61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

Liverpool, Lisandro Alonso, Argentina/França/Holanda/Espanha/Alemanha, 2008
(QUINZAINE DES RÉALISATEURS)
El Cant dels occels, Albert Serra, Espanha, 2008
(QUINZAINE DES RÉALISATEURS)


Depois de alguns dias mergulhados num festival, começamos a ficar com a percepção um pouco alterada. A rotina não inclui apenas ver muitos filmes num espaço curto de tempo e responder rapidamente a eles, mas dormir insuficientemente e ingerir muita cafeína. E aqui em Cannes isto é multiplicado por dez, por conta principalmente da distribuição das sessões ao longo do dia. Nesse outro estado perceptivo, não raro nos tornamos capazes de enxergar coisas que talvez não enxergássemos usualmente e ficamos com o olhar mais ágil e mais apto a estabelecer relações e identificar tendências. Mas o cansaço e a correria acabam nos impedindo de aplicar o rigor de pensamento que gostaríamos. Até que acontece o inevitável: obsessões começam a assombrar os textos.

Já comecei a temer a repetição de idéias. Talvez as reflexões que venho tecendo entre filmes se provem irrelevantes ou inapropriadas após algum tempo... Mas é fato que aqui o fator curadoria é muito presente e as diferentes seleções, por formarem corpos fechados de filmes, instigam o tempo todo a criação de “paralelas e transversais”. Bom, eis que não consigo evitar retomar a discussão sobre a a-narratividade e o “novo”.

Lisandro Alonso, um dos mais promissores talentos do cinema contemporâneo revelados recentemente, está com seu mais novo longa, Liverpool, na Quinzena dos Realizadores. Incensado como cavaleiro solitário pela sua radicalidade, ele é recebido como um artista raro, que brilha para poucos. Mas o que nos traz exatamente Liverpool? Um fiapo de roteiro sustentado por planos longuíssimos que captam ações mínimas e sem significação, expostos ao tempo para contemplar tão somente uma existência ordinária e fazer emergir disso uma emoção da imanência. Não há muito a ser contado, e por isso o roteiro é substituído pela observação. O objetivo parece não apenas propor um outro cinema (que já estaria um tanto defasado como proposta alternativa ao “modelo dominante”), mas desarticular o próprio cinema; só que sem realmente propor outra articulação qualquer. Me senti tomada o tempo todo pela indagação: o que as imagens transmitem, o que elas nos dizem e nos fazem pensar e sentir?, sem realmente ter uma resposta. O que posso dizer com certeza, no entanto, é que o seu trabalho está a milhas de distância do de um Nuri Bilge Ceylan, cujo cinema já desqualifiquei aqui. Pois nele existe uma proposta de questionamento enfático da narrativa, e não apenas um embaçamento aparente desta por elipses e afins. Talvez Alonso mereça uma investigação mais detida, longe das condições festivalescas, para poder medir até que ponto ele imerge na gratuidade da forma e na irrelevância.

Continuando um pouco na questão de filmar a inação, devo dizer o quanto a proposta de Albert Serra me parece não apenas absolutamente genuína como um tanto desafiadora. Seu primeiro filme, Honor de Cavalleria, visto na Mostra de São Paulo em 2006, já tinha aparecido pra mim como um óvni vindo de algum lugar desconhecido do passado. Seu segundo filme, El Cant dels ocels, em exibição aqui também na Quinzena dos Realizadores, dá continuidade ao seu projeto radical: filmar em longos planos fixos personagens “rudes” vagando numa paisagem selvagem. Nesta espécie de cinema primitivo – ou medieval, como gosto de dizer – o grande interesse parece ser uma natureza primordial do homem e do mundo, um estado pré-civilização no qual o tempo é o do vento e das árvores e o espaço encerra uma mística ancestral. E para captar esta essência seria necessário justamente impor uma inércia fundamental, à guisa de “fixador”: em sua errância, os personagens experimentam longos momentos de ócio, em que emitem os comentários mais aleatórios possíveis, e enfrentam dramáticas impossibilidades de decisão sobre o que fazer e que caminhos seguir.

Como bem apontou Olivier Père (diretor artístico da Quinzena) na apresentação do filme, o cinema de Serra parece algo como um pré-cinema. E eu diria mais: é como se sua câmera negasse a modernidade que a própria idéia do cinematógrafo encerra. Simultaneamente, no entanto, não é a busca de um naturalismo essencial o que está em jogo. Serra trabalha de forma dedicada sobre uma idéia de cena de um lado – teatral mesmo, em certo sentido; beckettiana como já havia apontado Ruy Gardnier no diário da Mostra – e de quadro e montagem de outro – o cuidado extremo com a composição e com o momento do corte. E, ao mesmo tempo, temos um meticuloso trabalho fotográfico, de luz, sombra e penumbra, no qual ele parece interrogar a própria relação da película com a materialidade do mundo, a própria idéia de registro fotográfico e da possibilidade de forjar uma imagem a partir do real, já esquecida por no mínimo 100 anos de cinema e avanços tecnológicos. Vendo-o aqui, no meio do que há mais novo na produção mundial, El Cant dels ocells me faz pensar que Serra, ao remontar a esta “origem da origem” (da filmagem e da narrativa), talvez materialize em imagem toda a problemática do tal cinema a-narrativo contemporâneo... Me pergunto apenas quais os desdobramentos possíveis de sua proposta e em que medida seu cinema corre o risco da imutabilidade filme após filme. Isto, no entanto, não tira em nada a graça de tudo o que se passa enquanto acompanhamos seus três reis magos – que, assim como seus Dom Quixote e Sancho Pança, são personagens transmutados para um universo de codificação absolutamente original – em busca de Jesus, vivendo num tempo fora-do-tempo, no qual um mistério transcendental impregna o ar.

Tatiana Monassa