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Uma das coisas mais sensacionais de
um Festival como o de Cannes é estar dia após dia frente a uma agenda repleta
de filmes de cineastas importantes, cujas carreiras são decisivas para qualquer
mapeamento mínimo do cinema contemporâneo. Não há muito tempo livre para as apostas
no escuro, para apostar em algumas obscuridades que a programação da Semana da
Crítica, por exemplo, se orgulha de trazer à tona. Têm-se sempre a impressão,
mesmo que freqüentemente equivocada, de que o festival reune a nata do que está
sendo feito no mundo. Mas a verdade é muitas vezes o que temos por trás de
grandes nomes, ou de nomes ainda em ascensão, é um cinema tacanho ou
repetitivo. Um cinema mediano, que não traz nada de interessante
Se todo diretor aqui é apresentado
como tendo um “nome”, como um autor, mesmo se em estágio de formação – o que
faz de Cannes o maior promotor de talentos e lançador de tendências no mundo
dos festivais –, é mais por conta de uma proposta conceitual da organização do
que por uma consistência real das propostas artísticas selecionadas
para apresentação. Sim, para todo o brilho de um artista genial,
necessariamente têm-se um mar de artesãos medianos ou mesmo medíocres. Isso
sabemos desde sempre. Mas o que me soa em alguma medida como uma novidade é a constatação in loco de que muito, mas muito mais freqüentemente do que pensamos, o
lugar-comum é incensado como novidade, a mediocridade como brilhantismo, a
repetição desgastada de idéias e formas como renovação. Se o “novo” costuma
ser a mais alta medida de valor da arte, até nos “mercados” menos
nobres, olhares apurados para identificá-lo são realmente raros. Mas isto não
deve nos deixar conformados e impedir que sigamos exigindo muito dos cineastas. Afinal o
trabalho da crítica é confrontar o trabalho de arte com a sua própria existência e
relevância, sempre.
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Há algum tempo, nosso companheiro
Alexandre Werneck levantou a questão de que uma nova ficção familiar estaria se
manifestando no cinema e que talvez devêssemos investigá-la. Recorrências do
tema da família disfuncional à parte, pode ser que este “movimento” seja mesmo
verificável. Diversos exibidos por aqui nos últimos dias colocam a família em
cena, seja de uma forma mais direta, seja indiretamente: Leonera, de
Pablo Trapero, Les Trois Singes, de Nuri Bilge Ceylan, Un conte de
Noël, de Arnaud Desplechin, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, Les
7 Jours, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. Bom, é certo que a família,
nuclear ou não, é um dos pilares da tradição ficcional cinematográfica desde
Griffith, e que não há nada mais natural que, com o passar do tempo, esta ficção
vá se modificando para acompanhar as mudanças da sociedade. O que precisamos
nos perguntar é: dentro do “gênero”, que contribuições os cineastas de hoje
trazem ou não para o cinema, para além uma mera mudança de foco ou conteúdo?
1. Un conte de Noël, Arnaud Desplechin, França, 2008
(COMPETIÇÃO)
Ao terminar de assistir a Un conte
de Noël, estava certa de que Desplechin é um cineasta decisivo pro cinema
contemporâneo pela forma como põe a família em cena. Não apenas a família no
sentido de agrupamento familiar, mas a própria idéia de família e seu papel na
conformação dos indivíduos – e, portanto, na tessitura do corpo social. Un conte
de Noël parece herdeiro direto de L’Aimée, seu último filme, por
levar ainda mais longe a estrutura “investigativa” e o modelo de uma
família-galáxia, girando em torno de uma figura magnetizante que dita em maior
ou menor grau a existência de todas as outras. As relações interpessoais saem
do âmbito dualista e são disseminadas pelo complexo formado pela árvore
genealógica. Neste processo, a própria idéia de que o sangue (a vida) determina
ligações inexoráveis entre os seres torna-se central. Como em seus filmes
anteriores, a medicina (ou uma certa “mística” em torno do funcionamento vital),
aparece novamente como o outro dos afetos e desafetos e de todos os
comportamentos humanos, a sombra que interroga nossa configuração psicológica e
todas as abstrações em cima das quais nos concebemos como seres vivos.
No entanto, o que faz de Un conte
de Noël um filme excepcional é justamente a forma empregada por Desplechin
para elaborar seu universo e construir sua narrativa. O aspecto de conto para
crianças, de enunciação fabulesca, tira o drama do seu lugar de direito; do lugar
de peso que determinaria o vir-a-ser da vida dos personagens. Os fatos centrais
da história a ser contada são realçados, assim como o traço no desenho dá
contorno à figura. Mas como o esquematismo é a antítese do seu cinema, esta proposição
serve apenas de orientação e nunca torna-se de fato uma estrutura. Assim sendo,
o teatro de sombras no início, o uso das íris, as narrações confessionais para
a câmera, são todas formas que contribuem para criar o gostinho de conto do
título, enquanto todo o resto segue fugindo à organização e criando a sensação
de caos. Pensamentos e sentimentos multiplicam-se, alastrando-se por um território
irrestrito e indefinido; os traumas e motivações estão lá, como se para nos
lembrarem justamente da origem do Drama, mas a linha já mal existe para que os
pontos possam ser ligados satisfatoriamente. O que resulta na cena como
célula fundamental da elaboração do filme; mas uma cena pervertida, histérica,
na qual a aceleração dos corpos anula desde sempre a possibilidade da marcação
e cuja unidade é esfacelada por planos de enquadramento precário, provisório,
incompleto. A notar, em meio à complexidade de toda esta elaboração, o papel
decisivo da fotografia e dos atores. Eric Gautier faz um belíssimo trabalho de
imagem, capaz de sintetizar a aceleração abstrata que Desplechin deseja
representar, e o elenco escalado compete em presença e força de expressão. Em
especial Mathieu Amalric, que, numa espécie de continuação do seu trabalho em Reis
e Rainha, encarna à perfeição o descontrole e a explosão de um mundo de
coisas sem nome que encontram seu suporte no corpo. Ao fim, é como se Desplechin
estivesse genuinamente reinventando o cinema, ao torná-lo mais intensamente
pessoal e, simultaneamente, atualizar uma tradição ficcional à luz de
concepções modernas.
Tatiana Monassa
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