61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

Le voyage aux Pyrenées, Arnaud e Jean-Marie Larrieu, França, 2008
(QUINZAINE DE RÉALISATEURS)
De la guerre, Bertrand Bonello, França, 2008
(QUINZAINE DE RÉALISATEURS)
Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes, Portugal/França, 2008
(QUINZAINE DE RÉALISATEURS)


Há algo de maravilhoso no cinema dos irmãos Larrieu que é um tanto difícil de definir; um desejo de crônica, um humor particular, um não-medo do ridículo, a auto-confiança de quem não se leva muito à sério. Mas talvez haja algo além que permite que seus filmes destilem esse prazer “básico” da narrativa, que nos envolve profundamente sem que nunca percamos sua dimensão de construção. Arriscaria dizer que este algo está em seu sentido de cenicidade e de jogo de representação. Os personagens talvez encontrem-se sempre em um estado de semi auto-consciência, no qual a dimensão do ator projetaria uma sombra no puro desenrolar naturalista dos fatos. Se isso for possível, Le voyage aux Pyrenées seria uma amostra exemplar desta proposta.

Sabine Azéma e Jean-Pierre Daroussin interpretam dois atores famosos que saem de férias e, para tentar escapar do assédio do público, tentam se passar por pessoas comuns. O jogo de ser-não ser, de se fingir outro, instala um clima de artificialidade jocosa entre os personagens, que, face a desentendimentos mútuos, levam a lógica do outro para onde bem entendem, ao invés de entrarem em embate. Logo nos vemos mergulhados num vale-tudo que parece movido a escrita automática; o surrealismo das situações se encadeia, atingindo um paroxismo. Pela primeira vez o cinema dos Larrieu me remeteu ao trabalho de Hong Sang-soo. Não apenas pelo motivo da troca de casais, caro aos dois cineastas, mas pelo gosto de fazer suas narrativas dobrarem-se sobre si mesmas e pela própria forma de filmar cenas triviais nas quais podemos perceber os personagens por trejeitos e entonação de falas.

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Pensava ainda nesta questão da cenicidade, que não é um campo de trabalho muito usual no cinema autoral contemporâneo, quando vi o filme de Bertrand Bonello, De la guerre. É interessante como, de forma geral, Bonello toma a cena sob uma perspectiva psicológico-emotiva herdeira do cinema moderno (da Nouvelle Vague, sobretudo). Após filmar o set de um filme pornô em O Pornógrafo e uma tragédia “teatral” em Tirésia, em De La guerre ele filma o processo interior de um personagem cineasta prestes a fazer um filme, mas que se vê confrontado com sua própria dificuldade de encontrar uma forma estética que expresse seus sentimentos – o que o conduz a uma verdadeira jornada existencial. Bertrand, claramente um alter-ego de Bonello, vê no cinema um meio de transmitir estados afetivos humanos, através de narrativas mais ou menos triviais. Mas aquele que seria o estado mais nobre, o da alegria extática, do gozo de estar vivo, é para ele algo quase impossível de ser traduzido numa representação cinematográfica – de alguma forma porque está também fora da sua vivência cotidiana. E eis que surge um cavaleiro soturno vindo sabe-se lá de onde e transporta Bertrand pra uma comunidade afastada da cidade, na qual todos buscam viver da forma mais “essencial” possível.

A partir daí, o filme entra em sinergia com o processo interior do personagem e busca formas de representação de tudo aquilo que ele vive abstratamente. Assim, temos conversas intimistas e longos transes movidos a música, ou ainda,o uso de iconografias mais ou menos codificadas: imagens fantasiosas (os membros da comunidade vestindo máscaras de animais) e clichês (vestimentas de guerra, etc.). Calcado sobretudo numa narrativa episódica que flerta com o mágico e o onírico, Bonello dramatiza a criação cinematográfica de uma forma apenas vagamente auto-reflexiva. A luta (ou a guerra) é para sintetizar algo a partir do abstrato, para que o ato construtivo vença o estabelecido, para que o movimento da alegria vença a paralisia da depressão. O que mais surpreende nisto tudo é que o filme consegue traduzir (e transmitir) uma gama de sentimentos um tanto sutis com bastante propriedade. Incomodou-me apenas algumas “inspirações” explícitas demais para esconderem falhas de criatividade: há planos que parecem tirados de Last Days, de Gus Van Sant, outros de Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, e um clima geral que lembra os filmes de Serge Bozon.

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E, de repente, tudo fora do lugar, tudo em lugares inusitados: Aquele Querido Mês de Agosto, do jovem realizador português Miguel Gomes, frustra qualquer tentativa de aproximá-lo desta ou daquela vertente, ou mesmo relacioná-lo com outros trabalhos vistos por aí. Gomes encadeia imagens e sons “como quem não quer nada”; e como se o filme estivesse filmando seu próprio processo. Conforme Aquele Querido Mês de Agosto avança, pois, nos damos conta de que é exatamente isso que Gomes está encenando: o processo de um filme sem uma estrutura de produção aprisionadora descobrindo a possibilidade de sua própria realização. Ao documentário de pesquisa de pré-produção (pontuado por escapadas líricas) sobre grupos musicais regionais, passamos para uma espécie de cine-diário dos bastidores do filme, no qual ficamos sabendo que as imagens que vimos antes foram rodadas para este projeto que encontra-se um quê estagnado. A passagem é feita sem ganchos e sem linearidade. Lá pelas tantas, Gomes diz em cena para seu produtor, que cobra resultados concretos das filmagens: “eu não quero atores, eu quero pessoas de verdade, e ainda não encontramos essas pessoas”. Aos poucos, porém, este “diário” vai sendo substituído exatamente pela historinha que “deveria” estar se passando desde o início: Gomes encontrou aquilo que queria filmar. A ficção retoma então diversos dos elementos que vimos aparecer no “processo” de pesquisa.

Mas o filme é ainda mais que isso: ao filmar as meninas que se tornarão as atrizes da ficção insistindo para participar da seleção de atores, ou os dois homens que ouvimos em entrevistas em off no início e depois também vemos interpretarem seus papéis reclamando que seu depoimento havia sido gravado escondido, Gomes confirma um “dispositivo” complexo e nada previsível, além de colocar em questão toda a dramatização cinematográfica – seja ela documental, realista, ou totalmente artificial – a partir de um dado universo. Ao fim do filme, uma divertidíssima conversa entre Gomes e Vasco, seu técnico de som, coloca toda a dinâmica entre som e imagem que presenciamos ao longo do filme em xeque: o técnico é acusado de estar fazendo o que bem entende, captando sons completamente diversos das tomadas sendo feitas, e é chamado à responsabilidade: é preciso que ele grave os sons correspondente às imagens. É preciso que o filme encontre enfim o naturalismo previsto! Mas os créditos sobem, já é tarde demais. Ainda sentada na poltrona, me pergunto até que ponto Miguel Gomes estabelece um diálogo com Pedro Costa, propondo de forma totalmente atravessada outra relação de encenação e perplexidade com mundo.

Tatiana Monassa