61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

La mujer sin cabeza, Lucrecia Martel, Argentina/Espanha/França, 2007
(COMPETIÇÃO)
Synecdoche, New York, Charlie Kaufman, EUA, 2008
(COMPETIÇÃO)

Foi com grande satisfação que descobri que, na competição deste ano, Lucrecia Martel integra o “clube” de Desplechin e Trapero – com os quais acredito também que seu cinema guarde algumas afinidades –, o daqueles cujas obras estão em movimento; num excitante movimento. La mujer sin cabeça é o filme que se poderia esperar de Martel, e ao mesmo tempo o filme que ninguém aguardava. Se Menina Santa já demonstrava o quanto sua “não-encenação” e sua câmera ligada às oscilações dos corpos, captando movimentos no momento, aderindo a um fluxo inapreensível, constituíam uma quimera que escondia um desejo de cinema mais denso e bem menos óbvio, este último comprova isto com todas as forças.

La mujer sin cabeça começa filmando a família daquela maneira conhecida desde O Pântano: personagens de um lado pro outro, falando simultaneamente, existindo todos ao mesmo tempo no caos das micro-relações familiares; até que um acontecimento inesperado sacode a personagem (e a imagem). Ela pára o carro na estrada. Um cachorro morto está à sua frente. A forte chuva que se segue indica que o tempo mudou. Verónica entrará num descompasso violento com o mundo – e o quadro com ela. Verónica perde a cabeça: a câmera de Martel cessará de nos mostrar seu corpo inteiro em plano. Ou o busto, ou o crânio. De resto, pedaços de corpos, pedaços de espaço. Junto com o interior da personagem assolada por uma expriência traumática, fratura-se o filme.

O que mais me fascinou nesta espécie de exercício formalista – que nunca chega a se resumir a isto – foi a reconfiguração completa de um estilo pessoal que já tinha se tornado em alguma medida um paradigma no panorama contemporâneo. Nada de realismo documental ilusório, de tour-de-force atenuado para assegurar um naturalismo revigorado: todo o caráter de captura do passageiro e de flutuação no instante é uma escolha estética que responde a um propósito. A força do quadro sempre esteve lá; estava apenas dissimulada por outros imperativos. La mujer sin cabeça testemunha a revolta do enquadramento: é o recorte que instaura a narrativa, é ele que nos diz o que está acontecendo e que impõe a cisão à personagem. Giro absolutamente genial, brilhante mesmo, que se não apaga totalmente alguns vícios – como tomar sempre o partido do inconclusivo – os atira pra outra esfera, abrindo a porta para um universo de novidades originais.

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Em oposição a este entusiasmo causado pela constatação de um talento criativo em ebulição, reconfigurando o conhecido, propondo o ainda desconhecido, o tédio do mesmo. Synecdoche, New York, primeiro filme de Charlie Kaufman, traz uma vez mais o universo expressivo do tal “cinema independente americano”, ao qual Kaufman bem ou mal ajudou a dar consistência com seus roteiros e seu esforço de produtor.

Primeiro, um simpático ar de crônica familiar cotidiana, na qual as idiossincrasias dos personagens são motivos de riso carinhoso. Em seguida, o estranhamento: pequenos deslocamentos vão aos poucos tirando a nós e aos personagens da pura fruição do trivial. Caden, o pai da família, começa a ter estranhas disfunções fisiológicas e vai se sentindo aos poucos apartado do seu entorno. Mas como Charlie Kaufman não é Lucrecia Martel, essa “pane” levará a um processo de decantamento das aparências e de destilação de reflexões diversas que mais parecem saídas de um livro ilustrativo de auto-ajuda. Segue-se, portanto, um insuportável desdobramento de cenas, que se repetem e se multiplicam em diferentes representações, sintetizando a velha idéia de “teatro da vida” – que é mais do que reforçada narrativa e visualmente pela deixa temática do personagem diretor de teatro que resolve montar uma peça para representar “a vida tal como ela é” (que, um pouco como o mapa de Borges, vai tomando as dimensões do próprio real, a ponto de substituí-lo). Ou seja, todo o investimento nesta arquitetura metafórica no fundo serve apenas para evidenciar verdades “profundas” e reveladoras sobre a vivência humana, que possam espelhar as próprias tristezas e misérias de quem assiste (e se identifica e celebra).

Tatiana Monassa