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3. Üç Maymum (Les
trois singes), de Nuri Bilge Ceylan, Turquia/França/Itália, 2008
(COMPETIÇÃO)
Assistir a Les trois singes causou-me uma reação absolutamente oposta à que tive aos filmes de Desplechin e
Trapero. Como já sabíamos, Nuri Bilge Ceylan faz parte de um nada restrito
corpo de diretores que dão à expressão “cinema de arte” o status de
profissão. Tempos alongados, incomunicabilidade, elipses a torto e a direito,
informações sempre ocultas numa narrativa contemplativa... A a-narratividade
que citei ao falar de Leonera, aqui não chega nem a ser um modelo
incorporado na construção do filme. Ela é apenas uma máscara usada com o
intuito de sufocar a ação, enterrá-la abaixo da superfície, para que a imagem
transpareça tão somente os impulsos dos personagens e toda a interioridade
(invisível) que está na origem da ação. O resultado almejado é a criação de um
desconforto: cada cena contém uma energia represada que a tensiona, mas que
nunca chega a explodir de verdade.
A grande questão nisso tudo é que
temos um filme que parte claramente de pressupostos psicológicos e que deseja
encenar a violência, mas que foge a todo instante de buscar para eles uma
representação consistente – assumindo que a forma do cinema clássico foi
descartada desde o princípio – e encontra um refúgio seguro no silêncio e na
desarticulação dos planos. Todos os conflitos vão pra baixo do tapete: a família
nuclear está infectada pela invisibilidade e se alimenta de pequenas traições,
mentiras e invejas. Junto com o desconforto almejado, vem o tédio: todas essas
imagens excessivamente calculadas e bem arquitetadas testemunham de uma frieza
impressionante, de uma inegável falta de alma. A criação de clima não se
sustenta por muito tempo, embora aqui e ali bons planos de suspense se
insinuem.
Me pergunto qual o interesse em tentar
anular a todo custo tudo o que poderia relacionar-se com clichês de gênero, se
está claro que a narrativa clássica é uma matriz que está sendo levada em conta.
Os planos em que presenças desconhecidas se anunciam no apartamento e que
paranóias parecem se materializar no espaço trazem a aura de suspense e de terror
para o interior do filme e, junto com o argumento principal de história
policial, poderiam levar Les trois singes a algum lugar mais instigante.
Mas fixar-se obsessivamente na tal parábola dos três macacos e eliminar a fala,
a audição e o olhar o máximo possível para disseminar a incomunicabilidade e a
desarticulação (não só dos personagens como da própria linguagem do cinema), como
se fazê-lo fosse por si só um grande trunfo, torna Ceylan mais um cineasta que
porta a grife do cinema de arte sem trazer nada de realmente provocador.
Tatiana Monassa
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