61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

3. Üç Maymum (Les trois singes), de Nuri Bilge Ceylan, Turquia/França/Itália, 2008
(COMPETIÇÃO)

Assistir a Les trois singes causou-me uma reação absolutamente oposta à que tive aos filmes de Desplechin e Trapero. Como já sabíamos, Nuri Bilge Ceylan faz parte de um nada restrito corpo de diretores que dão à expressão “cinema de arte” o status de profissão. Tempos alongados, incomunicabilidade, elipses a torto e a direito, informações sempre ocultas numa narrativa contemplativa... A a-narratividade que citei ao falar de Leonera, aqui não chega nem a ser um modelo incorporado na construção do filme. Ela é apenas uma máscara usada com o intuito de sufocar a ação, enterrá-la abaixo da superfície, para que a imagem transpareça tão somente os impulsos dos personagens e toda a interioridade (invisível) que está na origem da ação. O resultado almejado é a criação de um desconforto: cada cena contém uma energia represada que a tensiona, mas que nunca chega a explodir de verdade.

A grande questão nisso tudo é que temos um filme que parte claramente de pressupostos psicológicos e que deseja encenar a violência, mas que foge a todo instante de buscar para eles uma representação consistente – assumindo que a forma do cinema clássico foi descartada desde o princípio – e encontra um refúgio seguro no silêncio e na desarticulação dos planos. Todos os conflitos vão pra baixo do tapete: a família nuclear está infectada pela invisibilidade e se alimenta de pequenas traições, mentiras e invejas. Junto com o desconforto almejado, vem o tédio: todas essas imagens excessivamente calculadas e bem arquitetadas testemunham de uma frieza impressionante, de uma inegável falta de alma. A criação de clima não se sustenta por muito tempo, embora aqui e ali bons planos de suspense se insinuem.

Me pergunto qual o interesse em tentar anular a todo custo tudo o que poderia relacionar-se com clichês de gênero, se está claro que a narrativa clássica é uma matriz que está sendo levada em conta. Os planos em que presenças desconhecidas se anunciam no apartamento e que paranóias parecem se materializar no espaço trazem a aura de suspense e de terror para o interior do filme e, junto com o argumento principal de história policial, poderiam levar Les trois singes a algum lugar mais instigante. Mas fixar-se obsessivamente na tal parábola dos três macacos e eliminar a fala, a audição e o olhar o máximo possível para disseminar a incomunicabilidade e a desarticulação (não só dos personagens como da própria linguagem do cinema), como se fazê-lo fosse por si só um grande trunfo, torna Ceylan mais um cineasta que porta a grife do cinema de arte sem trazer nada de realmente provocador.

Tatiana Monassa