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2.
Leonera, de Pablo Trapero, Argentina/Coréia do Sul/Brasil, 2008
(COMPETIÇÃO)
A
família de Pablo Trapero em Leonera não é como a de Desplechin em Un conte de Noël, ou como
a que ele próprio havia filmado em Familia Rodante. O afeto/desafeto é
uma incógnita e, do coletivo, subsiste apenas o sentido de agrupamento, quase
um instinto de preservação. Julia dividia um apartamento com Nahuel, e Ramiro era
um visitante eventual, talvez amante dos dois alternadamente. Quando chegamos
no filme, esta situação já está desfeita. Um embate violento se deu, Nahuel
está morto e Ramiro bastante ferido. A este esfacelamento primeiro de uma
comunidade que nem chegamos a conhecer, segue-se a descoberta progressiva de
uma outra comunidade, um tanto inusitada: na prisão, Julia é encaminhada para
um setor que abriga especificamente mulheres com filhos, que vivem num grande
ambiente familial bastante distante da imagem usual de uma cadeia.
Trapero
acompanha dedicadamente o cotidiano de sua personagem, sem construir uma linha
condutora que se sobreponha às imagens, fazendo o filme acontecer junto com o desdobrar
de cada cena. Estamos sempre colados à percepção de Julia das coisas momento a
momento. No espaço do confinamento imposto, nada de laboratório: a vida
naturalmente se adapta como pode e cresce nas brechas, se embrenhando como pode
pelas poucas aberturas. É assim que vemos as detentas criarem seus filhos ou
formarem casais entre si. Leonera é um filme que foge de todas as marcas
dramáticas mais enfáticas, que busca a sobriedade do naturalismo e constrói sua
narrativa na observação de gestos. De certa forma, podemos ver
nisso a mera re-edição de um modelo (a)narrativo caro ao cinema contemporâneo, do
qual Trapero tornou-se, sem dúvida, um dos grandes expoentes. Mas este filme traz uma
força maior do que todos os filmes anteriores do diretor e uma potência que nos interpela com intensidade surpreendente, nos obrigando
a interrogá-lo um pouco além.
A
violência e o conflito, que costumam aparecer ocultos ou dissimulados nos
interstícios da não-ação, aqui encontram-se na própria origem da narrativa e
envolvem fundamentalmente a relação da personagem com o mundo. Nunca vemos as
cenas prototípicas da violência e do conflito cinematográficos (embora elas percorram o
filme todo como um fantasma), e nem mesmo as informações factuais do que se deu estão
disponíveis. Mas os vemos disseminados em todos os
lugares, manifestos em ações um pouco deslocadas das habituais. E, ao mesmo
tempo, o peso do mundo é sublimado em favor de um olhar atento justamente às “aberturas”
existentes em meio a uma sucessão de tragédias pessoais. O olhar um quê
inocente que o filme parece aqui e ali encarnar, como as seqüências iniciais
e finais com a cantiga infantil sublinham, transporta-a para um lugar diferente dos
outros filmes a ele aparentados.
Como
em Un conte de Noël, o aspecto de “historinha pra crianças” reveste
de certa leveza de espírito uma história triste e pesada, sendo capaz de criar um
universo mais doce e mais mágico, mas sem ignorar o real perigo presente
no mundo – originado precisamente nas ações imprevisíveis dos homens. Seria essa
uma resposta a esta forte tendência do cinema contemporâneo que preza por
demais a imanência, originando por fim filmes “inócuos” – como nosso Luiz
Carlos Oliveira Jr. levanta em seu texto na seção de artigos desta edição? Ou uma resposta à vertente miserabilista que encontra na tragédia outro pouso
confortável para contemplar tudo aquilo que é complexo demais para ser
transmitido numa imagem achatada? Seja como for, Desplechin e Trapero provam
serem cineastas em movimento, cujas obras em renovação não
cessam de interrogar a si mesmas e a seus contemporâneos.
Tatiana Monassa
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