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Liverpool, Lisandro Alonso,
Argentina/França/Holanda/Espanha/Alemanha, 2008
(QUINZAINE DES
RÉALISATEURS)
El Cant dels occels, Albert
Serra, Espanha, 2008
(QUINZAINE DES
RÉALISATEURS)
Depois de alguns dias mergulhados
num festival, começamos a ficar com a percepção um pouco alterada. A rotina não
inclui apenas ver muitos filmes num espaço curto de tempo e responder rapidamente
a eles, mas dormir insuficientemente e ingerir muita cafeína. E aqui em Cannes
isto é multiplicado por dez, por conta principalmente da distribuição das
sessões ao longo do dia. Nesse outro estado perceptivo, não raro nos tornamos
capazes de enxergar coisas que talvez não enxergássemos usualmente e ficamos
com o olhar mais ágil e mais apto a estabelecer relações e identificar
tendências. Mas o cansaço e a correria acabam nos impedindo de aplicar o rigor
de pensamento que gostaríamos. Até que acontece o inevitável: obsessões começam
a assombrar os textos.
Já comecei a temer a repetição de
idéias. Talvez as reflexões que venho tecendo entre filmes se provem
irrelevantes ou inapropriadas após algum tempo... Mas é fato que aqui o fator
curadoria é muito presente e as diferentes seleções, por formarem corpos fechados de filmes,
instigam o tempo todo a criação de “paralelas e transversais”. Bom, eis que não
consigo evitar retomar a discussão sobre a a-narratividade e o “novo”.
Lisandro Alonso, um dos mais
promissores talentos do cinema contemporâneo revelados recentemente, está com
seu mais novo longa, Liverpool, na Quinzena dos Realizadores. Incensado
como cavaleiro solitário pela sua radicalidade, ele é recebido como um artista
raro, que brilha para poucos. Mas o que nos traz exatamente Liverpool?
Um fiapo de roteiro sustentado por planos longuíssimos que captam ações mínimas
e sem significação, expostos ao tempo para contemplar tão somente uma
existência ordinária e fazer emergir disso uma emoção da imanência. Não há
muito a ser contado, e por isso o roteiro é substituído pela observação. O
objetivo parece não apenas propor um outro cinema (que já estaria um tanto
defasado como proposta alternativa ao “modelo dominante”), mas desarticular o
próprio cinema; só que sem realmente propor outra articulação qualquer. Me
senti tomada o tempo todo pela indagação: o que as imagens transmitem, o que
elas nos dizem e nos fazem pensar e sentir?, sem realmente ter uma resposta. O
que posso dizer com certeza, no entanto, é que o seu trabalho está a milhas de
distância do de um Nuri Bilge Ceylan, cujo cinema já desqualifiquei aqui. Pois nele
existe uma proposta de questionamento enfático da narrativa, e não apenas um
embaçamento aparente desta por elipses e afins. Talvez Alonso mereça uma investigação
mais detida, longe das condições festivalescas, para poder medir até que ponto
ele imerge na gratuidade da forma e na irrelevância.
Continuando um pouco na questão de
filmar a inação, devo dizer o quanto a proposta de Albert Serra me parece não
apenas absolutamente genuína como um tanto desafiadora. Seu primeiro filme, Honor
de Cavalleria, visto na Mostra de São Paulo em 2006, já tinha aparecido pra
mim como um óvni vindo de algum lugar desconhecido do passado. Seu segundo
filme, El Cant dels ocels, em exibição aqui também na Quinzena dos
Realizadores, dá continuidade ao seu projeto radical: filmar em longos planos
fixos personagens “rudes” vagando numa paisagem selvagem. Nesta espécie de
cinema primitivo – ou medieval, como gosto de dizer – o grande interesse parece
ser uma natureza primordial do homem e do mundo, um estado pré-civilização no
qual o tempo é o do vento e das árvores e o espaço encerra uma mística
ancestral. E para captar esta essência seria necessário justamente impor uma
inércia fundamental, à guisa de “fixador”: em sua errância, os personagens experimentam
longos momentos de ócio, em que emitem os comentários mais aleatórios possíveis,
e enfrentam dramáticas impossibilidades de decisão sobre o que fazer e que
caminhos seguir.
Como bem apontou Olivier Père (diretor
artístico da Quinzena) na apresentação do filme, o cinema de Serra parece algo
como um pré-cinema. E eu diria mais: é como se sua câmera negasse a modernidade
que a própria idéia do cinematógrafo encerra. Simultaneamente, no entanto, não
é a busca de um naturalismo essencial o que está em jogo. Serra trabalha de
forma dedicada sobre uma idéia de cena de um lado – teatral mesmo, em certo
sentido; beckettiana como já havia apontado Ruy Gardnier no diário da Mostra – e de quadro e
montagem de outro – o cuidado extremo com a composição e com o momento do
corte. E, ao mesmo tempo, temos um meticuloso trabalho fotográfico, de luz,
sombra e penumbra, no qual ele parece interrogar a própria relação da película
com a materialidade do mundo, a própria idéia de registro fotográfico e da
possibilidade de forjar uma imagem a partir do real, já esquecida por no mínimo
100 anos de cinema e avanços tecnológicos. Vendo-o aqui, no meio do que há mais
novo na produção mundial, El Cant dels ocells me faz pensar que Serra,
ao remontar a esta “origem da origem” (da filmagem e da narrativa), talvez materialize
em imagem toda a problemática do tal cinema a-narrativo contemporâneo... Me
pergunto apenas quais os desdobramentos possíveis de sua proposta e em que
medida seu cinema corre o risco da imutabilidade filme após filme. Isto, no
entanto, não tira em nada a graça de tudo o que se passa enquanto acompanhamos seus
três reis magos – que, assim como seus Dom Quixote e Sancho Pança, são personagens
transmutados para um universo de codificação absolutamente original – em busca
de Jesus, vivendo num tempo fora-do-tempo, no qual um mistério transcendental
impregna o ar.
Tatiana Monassa
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