11ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
Cobertura diária

Ô, DE CASA!, de Clarisse Alvarenga

Do Vale do Jequitinhonha à periferia de Belo Horizonte, a recorrência de uma mesma prática infantil: a construção de casinhas e cabanas onde se brinca de ser adulto, todas funcionando com regras muito próprias e bastante claras, num jogo de reflexo entre este mundo de fantasia que é, ao mesmo tempo, duramente sustentado por um traço da realidade. Ô, De Casa! tem uma tese sociológica por trás de cada imagem aparentemente ingênua e carinhosa com o ambiente infantil e as crianças que se colocam de maneira sempre tão disponível à câmera de vídeo que invade seu espaço lúdico. A vida adulta aparece como sombra, porque há uma inicial negação da imagem de pessoas mais velhas, e o peso da maturidade (e alguma reflexão, ainda que rude e desarticulada) aparece em depoimentos em off de pessoas que já participaram daquele mesmo tipo de brincadeira na infância e hoje se relacionam com esta memória de maneiras diversas – algumas dizem que é uma brincadeira boa para ensinar ao menino, desde cedo, a se virar no ambiente doméstico (faz parte do jogo cozinhar em fogões improvisados), outras relembram amores de criança nascidos naquelas casinhas e que acabaram se tornando casamentos posteriormente. Costurando tudo isso, uma série de planos incrivelmente previsíveis desse novo gênero involuntário do cinema brasileiro chamado "documentário mineiro", filmados em Super-8 e mostrando sempre o mais corriqueiro objeto dos ambientes que o filme visita como se grandes símbolos reveladores do espírito do lugar fossem. Uma casinha sendo construída pelas crianças a partir de rudimentares tijolos feitos de lama e uma imagem granulada e "linda" de uma velha casa de pau-a-pique posta logo a seguir. Nada muda, as casinhas seguem sendo precárias mesmo na vida adulta: a imagem do óbvio, muito óbvio.

A impressão é que todo esse manancial de "importância" do tema (que envolve ainda algumas considerações sobre o trabalho infantil na cultura interiorana, o despertar da libido entre crianças do mesmo sexo, entre outras coisas), percebidos por uma câmera inconsciente de sua postura quase etnográfica, fazem Clarisse Alvarenga perder de vista um mundo de grandes e interessantíssimas narrativas que estas mesmas crianças estão a todo tempo oferecendo ao filme. O momento certamente mais feliz é a longa seqüência que mostra um grupo de crianças indígenas criando uma verdadeira comunidade, com suas funções específicas a cada cidadão componente, sua própria política e economia, sua cultura local. Por um momento, chegamos a pensar que talvez se trate da versão de documental O Senhor das Moscas, ou talvez mais que isso: montando suas cabanas com folhas de bananeira cortadas a facão (golpes violentos na madeira, dados por um moleque de pouco mais de 10 anos de idade), indo caçar o alimento da pequena tribo com um arco e flecha ("um pombo ou uma onça", diz o menino para a câmera, e ele realmente acredita que caçaria uma), e tendo do filme o mínimo de intervenção, Ô, De Casa! parece estar mostrando, em primeira mão, um microcosmo social onde não só o mundo da criança assumiu o adulto, como este último foi verdadeiramente extinto, sobrevive como herança (nos gestos, na maneira de viver), mas não mais como presença (nem física, nem em voz off). Passa rápido, e é preciso alguma dose de disposição naïf para embarcar naquele pequeno universo de meninos e meninas indígenas, mas uma vez lá dentro, podemos perceber que tantos outros universos igualmente encantadores o filme não deixou escapar enquanto preparava mais um plano "maravilhoso" de algum pote de barro qualquer.

Rodrigo de Oliveira