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Two Lovers, James
Gray, EUA, 2008 (COMPETIÇÃO)
Changeling, Clint
Eastwood, EUA, 2008 (COMPETIÇÃO)
Enfim, o cinema americano. A exibição
próxima de Two Lovers, de James Gray, e Changeling, de Clint
Eastwood, aqui no meio de tantas “outras” formas, nos transportou por um
momento um pouco de volta para um “terreno conhecido”. Ou não. De qualquer
maneira, pra mim, a quebra do moto contínuo do “cinema de arte” com estes
nossos estimados também autores-de-direito, foi renovadora dentro do que eu vinha
pensando.
Two Lovers, como bem observou
Eduardo Valente na Cinética, é absolutamente siderante. Devo concordar com ele também que talvez seja o
filme mais impactante de toda a Competitiva até agora. Alguém falou em comédia
romântica? Cada imagem de Gray carrega um peso inacreditável: freqüentemente
confinado pelo enquadramento, oprimido pela arquitetura de interiores, o
personagem de Joaquim Phoenix, Leonard, precisa confrontar-se o tempo todo com
a responsabilidade sobre cada desejo seu, pois ela implica responsabilidade
sobre suas escolhas, e, portanto, com os outros (sua família, sobretudo). No
meio de tudo isso, o amor manifesta-se, ainda assim, singelamente: nos
sorrisos, nos encontros, em todos os meios-gestos que deixam transparecer a
sombra que cada personagem carrega dentro de si, mas que nunca é exatamente
explicitada.
Não se trata apenas de operar um
deslocamento dentro de um gênero, trata-se de uma forma muito particular de
olhar para o mundo. Diria mesmo que, em Two Lovers, James Gray demonstra
ser bem menos clássico do que se pode pensar e muito mais desafiador do que
grande parte do cinema contemporâneo visto aqui. Sim, temos um argumento um
tanto genérico: um jovem problemático se apaixona por sua vizinha, enquanto
começa a sair com a filha dos amigos dos pais, por arranjamento destes. Mas isso
pouco importa. Pois cada plano nos transporta para um além da narrativa, para o
lado daquela sombra que citei acima. O contraponto da plasticidade assombrosa do
filme torna-se então uma incógnita absoluta: vemos os personagens agirem, nos
apegamos a eles, mas nunca sabemos ao certo o que pensam e sentem. Tudo é
opacidade, tudo é mistério: na origem do drama há uma fenda profunda que
atravessa a narrativa, cindindo Leonard: ele é bipolar, dizem seus pais; ele
está apaixonado por duas mulheres; ele precisa descobrir a medida entre si
próprio e os outros. No meio de tudo isto estamos nós, interpelados pela
identificação, desafiados por tantos vácuos, maravilhados com a expressão
cinematográfica do cineasta, para a qual é realmente difícil de encontrar
palavras.
***
Na coletiva de imprensa para falar
de Changeling, em meio a tantas perguntas idiotas sobre o porquê dele
ter escolhido esta história pra filmar, o que a história dizia sobre isso ou
aquilo, Clint Eastwood mencionou diversas vezes a palavra “drama”. E, a certa
altura, disse algo como: “o que me interessa é o drama, é o conflito. Não se
conta uma história em que tudo funciona perfeitamente, não haveria razão para
contá-la”. Sim, seu cinema é um herdeiro genuíno do classicismo. Mas o que é
que ele faz afinal, que emociona tanto? Que forma é essa de interrogar o mundo
a partir do cinema como se este fosse uma forma de expressão absoluta, que só
precisasse ser refinada e refinada a cada filme?
Talvez o que mais
impressione em Changeling seja a constante modulação da narrativa, a
presença do aspecto de mudança e transformação não apenas como tema do roteiro,
mas na própria levada do filme. No início acreditamos estar assistindo um
melodrama familiar assombrado pela estranheza, mas logo percebemos se delinear um
melodrama social, com o embate entre o indivíduo e estabelecido. E qual não é a
surpresa quando a narrativa policial entra na jogada, para terminar no
tribunal? Na esteira da destruição do lar por uma abdução, a ordem das coisas é
invertida: primeiro o drama da injustiça das instituições que pesa sobre o
indivíduo, e depois o crime e a violência que estão na origem de tudo. De forma
que, quando o horror surge em Changeling, em rápidos inserts totalmente inesperados, somos inegavelmente surpreendidos pela real presença do
Mal, que até ali era apenas uma incógnita. E o Mal é algo diverso da
perversidade das instituições humanas.
O Mal manifesta-se sem quê nem por
quê, e a infância é seu principal “laboratório”. Sobre Meninos e Lobos ressoa brutalmente em Changeling: não apenas uma criança é abduzida por
um pedófilo, como o sangue está nas mãos de um menino. Um menino cuja
consciência não carregava a dimensão voluntária do crime, mas cujos atos o
condenam irreversivelmente. E o binômio responsabilidade/culpa não recai apenas
sobre o menino cúmplice do assassino, mas também sobre o menino impostor, por
ter compactuado com uma farsa (ainda que pelo motivo mais inocente possível:
montar no cavalo do seu ídolo). E, ao fim, é o abduzido que apresenta o
antídoto para o horror: William continua desaparecido, mas a certeza de que ele
assumiu a responsabilidade sobre a vida do coleguinha preso nas grades – que
talvez tenha custado sua própria vida – garante-lhe a aura de “anjo”. Se ele
vive, ele não vive com o tormento que assombrou a vida inteira de Bradley,
personagem de A Conquista da Honra. Ao contrário deste, e embora novo demais,
William honrou algo muito maior do que ele, a integridade de fazer a escolha
justa – justa com a vida, sobretudo. Haveria algo mais eastwoodiano?
Tatiana Monassa
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