| Ô,
DE CASA!,
de Clarisse Alvarenga
Do Vale do Jequitinhonha à periferia de Belo Horizonte,
a
recorrência de uma mesma prática infantil: a construção de casinhas e cabanas
onde se brinca de ser adulto, todas funcionando com regras muito próprias e bastante
claras, num jogo de reflexo entre este mundo de fantasia que é, ao mesmo tempo,
duramente sustentado por um traço da realidade. Ô, De Casa! tem uma tese
sociológica por trás de cada imagem aparentemente ingênua e carinhosa com o ambiente
infantil e as crianças que se colocam de maneira
sempre tão disponível à câmera de vídeo que invade seu espaço lúdico. A vida
adulta aparece como sombra, porque há uma inicial negação da imagem de pessoas
mais velhas, e o peso da maturidade (e alguma reflexão, ainda que rude e desarticulada)
aparece em depoimentos em off de pessoas que já participaram daquele
mesmo tipo de brincadeira na infância e hoje se relacionam com esta
memória de maneiras diversas – algumas dizem que é uma brincadeira boa para ensinar
ao menino, desde cedo, a se virar no ambiente doméstico (faz parte do jogo cozinhar
em fogões improvisados), outras relembram amores de criança nascidos naquelas
casinhas e que acabaram se tornando casamentos posteriormente. Costurando tudo
isso, uma série de planos incrivelmente
previsíveis desse novo gênero involuntário do cinema brasileiro chamado "documentário
mineiro", filmados em Super-8 e mostrando sempre o mais corriqueiro objeto dos
ambientes que o filme visita como se grandes símbolos
reveladores do espírito do lugar fossem. Uma casinha sendo construída pelas
crianças a partir de rudimentares tijolos feitos de lama e uma imagem granulada
e "linda" de uma velha casa de pau-a-pique posta logo a seguir.
Nada muda,
as casinhas seguem sendo precárias mesmo na vida adulta: a imagem do óbvio,
muito óbvio.
A impressão é que todo esse manancial de "importância" do tema (que
envolve
ainda
algumas considerações sobre o trabalho infantil na cultura interiorana, o despertar
da libido entre crianças do mesmo sexo, entre outras coisas), percebidos por
uma
câmera inconsciente de sua postura quase
etnográfica, fazem Clarisse Alvarenga perder de vista um mundo de grandes e
interessantíssimas narrativas que estas mesmas crianças estão a todo tempo oferecendo
ao filme. O momento certamente mais feliz é a longa seqüência que mostra um grupo
de crianças indígenas criando uma verdadeira comunidade, com
suas funções específicas a cada cidadão componente, sua própria política e economia,
sua cultura local. Por um momento, chegamos a pensar que talvez se
trate da versão de documental O Senhor das Moscas, ou talvez mais que
isso: montando suas cabanas com folhas de bananeira cortadas a facão (golpes
violentos na madeira, dados por um moleque de pouco mais de 10 anos de idade),
indo caçar o alimento da pequena tribo com um arco e flecha ("um pombo ou
uma
onça", diz o menino para a câmera, e ele realmente acredita que caçaria
uma),
e
tendo do filme o mínimo de intervenção, Ô, De Casa! parece estar mostrando,
em primeira mão, um microcosmo social onde não só o mundo da criança assumiu
o adulto, como este último foi verdadeiramente extinto, sobrevive como
herança (nos gestos, na maneira de viver), mas não mais como presença (nem
física, nem em voz off). Passa rápido, e é preciso alguma dose de disposição
naïf
para embarcar naquele pequeno universo de meninos e meninas indígenas, mas uma
vez lá dentro, podemos perceber que tantos outros universos igualmente encantadores
o filme não deixou escapar enquanto preparava mais um plano "maravilhoso" de
algum pote de barro qualquer.
Rodrigo
de Oliveira
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