan, do estreante Sergey Dvortsevoy. Pra mim, pelo menos, o filme
teria passado lamentavelmente desapercebido não fosse o prêmio.
No início, Tulpan parece mais um filme sobre a vida e os costumes de uma
comunidade distante transfigurados em drama familiar e filmados de forma
semi-documental. Mas, aos poucos, nos damos conta de que ele na realidade escapa
a definições simplistas. Em longos planos-seqüência, a câmera oscila entre as
ações simultâneas dos personagens, criando um ritmo frenético que mais parece a tradução
de um estado de espírito. Viver nas estepes malásias, conta-nos Dvortsevoy,
é viver ininterruptamente em atividades comunitárias e de sobrevivência. E, muito habilmente, ele faz o
drama se insinuar em meio à pura expressão de cada um de seus personagens,
figuras peculiares que nunca conseguimos apreender de forma fechada.
Mas o que mais impressiona em Tulpan é o fenomenal trabalho de câmera. Trabalho mesmo, no sentido de ação construtiva
no espaço, pois embora a câmera seja uma entidade de presença invisível no ambiente
da ficção, são suas escolhas de enquadramento e sua movimentação que entabulam a narrativa, que estabelecem tensões
e criam climas e pontuações. O aparente esforço de “adesão ao real” ganha então outra
conotação: não se trata de um falso documentário, nem de uma declarada auto-representação
por parte dos atores-personagens. Dvortsevoy ignora essas categorizações e apresenta
algo muito mais instigante: uma linha dramática claramente ficcional tecida a
partir da veracidade do registro. A captura de momentos inegavelmente únicos e autênticos, como as tempestades de areia e o nascimento do filhote de ovelha,
impressiona pela força de “atualidade” sendo filmada (notavelmente pelo uso sem
trégua do plano-seqüência com a câmera na mão) ao mesmo tempo em que anuncia sem pudores sua
importância dramática para o desenrolar do filme. A cena do nascimento do
filhote, aliás, mereceria um tratado à parte: clímax absoluto, ela carrega uma
tensão digna da mais dedicada construção clássica, mas que advém sobretudo da
potência do registro documental de uma interação ator-natureza.
Esta grata surpresa marcou o encerramento
do Festival pra mim. Mas, como sinto-me em dívida com alguns filmes vistos (e
com o leitor também, claro), publicarei ainda alguns textos para falar deles.
Tatiana Monassa
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