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La mujer sin cabeza, Lucrecia
Martel, Argentina/Espanha/França, 2007
(COMPETIÇÃO)
Synecdoche, New
York, Charlie Kaufman, EUA, 2008
(COMPETIÇÃO)
Foi com grande satisfação que
descobri que, na competição deste ano, Lucrecia Martel integra o “clube” de
Desplechin e Trapero – com os quais acredito também que seu cinema guarde algumas
afinidades –, o daqueles cujas obras estão em movimento; num excitante
movimento. La mujer sin cabeça é o filme que se poderia esperar de
Martel, e ao mesmo tempo o filme que ninguém aguardava. Se Menina Santa já demonstrava o quanto sua “não-encenação” e sua câmera ligada às oscilações
dos corpos, captando movimentos no momento, aderindo a um fluxo inapreensível,
constituíam uma quimera que escondia um desejo de cinema mais denso e bem menos
óbvio, este último comprova isto com todas as forças.
La mujer sin cabeça começa
filmando a família daquela maneira conhecida desde O Pântano:
personagens de um lado pro outro, falando simultaneamente, existindo todos ao
mesmo tempo no caos das micro-relações familiares; até que um acontecimento inesperado
sacode a personagem (e a imagem). Ela pára o carro na estrada. Um cachorro
morto está à sua frente. A forte chuva que se segue indica que o tempo mudou. Verónica
entrará num descompasso violento com o mundo – e o quadro com ela. Verónica
perde a cabeça: a câmera de Martel cessará de nos mostrar seu corpo inteiro em
plano. Ou o busto, ou o crânio. De resto, pedaços de corpos, pedaços de espaço.
Junto com o interior da personagem assolada por uma expriência traumática, fratura-se o filme.
O que mais me fascinou nesta espécie
de exercício formalista – que nunca chega a se resumir a isto – foi a reconfiguração
completa de um estilo pessoal que já tinha se tornado em alguma medida um
paradigma no panorama contemporâneo. Nada de realismo documental ilusório, de tour-de-force atenuado para assegurar um naturalismo revigorado: todo o caráter de captura do passageiro
e de flutuação no instante é uma escolha estética que responde a um propósito. A
força do quadro sempre esteve lá; estava apenas dissimulada por outros
imperativos. La mujer sin cabeça testemunha a revolta do enquadramento:
é o recorte que instaura a narrativa, é ele que nos diz o que está acontecendo e
que impõe a cisão à personagem. Giro absolutamente genial, brilhante mesmo, que
se não apaga totalmente alguns vícios – como tomar sempre o partido do
inconclusivo – os atira pra outra esfera, abrindo a porta para um universo de
novidades originais.
***
Em oposição a este entusiasmo
causado pela constatação de um talento criativo em ebulição, reconfigurando o
conhecido, propondo o ainda desconhecido, o tédio do mesmo. Synecdoche, New
York, primeiro filme de Charlie Kaufman, traz uma vez mais o universo
expressivo do tal “cinema independente americano”, ao qual Kaufman bem ou mal
ajudou a dar consistência com seus roteiros e seu esforço de produtor.
Primeiro, um simpático ar de crônica familiar
cotidiana, na qual as idiossincrasias dos personagens são motivos de riso
carinhoso. Em seguida, o estranhamento: pequenos deslocamentos vão aos poucos
tirando a nós e aos personagens da pura fruição do trivial. Caden, o pai da
família, começa a ter estranhas disfunções fisiológicas e vai se sentindo aos
poucos apartado do seu entorno. Mas como Charlie Kaufman não é Lucrecia Martel,
essa “pane” levará a um processo de decantamento das aparências e de destilação
de reflexões diversas que mais parecem saídas de um livro ilustrativo de
auto-ajuda. Segue-se, portanto, um insuportável desdobramento de cenas, que se
repetem e se multiplicam em diferentes representações, sintetizando a velha
idéia de “teatro da vida” – que é mais do que reforçada narrativa e visualmente
pela deixa temática do personagem diretor de teatro que resolve montar uma peça
para representar “a vida tal como ela é” (que, um pouco como o mapa de Borges, vai
tomando as dimensões do próprio real, a ponto de substituí-lo). Ou seja, todo o
investimento nesta arquitetura metafórica no fundo serve apenas para evidenciar
verdades “profundas” e reveladoras sobre a vivência humana, que possam espelhar
as próprias tristezas e misérias de quem assiste (e se identifica e celebra).
Tatiana Monassa
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