61º FESTIVAL DE CANNES
Cobertura Diária

Uma das coisas mais sensacionais de um Festival como o de Cannes é estar dia após dia frente a uma agenda repleta de filmes de cineastas importantes, cujas carreiras são decisivas para qualquer mapeamento mínimo do cinema contemporâneo. Não há muito tempo livre para as apostas no escuro, para apostar em algumas obscuridades que a programação da Semana da Crítica, por exemplo, se orgulha de trazer à tona. Têm-se sempre a impressão, mesmo que freqüentemente equivocada, de que o festival reune a nata do que está sendo feito no mundo. Mas a verdade é muitas vezes o que temos por trás de grandes nomes, ou de nomes ainda em ascensão, é um cinema tacanho ou repetitivo. Um cinema mediano, que não traz nada de interessante

Se todo diretor aqui é apresentado como tendo um “nome”, como um autor, mesmo se em estágio de formação – o que faz de Cannes o maior promotor de talentos e lançador de tendências no mundo dos festivais –, é mais por conta de uma proposta conceitual da organização do que por uma consistência real das propostas artísticas selecionadas para apresentação. Sim, para todo o brilho de um artista genial, necessariamente têm-se um mar de artesãos medianos ou mesmo medíocres. Isso sabemos desde sempre. Mas o que me soa em alguma medida como uma novidade é a constatação in loco de que muito, mas muito mais freqüentemente do que pensamos, o lugar-comum é incensado como novidade, a mediocridade como brilhantismo, a repetição desgastada de idéias e formas como renovação. Se o “novo” costuma ser a mais alta medida de valor da arte, até nos “mercados” menos nobres, olhares apurados para identificá-lo são realmente raros. Mas isto não deve nos deixar conformados e impedir que sigamos exigindo muito dos cineastas. Afinal o trabalho da crítica é confrontar o trabalho de arte com a sua própria existência e relevância, sempre.

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Há algum tempo, nosso companheiro Alexandre Werneck levantou a questão de que uma nova ficção familiar estaria se manifestando no cinema e que talvez devêssemos investigá-la. Recorrências do tema da família disfuncional à parte, pode ser que este “movimento” seja mesmo verificável. Diversos exibidos por aqui nos últimos dias colocam a família em cena, seja de uma forma mais direta, seja indiretamente: Leonera, de Pablo Trapero, Les Trois Singes, de Nuri Bilge Ceylan, Un conte de Noël, de Arnaud Desplechin, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, Les 7 Jours, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. Bom, é certo que a família, nuclear ou não, é um dos pilares da tradição ficcional cinematográfica desde Griffith, e que não há nada mais natural que, com o passar do tempo, esta ficção vá se modificando para acompanhar as mudanças da sociedade. O que precisamos nos perguntar é: dentro do “gênero”, que contribuições os cineastas de hoje trazem ou não para o cinema, para além uma mera mudança de foco ou conteúdo?

1. Un conte de Noël, Arnaud Desplechin, França, 2008
(COMPETIÇÃO)


Ao terminar de assistir a Un conte de Noël, estava certa de que Desplechin é um cineasta decisivo pro cinema contemporâneo pela forma como põe a família em cena. Não apenas a família no sentido de agrupamento familiar, mas a própria idéia de família e seu papel na conformação dos indivíduos – e, portanto, na tessitura do corpo social. Un conte de Noël parece herdeiro direto de L’Aimée, seu último filme, por levar ainda mais longe a estrutura “investigativa” e o modelo de uma família-galáxia, girando em torno de uma figura magnetizante que dita em maior ou menor grau a existência de todas as outras. As relações interpessoais saem do âmbito dualista e são disseminadas pelo complexo formado pela árvore genealógica. Neste processo, a própria idéia de que o sangue (a vida) determina ligações inexoráveis entre os seres torna-se central. Como em seus filmes anteriores, a medicina (ou uma certa “mística” em torno do funcionamento vital), aparece novamente como o outro dos afetos e desafetos e de todos os comportamentos humanos, a sombra que interroga nossa configuração psicológica e todas as abstrações em cima das quais nos concebemos como seres vivos.

No entanto, o que faz de Un conte de Noël um filme excepcional é justamente a forma empregada por Desplechin para elaborar seu universo e construir sua narrativa. O aspecto de conto para crianças, de enunciação fabulesca, tira o drama do seu lugar de direito; do lugar de peso que determinaria o vir-a-ser da vida dos personagens. Os fatos centrais da história a ser contada são realçados, assim como o traço no desenho dá contorno à figura. Mas como o esquematismo é a antítese do seu cinema, esta proposição serve apenas de orientação e nunca torna-se de fato uma estrutura. Assim sendo, o teatro de sombras no início, o uso das íris, as narrações confessionais para a câmera, são todas formas que contribuem para criar o gostinho de conto do título, enquanto todo o resto segue fugindo à organização e criando a sensação de caos. Pensamentos e sentimentos multiplicam-se, alastrando-se por um território irrestrito e indefinido; os traumas e motivações estão lá, como se para nos lembrarem justamente da origem do Drama, mas a linha já mal existe para que os pontos possam ser ligados satisfatoriamente. O que resulta na cena como célula fundamental da elaboração do filme; mas uma cena pervertida, histérica, na qual a aceleração dos corpos anula desde sempre a possibilidade da marcação e cuja unidade é esfacelada por planos de enquadramento precário, provisório, incompleto. A notar, em meio à complexidade de toda esta elaboração, o papel decisivo da fotografia e dos atores. Eric Gautier faz um belíssimo trabalho de imagem, capaz de sintetizar a aceleração abstrata que Desplechin deseja representar, e o elenco escalado compete em presença e força de expressão. Em especial Mathieu Amalric, que, numa espécie de continuação do seu trabalho em Reis e Rainha, encarna à perfeição o descontrole e a explosão de um mundo de coisas sem nome que encontram seu suporte no corpo. Ao fim, é como se Desplechin estivesse genuinamente reinventando o cinema, ao torná-lo mais intensamente pessoal e, simultaneamente, atualizar uma tradição ficcional à luz de concepções modernas.

Tatiana Monassa