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Blindness, Fernando Meirelles, Brasil/Canada/Japão, 2008
(FILME DE ABERTURA)
Waltz With Bashir, Ari Folman,
Israel/França/Alemanha, 2008
(COMPETIÇÃO)
Embora a chegada a um festival de cinema
seja sempre coberta de expectativas, ansiedades e uma grande empolgação pelo
que irá se passar nas telas e fora delas nos dias a seguir, meus primeiros
momentos dentro do Palais des Festivals não tiveram nenhuma força especial. Se
credenciar, ir até a sala de imprensa, circular um pouco; atividades comuns a
todos os festivais. O real sentido de estar em Cannes só ocorreu-me a caminho
da primeira sessão do primeiro dia: a partir dali eu estaria conectada ao que
de mais importante está acontecendo no mundo do cinema nos próximos quinze dias.
Estaria nas primeiras platéias a receber este ou aquele filme no mundo. E isto
encerra, de fato, um grande sentido de événement: ver um filme nascer
pela projeção pública.
Ora, neste sentido, Blindness não poderia ser mais apropriado para ser o
filme de abertura. Todo o projeto de adaptar o “livro inadaptável” de Saramago já
se anuncia como um acontecimento; a velha história da glória que residiria em encarar
o desafio de transformar num produto cinematográfico o fruto de outra
área de criação. Nestas empreitadas, tudo o que é específico de uma
expressividade – como, no caso, os personagens “indefinidos”, sem nome e sem
história, ou a pura narração abstrata – torna-se obstáculo a ser suplantado.
Pois bem, Meirelles, como bom maneirista “inventivo” que é, assume a “missão”,
com a promessa de realizar um trabalho surpreendente e inovador. Mas eis que em
meio ao contorcionismo exibicionista das imagens para transmitir o clima da
obra original, o que vemos é uma mais uma narrativa hollywoodinesca rasa se desenrolando
na tela.
No início, Blindness chega a flertar
com as “ficções de contaminação” recentes – como Filhos da Esperança ou Eu
Sou a Lenda –, o que poderia trazer-lhe uma instigante camada de diálogo
com este ambiente cinematográfico que se alimenta das paranóias, medos e
imaginários surgidos no pós-11 de setembro. Mas Meirelles parece querer fugir
deliberadamente de qualquer roupagem de gênero, preferindo investir numa
estilização performática que visa, por fim, veicular grandes revelações sobre a
natureza do homem. É patente o esforço concentrado para transmitir o processo
que afeta os personagens não apenas buscando emular seu ponto de vista
alterado, mas tomando-o como base para a elaboração da imagem. Grandes e
súbitas áreas brancas invadem o quadro, partes do cenário por vezes obstruem
qualquer visibilidade através de desenquadramentos, e jogos de foco/desfoque
criam “geografias” plásticas inusitadas nas composições de plano. Esta
estratégia, que rende alguns resultados estéticos interessantes, não esconde,
no entanto, a real questão de ordem visual que sustenta o filme: a problematização
da visão configura menos uma questão formal do que um pressuposto discursivo.
De acordo com os princípios mais básicos
de psicologia social, a partir dos quais o cinema americano construiu uma vasta
tradição, é o olhar – e, portanto, a capacidade de ver – a instância
moralizante da sociedade. Uma vez que os vetores da narrativa de Blindness – os personagens, que existem como tal ainda que não tenham “nome e história” –
são privados de ver, a civilidade entra em colapso. Os instintos mais básicos
são liberados e o homem permite-se assumir um comportamento bestial. Junto com
os olhos dos outros, vão-se embora os olhos de Deus (a instância “castradora”
do catolicismo). A cena com os santos de olhos vendados não poderia ser mais
explícita em sua metáfora! O que temos é um filme altamente moralizante, cujo
desdobramento de ações, ainda que não siga ao pé da letra a estrutura clássica
de atos e turning points, almeja transmitir uma lição a quem assiste.
Curiosamente, Waltz With Bashir,
o outro filme exibido no primeiro dia, trouxe um contraponto um tanto instigante
ao filme de Meirelles. Para Folman, a visão do mundo, tal como a concebemos no
seu sentido mais corrente, o da percepção “realista”, encontra-se já de início substituída
por uma abstração, o desenho. Para lidar com a tal “natureza do homem”, este
documentário animado propõe uma interrogação da memória e das imagens que nos servem
de mediadoras entre nós e o mundo. Ao invés do que podemos ou não captar em
nosso entorno imediato pelo olhar, a realidade advém como uma confecção mental,
mais ou menos “verdadeira” em relação aos fatos de acordo com a subjetividade
em questão. Ao mesmo tempo em que se propõe a investigar os impulsos mais
obscuros do homem, Folman busca ainda, através do grafismo ilustrativo, interrogar
a produção material de imagens sobre o horror. Porque o registro implica
inexoravelmente um ponto de vista e a honestidade estaria em reconhecê-lo e
assumi-lo sempre que a dignidade humana estiver em jogo. Por isso a proposição
de “escavar” a História a partir de cenas de sonhos, nos colocando face-a-face
com a arquitetura argumentativa que forjamos para justificar nossas ações no
meio social, seja em maior ou menor grau.
Colocando-se diretamente no filme como
personagem principal e fazendo da narrativa um cine-diário de uma jornada
particular, Folman cria um estado de perplexidade no qual a violência de quem
perpetra uma atrocidade é espelhada no olhar de quem a presencia. Desta forma,
ele parece se interrogar a todo instante: o que é assistir? De que forma
assistimos imagens do horror, seja numa ficção cinematográfica, seja num
documentário/reportagem? E até que ponto nos colocamos como espectadores de
nossas próprias experiências, aliviando nossa responsabilidade quanto aos
nossos atos, ou mesmo quanto à nossa simples existência/colocação num
determinado meio? Neste sentido, o enfoque privilegiado de sentimentos humanos
os mais cotidianos, em detrimento de grandes articulações político-discursivas,
reforça a necessidade de um questionamento em pura continuidade sobre a guerra,
que persista buscando as dobras dos gestos e da memória como forma de afrontar
esta “natureza humana” que vai contra o que há de mais natural, a simples
existência de um ser vivo.
Tatiana Monassa
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