61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

Two Lovers, James Gray, EUA, 2008 (COMPETIÇÃO)
Changeling, Clint Eastwood, EUA, 2008 (COMPETIÇÃO)


Enfim, o cinema americano. A exibição próxima de Two Lovers, de James Gray, e Changeling, de Clint Eastwood, aqui no meio de tantas “outras” formas, nos transportou por um momento um pouco de volta para um “terreno conhecido”. Ou não. De qualquer maneira, pra mim, a quebra do moto contínuo do “cinema de arte” com estes nossos estimados também autores-de-direito, foi renovadora dentro do que eu vinha pensando.

Two Lovers, como bem observou Eduardo Valente na Cinética, é absolutamente siderante. Devo concordar com ele também que talvez seja o filme mais impactante de toda a Competitiva até agora. Alguém falou em comédia romântica? Cada imagem de Gray carrega um peso inacreditável: freqüentemente confinado pelo enquadramento, oprimido pela arquitetura de interiores, o personagem de Joaquim Phoenix, Leonard, precisa confrontar-se o tempo todo com a responsabilidade sobre cada desejo seu, pois ela implica responsabilidade sobre suas escolhas, e, portanto, com os outros (sua família, sobretudo). No meio de tudo isso, o amor manifesta-se, ainda assim, singelamente: nos sorrisos, nos encontros, em todos os meios-gestos que deixam transparecer a sombra que cada personagem carrega dentro de si, mas que nunca é exatamente explicitada.

Não se trata apenas de operar um deslocamento dentro de um gênero, trata-se de uma forma muito particular de olhar para o mundo. Diria mesmo que, em Two Lovers, James Gray demonstra ser bem menos clássico do que se pode pensar e muito mais desafiador do que grande parte do cinema contemporâneo visto aqui. Sim, temos um argumento um tanto genérico: um jovem problemático se apaixona por sua vizinha, enquanto começa a sair com a filha dos amigos dos pais, por arranjamento destes. Mas isso pouco importa. Pois cada plano nos transporta para um além da narrativa, para o lado daquela sombra que citei acima. O contraponto da plasticidade assombrosa do filme torna-se então uma incógnita absoluta: vemos os personagens agirem, nos apegamos a eles, mas nunca sabemos ao certo o que pensam e sentem. Tudo é opacidade, tudo é mistério: na origem do drama há uma fenda profunda que atravessa a narrativa, cindindo Leonard: ele é bipolar, dizem seus pais; ele está apaixonado por duas mulheres; ele precisa descobrir a medida entre si próprio e os outros. No meio de tudo isto estamos nós, interpelados pela identificação, desafiados por tantos vácuos, maravilhados com a expressão cinematográfica do cineasta, para a qual é realmente difícil de encontrar palavras.

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Na coletiva de imprensa para falar de Changeling, em meio a tantas perguntas idiotas sobre o porquê dele ter escolhido esta história pra filmar, o que a história dizia sobre isso ou aquilo, Clint Eastwood mencionou diversas vezes a palavra “drama”. E, a certa altura, disse algo como: “o que me interessa é o drama, é o conflito. Não se conta uma história em que tudo funciona perfeitamente, não haveria razão para contá-la”. Sim, seu cinema é um herdeiro genuíno do classicismo. Mas o que é que ele faz afinal, que emociona tanto? Que forma é essa de interrogar o mundo a partir do cinema como se este fosse uma forma de expressão absoluta, que só precisasse ser refinada e refinada a cada filme?

Talvez o que mais impressione em Changeling seja a constante modulação da narrativa, a presença do aspecto de mudança e transformação não apenas como tema do roteiro, mas na própria levada do filme. No início acreditamos estar assistindo um melodrama familiar assombrado pela estranheza, mas logo percebemos se delinear um melodrama social, com o embate entre o indivíduo e estabelecido. E qual não é a surpresa quando a narrativa policial entra na jogada, para terminar no tribunal? Na esteira da destruição do lar por uma abdução, a ordem das coisas é invertida: primeiro o drama da injustiça das instituições que pesa sobre o indivíduo, e depois o crime e a violência que estão na origem de tudo. De forma que, quando o horror surge em Changeling, em rápidos inserts totalmente inesperados, somos inegavelmente surpreendidos pela real presença do Mal, que até ali era apenas uma incógnita. E o Mal é algo diverso da perversidade das instituições humanas.

O Mal manifesta-se sem quê nem por quê, e a infância é seu principal “laboratório”. Sobre Meninos e Lobos ressoa brutalmente em Changeling: não apenas uma criança é abduzida por um pedófilo, como o sangue está nas mãos de um menino. Um menino cuja consciência não carregava a dimensão voluntária do crime, mas cujos atos o condenam irreversivelmente. E o binômio responsabilidade/culpa não recai apenas sobre o menino cúmplice do assassino, mas também sobre o menino impostor, por ter compactuado com uma farsa (ainda que pelo motivo mais inocente possível: montar no cavalo do seu ídolo). E, ao fim, é o abduzido que apresenta o antídoto para o horror: William continua desaparecido, mas a certeza de que ele assumiu a responsabilidade sobre a vida do coleguinha preso nas grades – que talvez tenha custado sua própria vida – garante-lhe a aura de “anjo”. Se ele vive, ele não vive com o tormento que assombrou a vida inteira de Bradley, personagem de A Conquista da Honra. Ao contrário deste, e embora novo demais, William honrou algo muito maior do que ele, a integridade de fazer a escolha justa –  justa com a vida, sobretudo. Haveria algo mais eastwoodiano?

Tatiana Monassa