| O
GRÃO,
de Petrus Cariry
O início de O Grão parece ser a continuação
exasperada do desfecho do último curta-metragem de
Petrus Cariry, Dos Restos
e das Solidões, de 2006. Lá, o diretor realizara um documentário sobre a
cidade abandonada de Cococi, no sertão cearense e, ainda que o filme insistisse
no caráter fantasmagórico do lugar a partir de uma série de planos vazios, retratos
da falência evidente da cidade, o final do curta apresentava um grupo de quatro
tropeiros montados a cavalo que, no meio da sucessão de imagens fixas, emprestavam
ao filme o movimento frenético e desmedido da câmera na mão,
num delírio explosivo pelo meio da mata que negava todo o clima de abandono anterior,
apostando não mais no suspense da assombração, mas no horror latente, manifestado.
O som daqueles tropeiros aparece em O Grão transformado num
barulho estranhíssimo, mistura de motor de carro com turbina de avião em decolagem,
que ouvimos à medida que um veículo avança em alta velocidade pela
estrada – um veículo que não sabemos qual é, e cuja contextualização só se dará no
fim do filme, quando descobrirmos se tratar da ambulância que vai até a casa
da família protagonista recolher o corpo da velha avó, que acaba de morrer.
E não é questão aqui de estragar a "surpresa" do final de O
Grão, uma vez que esta morte é uma certeza desde o primeiro momento em que
vemos a personagem em cena. Na verdade, é de sua presença moribunda que Cariry
retira boa parte do espírito de que quer impregnar o filme. O grande mote
dramático de O Grão está na fábula que a avó conta a seu neto sobre um
lugar distante onde reis e rainhas precisavam lidar com questões relacionadas à morte
e a incapacidade de sobrevida. É a lição de onde o título do filme é pescado:
o "grão da verdade" seria justamente a consciência da inevitabilidade
da
morte.
Dessa forma, estaremos presentes num ambiente já bastante conhecido e dominado
pelo cinema brasileiro (sertão, uma família pobre que mal consegue viver do emprego
do chefe da família, cheia de ressentimentos mudos, tramas subterrâneas sobre
as quais aparecerão personagens em que a miséria é aparente), e mesmo diante
de um modo muito específico de lidar com este ambiente, sempre na chave
da rarefação dos sentimentos, dos silêncios, nas belas imagens tiradas mesmo
de
onde só haja a pobreza permanente, incontornável. Mas o interesse de Petrus Cariry
não é exatamente a imersão histórica, e sim a criação de um universo fabular
que duplique esta crueza a partir da construção mais anunciada, do
efeito estético aplicado a posteriori, da suspensão fantasmática de um sentimento
de tragédia sobre toda a vida que se puser diante da câmera.
Numa seqüência, a câmera se coloca num corredor da casa e todos
os personagens que estão em quadro vão saindo um a um,
até que sobre só o espaço vazio, a porta aberta no fundo, o sol entrando pela
fresta. De repente, será inserido um som de sopro do vento, ruído tão reconhecido
como pertencente a um certo tipo de cinema de gênero, anúncio do perigo, do medo,
da desgraça iminente, e esse ruído atribui um sentido completamente diverso a
uma situação cênica que, aparentemente, está preenchida
apenas de "mundo real", acontecendo mesmo quando não há ninguém a se
filmar.
O
tempo morto, em certa medida, é negado em O Grão justamente porque o filme
sabe que algo está sempre em curso na imagem, mesmo que a câmera não consiga
captar a manifestação visível disso. E este efeito se dá até quando nenhum
truque de pós-produção é adicionado: há uma utilização bastante interessante
da presença da televisão no ambiente familiar, preenchendo o silêncio
obrigatório daqueles personagens áridos com o som estridente da dublagem de alguma
série de televisão americana, e a cada momento que uma risada de fundo surge
do programa, é como se houvesse, de fato, uma segunda dimensão sendo experimentada
no interior da narrativa.
A grande investida de O Grão nesse plano imaterial da vida, no entanto,
diz
respeito
a uma questão simples de quebras e inversões de eixo. É admirável o trabalho
de decupagem dentro da cena que Cariry e seu fotógrafo Ivo
Lopes Araújo realizam (e que lembra, como ressaltou Sérgio Alpendre, algo dos
filmes de Pedro Costa). Uma seqüência aparentemente simples, com a avô de frente
para o neto, ambos sentados na cama enquanto ela conta mais uma parte da
fábula milenar, vai revelando uma riqueza espacial e de pontos-de-vista
que dificilmente notaríamos ali não fosse esse esforço consciente (e radical,
em certa medida) que o filme faz para nos mostrar, "com
provas", que há de fato um mundo dobrado sobre o outro ali em cena.
Se uma
dinâmica simples de campo e contracampo não nos entrega apenas as duas maneiras
mais óbvias de se filmar os rostos da avó e do menino, mas sim quatro delas, às
vezes seis, por ângulos que a gramática cinematográfica considera "errados" justo
porque desestabilizam a noção de espaço que o espectador precisa ter da cena, é exatamente
aí que O Grão deve existir. E é por admitir o erro não como um problema
a ser resolvido, mas como a única maneira de provocar essa
inconveniente presença de um espírito de estranheza, que sempre que
Cariry
decide fabular por conta própria, não através da história da avó, mas no trato
com as tramas daquela família, O Grão parece amarrado a obrigações que
até ali o filme parecia ter abandonado. Nem toda a secura de uma situação consegue
ignorar a necessidade de fazer a narrativa andar, e diversos serão os momentos
em que a dramaturgia do filme é constrangida a um punhado de informações repassadas
sem muito tato pelos atores. É diferente, por exemplo, do que
acontece em Juventude em Marcha: se na influência assumida pelo filme,
uma carta de amor ditada por Ventura não nos encerrava numa trama, mas implodia
a possibilidade dela, aqui uma conversa entre mãe e filha só serve para sublinhar
aquilo que, na esteira das imagens e sons, não é nem sentimento latente, nem
artifício narrativo, mas uma espécie de processamento de dados a que O Grão se
vê atado.
Mas no fim anuncia-se um novo ciclo, um recomeço, uma
esperança. E nesse novo tempo, talvez, Petrus Cariry consiga se desprender dos últimos
(e poucos) traços que o separam de realizar um grande filme. O Grão não
está lá muito longe disso.
Rodrigo
de Oliveira
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