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4. O lugar do roteiro:
Linha de Passe, Walter Salles e
Daniela Thomas, Brasil, 2008
(COMPETIÇÃO)
Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa,
Japão, 2008
(UM CERTAIN REGARD)
Como bem me apontou o amigo e
companheiro de Festival Eduardo Valente, falhei em esclarecer duas coisas nas
minhas elucubrações em torno de Leonera: o aspecto a-narrativo do filme
apenas dissimula um roteiro muito bem elaborado para não fazer-se perceber no
plano-a-plano; e a câmera cessa de estar colada à personagem precisamente no
momento em que a integridade da “família” quebra-se novamente (o menino é
levado para a avó para o exterior da prisão) e o domínio de Julia sobre a
história encontra um ponto de ruptura. Tanto um quanto o outro são fatores
importantes, porque tratam-se de peças vitais para a “condução” do espectador
pelo filme.
Bem ou mal, em todo esse
questionamento que estou propondo a partir destas ficções familiares vistas
aqui, esta “condução” do espectador é um ponto importante. Seja porque escolher
um formato narrativo é necessariamente pensar numa forma de levar seu
interlocutor através da história a ser contada, seja porque ela encerra a
problemática do roteiro – pedra de toque das vertentes mais proeminentes do
cinema contemporâneo, tanto pro lado do esquematismo, quanto pro da supressão.
E é justamente o jogo entre estas duas instâncias o que torna Leonera ainda mais interessante. (E que, no caminho oposto, desqualifica ainda mais Les
trois singes.)
Avançando na idéia, podemos chegar
em Linha de Passe. Walter Salles e Daniela Thomas criam uma espécie de
tabuleiro no qual os personagens avançam a partir de uma dada configuração que
lhes foi dada. Uma família na periferia de São Paulo: a mãe e quatro filhos de
pais diferentes – o filho mais velho que trabalha como motoboy e flerta com
pequenas contravenções, o filho convertido em evangélico, o filho adolescente
que sonha em ser jogador de futebol e o caçula complexado com sua pele negra e
obcecado com a idéia de encontrar seu pai. A figura paterna está, pois, totalmente
ausente do complexo familiar. E a mãe falha em ser uma força agregadora; cada
um dos filhos é um vetor em direção própria. O filme acompanha então cada um
desses personagens separadamente, reforçando seu paralelismo de percursos, que
têm como origem comum o lar materno.
A montagem paralela sublinha
incansavelmente a própria armação do tabuleiro e coloca em evidência o sentido
da conquista de um objetivo que viria tornar a vida destes personagens
“completa”. Cada um deles encarna, bem ou mal, um protótipo diferente num imaginário
popular sobre a camada social à qual pertencem. Atormentados por seus dilemas
pessoais, que urgem por uma solução, eles sabem que cabe somente a eles
próprios a delineação do seu futuro. Neste quadro, incomoda menos a conexão
perdida entre estes percursos jovens desesperançados e seu entorno social do
que a sensação constante que a montagem traz de que a cidade e a sociedade são um
mero pano de fundo que contém todas estas histórias que se conectam. O destino
parece uma força que se sobrepõe a tudo, aliviando qualquer possibilidade de
impacto das ações dos personagens em seu meio e provocando com isso o amortecimento
de suas escolhas e decisões. Para completar, os efeitos de suspensão criados,
seja com a câmera lenta, seja com a intervenção da trilha sonora, contribuem ainda
mais para esta retirada da História da jogada.
Mas eis que surpreendentemente toda
esta vacuidade que contamina o percurso dos personagens persiste até o final. O
esvaziamento que sentimos impregnar todos os acontecimentos em favor de um
depois que renderia a todos (a resolução de cada um dos dilemas individuais)
revela-se parte integrante de sua vida. De alguma forma, portanto, o final
rende sim o filme inteiro, mas num sentido um tanto diverso do usual. Após
ensaiar resoluções conclusivas para cada personagem, o paralelismo perdura e
afirma o ponto de chegada como uma incógnita absoluta. Isto faz de Linha de
Passe um filme um tanto descompensado, que traz algum interesse quando
justaposto ao restante da obra de Walter Salles, mas que não é capaz de sustentar
internamente os dramas e problemáticas propostos – que resvalam por demais para
o clichê desafetado. A grande curiosidade nisso tudo é que, dentro de cada
cena, Salles e Thomas conseguem atingir a força da aliança entre uma boa
performance de atores e uma boa mise en scène...
Atores, mise en scène,
roteiro: estes são também os pilares do cinema de Kiyoshi Kurosawa – embora
nada em seus filmes lembre os filmes de Walter Salles. Por que, então, a ponte?
Porque Kurosawa, assim como Shyamalan, é um cineasta-contraponto, cujo diálogo
com seus contemporâneos se dá pela chave da diferença, da radicalidade de uma
proposta aparentemente na contramão. Ambos buscam na concepção clássica do
quadro e no uso dedicado do fora de campo a força da ficção e resgatam o gênero
como laboratório capaz de abrigar visões personalíssimas de mundo.
Tokyo Sonata vinha sendo
anunciado como o filme de Kurosawa que marcaria seu primeiro grande afastamento do
terror e do universo do cinema fantástico. Mas e se a questão deste cineasta nunca
tenha sido uma filiação a um nicho, mas simplesmente o diálogo re-criativo com
a própria idéia de gênero? Bom, neste caso, Tokyo Sonata apenas estaria
dando continuação ao seu trabalho. O modelo clássico da família japonesa, com
seus problemas “tradicionais”, colocado no centro da narrativa; o “conto” de
Ozu, no entanto, substituído pela sonata: em movimentos, vemos a
decomposição progressiva das relações em pedaços de experiências desconexos. O roteiro simples, claro e transparente encontra nos deslocamentos da imagem a impossibilidade de uma narrativa clássica. O
campo-contracampo está fraturado; o espaço, totalmente geometrizado, rechaça
qualquer possibilidade de agregação e conforto; as ações-reações encadeiam-se em
completa desmesura.
De tudo que é típico num drama
familiar à japonesa, e de todo o clássico processo de crise e renovação coletivas, Kurosawa
tira uma sutil explosão do absurdo e da falta de parâmetros. Num primeiro
momento, reconhecemos bem o território narrativo, mas, aos poucos,
vamos nos surpreendendo mais e mais com os personagens e com as relações que têm
entre si. Quanto mais a imagem estiliza-se, mais cada um deles demonstra uma
faceta mais humana, um desejo ou uma agressão mais “verdadeiros” e menos
"cinematográficos". A partir de uma suposta “artificialidade” (em oposição ao naturalismo
de representação), Kurosawa faz um grande retrato da família contemporânea. De
dentro, nas lacunas, nas fantasias, nos espaços que ele sabe como ninguém preencher de
suspense e espanto. A não-inclusão de Tokyo Sonata na competição é
imperdoável.
Tatiana Monassa
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