61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

Ah, os prêmios. Dizer que fiquei decepcionada com a premiação de Cannes após ter assistido boa parte dos filmes da competição in loco talvez não traduzisse completamente a minha sensação. Vivi o Festival buscando no dia-a-dia apreender um pouco das idéias por trás das escolhas e da organização e, apesar de protestar internamente aqui e ali, experimentei no geral uma sensação de abertura pro cinema, pra multiplicidade de expressões que este pode abrigar. Mas conforme o Festival se aproximava do fim e a expectativa pela premiação se acentuava, foi como se todo este espectro entrasse num funil: de tudo aquilo visto em conjunto e em “pé de igualdade”, alguns filmes seriam destacados – o que significa também que percorreriam o mundo mais do que outros. Nesta apreensão, é natural que se espere que “justiça seja feita”. Só que logo lembramos que júris são entidades estranhas e que quase nunca operam de acordo com o que consideramos ser um rigor de olhar e de julgamento estético-conceitual.

Infelizmente não consegui assistir ao filme de Laurent Cantet, Entre les murs, então não posso opinar sobre a Palma de Ouro. Por hora, confio na opinião de alguns amigos, que me relataram se tratar de um belo filme, digno de portar esta “honraria”. Mas quanto aos prêmios de roteiro e mise en scène, me sinto impelida a protestar. Com tantas propostas instigantes lá presentes, premiar mais do mesmo me parece recair desagradavelmente na obviedade. Como havia dito aqui, o que Nuri Bilge Ceylan faz em termos de mise en scène em Les trois singes é um exercício retórico sem alma, que gera uma narrativa tediosa, pelas voltas que dá para dar conta de uma história mais que banal. E embora o estilo de filmar dos Dardenne seja completamente diferente, Le silence de Lorna compartilha de um problema semelhante. Me pergunto qual o mérito em escrever um roteiro absolutamente tipificado e construído a partir de uma receita baseada em ação e reação à qual só é necessário acrescentar um tema diferente, desde que seja baseado em conflitos e frustrações. Por que salvo raras exceções obras mais arriscadas acabam sendo descartadas em momentos como esses? Será tão difícil assim identificar o trabalho que constrói um filme quando ele não se auto-explicita?

Já em relação aos prêmios de ator e atriz, eu não teria nada particularmente contra os escolhidos, mas posso dizer sem sombra de dúvida que havia outros trabalhos mais fortes na roda. Na chave do excesso, do transbordamento de energia na imagem a partir do corpo, tínhamos Martina Gusman em Leonera e Mathieu Amalric em Un conte de Noël. E na chave da construção mais clássica de personagem, havia Joaquim Phoenix em Two Lovers, estupendo (como sempre aliás), e Angelina Jolie em Changeling, absolutamente surpreendente, como nunca a vimos antes.

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Tulpan, Sergey Dvortsevoy, Alemanha/Suíça/Cazaquistão/Rússia/Polônia, 2008

No entanto, nem tudo no campo das premiações foi desapontamento. Um júri menos exposto aos holofotes, o do Un Certain Regard, presidido este ano por Fatih Akin, apresentou-nos uma feliz surpresa: Tulpan, do estreante Sergey Dvortsevoy. Pra mim, pelo menos, o filme teria passado lamentavelmente desapercebido não fosse o prêmio.

No início, Tulpan parece mais um filme sobre a vida e os costumes de uma comunidade distante transfigurados em drama familiar e filmados de forma semi-documental. Mas, aos poucos, nos damos conta de que ele na realidade escapa a definições simplistas. Em longos planos-seqüência, a câmera oscila entre as ações simultâneas dos personagens, criando um ritmo frenético que mais parece a tradução de um estado de espírito. Viver nas estepes malásias, conta-nos Dvortsevoy, é viver ininterruptamente em atividades comunitárias e de sobrevivência. E, muito habilmente, ele faz o drama se insinuar em meio à pura expressão de cada um de seus personagens, figuras peculiares que nunca conseguimos apreender de forma fechada.

Mas o que mais impressiona em Tulpan é o fenomenal trabalho de câmera. Trabalho mesmo, no sentido de ação construtiva no espaço, pois embora a câmera seja uma entidade de presença invisível no ambiente da ficção, são suas escolhas de enquadramento e sua movimentação que entabulam a narrativa, que estabelecem tensões e criam climas e pontuações. O aparente esforço de “adesão ao real” ganha então outra conotação: não se trata de um falso documentário, nem de uma declarada auto-representação por parte dos atores-personagens. Dvortsevoy ignora essas categorizações e apresenta algo muito mais instigante: uma linha dramática claramente ficcional tecida a partir da veracidade do registro. A captura de momentos inegavelmente únicos e autênticos, como as tempestades de areia e o nascimento do filhote de ovelha, impressiona pela força de “atualidade” sendo filmada (notavelmente pelo uso sem trégua do plano-seqüência com a câmera na mão) ao mesmo tempo em que anuncia sem pudores sua importância dramática para o desenrolar do filme. A cena do nascimento do filhote, aliás, mereceria um tratado à parte: clímax absoluto, ela carrega uma tensão digna da mais dedicada construção clássica, mas que advém sobretudo da potência do registro documental de uma interação ator-natureza.

Esta grata surpresa marcou o encerramento do Festival pra mim. Mas, como sinto-me em dívida com alguns filmes vistos (e com o leitor também, claro), publicarei ainda alguns textos para falar deles.


Tatiana Monassa