11ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
Cobertura diária

MEU MUNDO EM PERIGO, de José Eduardo Belmonte

Os letreiros iniciais de Meu Mundo em Perigo anunciam que é preciso "entrar no acaso e abraçar o provisório", e talvez não exista no cinema de hoje algo tão permanente e tão pouco casual como o repertório de sentimentos e estilo vulgarmente chamado de "moderno", do qual José Eduardo Belmonte é um usuário freqüente e dedicado, sobretudo em A Concepção e neste novo filme. Primeiro, uma recorrência dos personagens em crise existencial manifesta, sobretudo, na negação ou supressão da identidade pessoal, um deixar-se solto no mundo e ir reagindo a ele sem aquilo que a experiência identitária impõe como limites de atuação, de performance, de exposição. Estes são dramas típicos do cinema moderno (e aqui usamos a palavra sem aspas porque ela se refere a um momento e um espírito bem específicos), que Belmonte reproduz em seus filmes de maneira sempre bastante íntegra. Do outro lado, aquilo que se chama de "moderninho" (aí sim as aspas fazem sentido), conceito bastante vago que diz respeito a um certo deslumbre pela sociedade da imagem, pela fugacidade da experiência contemporânea, uma efemeridade que é incapaz de se materializar em memória (uma vez que tudo passa muito rápido), e que só é passível de registro se for, em alguma medida, levada à fotografia, ao vídeo, ao cinema. É o efeito puro: presente fabricado, preenchido de visualidade e esvaziado de historicidade. Lembremos das imagens alteradas de A Concepção, da constante invasão da palavra escrita, estilizada, dos truques de montagem, da fotografia luz-de-boate.

Ainda que isto tudo valha também para Meu Mundo em Perigo, aqui Belmonte aprofunda sua aproximação perigosa (e sempre consciente, desejada) dessa dubiedade do conceito de modernidade. A começar pelo registro, inscrito num certo naturalismo fotográfico, que estava completamente ausente em A Concepção e sua imagem dopada pelo ácido. Mas, ainda que plasticamente ocupem lados opostos, os dois filmes dividem uma mesma crença na produção da imagem como o espaço mínimo de sobrevivência destes personagens errantes, desprendidos da terra por algum trauma sofrido e ainda não recuperado. A Concepção trazia um tipo (laconicamente chamado X, interpretado por Matheus Nachtergaele) sobre o qual se diz que, se não houvesse sido registrado pelas câmeras de vídeo do grupo de concepcionistas loucos do filme, talvez nunca pudesse ter sua existência comprovada. Em termos tecnológicos, Meu Mundo em Perigo é ainda um passo atrás nesta mesma lógica: o protagonista, Elias (Eucir de Souza), é um fotógrafo profissional que, no cotidiano, utiliza uma câmera Polaroid para preservar uma certa banalidade poética da vida, e mais ainda, nos é apresentado enquanto narra a tragédia de seu casamento e conseqüente separação e disputa pela guarda do filho ao mesmo tempo em que vemos um registro em Super-8, azul vibrante e ensolarado, da lua-de-mel com sua mulher numa praia. Já não é apenas a figura do personagem que só sobrevive se transformada em imagem: suas próprias emoções e crenças mais íntimas dependem da impressão no papel, na película. Cinema moderno anos 2000.

Objetivamente, Meu Mundo em Perigo é um filme de implosão da idéia da família como espaço primeiro e mais importante do encontro entre pessoas, da troca afetuosa de experiências. Elias se nega a deixar o filho com a ex-esposa porque a considera mentalmente instável, mas também é incapaz de criar um ambiente verdadeiramente familiar em sua casa; Fito (Milhem Cortáz) é constantemente atacado pelo pai, que o ridiculariza por ser simplório demais, um sujeito que abusa sexualmente da mulher do filho sem que este nunca realmente tenha forças para impedir isso; Ísís (Rosanne Mulholland) está hospedada num hotel vagabundo no centro da cidade depois de fugir dos rituais desagradáveis que a mãe sempre promovia no aniversário da morte de seu pai. Estes três personagens estanques irão, evidentemente, esbarrar uns nos outros, e novamente Belmonte se arriscará, desta vez no clichê moderninho da multi-narrativa que se entrecruza a partir de uma tragédia central. O que garante ao filme um fôlego diferente de todo esse cinema do desastre e redenção (Iñarritú virá à cabeça, porque há um atropelamento a conectar todos ali), é que Belmonte não fala apenas de todas estas crises, de todos estes dramas, de todo esse estatuto da codificação: ele ativamente participa delas, se dispõe a encená-las de peito aberto, sem medos ou pudores.

Meu Mundo em Perigo produz as seqüências mais inventivas que se podem tirar desse painel fadado à repetição de fórmulas. No julgamento da causa da guarda do filho de Elias, o que se encaminhava para um cena típica de choro e exposição melodramática acaba se transformando numa colagem de imagens abstraídas daquela ação, um conjunto de planos fechados onde uma boca sussurra algo bastante desconexo para um ouvido, em combinações aleatórias (Elias fala para a ex-esposa, a juíza ouve o promotor, a advogada de defesa ataca o próprio cliente), tudo ao som estridente de "It’s a Long Way", de Caetano Veloso. É um cinema da impossibilidade do monólogo, em que um filme só se faz se duas pessoas se puserem diante da câmera (e quando não há uma segunda, ou uma terceira, ou uma quarta, é disso que se fará a narrativa: da busca por companhia). É preciso voltar sempre a momentos de puro encantamento como a longa conversa entre Elias e Ísis sobre o pai dela ("que era igual a Yoko Ono", sempre sentado nu na cadeira da sala), ou no pequeno ensaio documental que um passeio pelo tal hotel vagabundo se transforma, a medida que Eucir de Souza e Rosanne Mulholland vão entrevistando os empregados que atuam no filme. Mais ainda, à pequena e estarrecedora participação de Helena Ignez como a mãe de Ísis, numa interpretação de louca ainda não precipitada que só nos faz pensar em como o cinema brasileiro contemporâneo deve papéis como este a essa grande atriz.

Uma vez que o destino venha cobrar sua conta, personagens e diretor já estão em tamanho estado de comunhão que é como se, de fato, Meu Mundo em Perigo fosse o único espaço em que seus dramas realmente pudessem ser vividos em sua mais sincera ambigüidade. "Um mundo à salvo", mesmo que tudo ao redor insista em dar errado.

Rodrigo de Oliveira