| MEU
MUNDO EM PERIGO,
de José Eduardo Belmonte
Os letreiros iniciais de Meu Mundo em Perigo anunciam
que é preciso "entrar no acaso e abraçar o provisório",
e talvez não exista no
cinema de hoje algo tão permanente e tão pouco casual como o repertório de sentimentos
e estilo vulgarmente chamado de "moderno", do qual José Eduardo Belmonte é um
usuário freqüente e dedicado, sobretudo em A Concepção e neste novo filme.
Primeiro,
uma recorrência dos personagens em crise existencial manifesta, sobretudo, na
negação ou supressão da identidade pessoal, um deixar-se solto no mundo e ir
reagindo a ele sem aquilo que a experiência identitária impõe como limites de
atuação, de performance, de exposição. Estes são dramas típicos do cinema moderno
(e aqui usamos a palavra sem aspas porque ela se refere a um
momento e um espírito bem específicos), que Belmonte reproduz em seus filmes
de
maneira sempre bastante íntegra. Do outro lado, aquilo que se chama de "moderninho"
(aí sim
as aspas fazem sentido), conceito bastante vago que diz respeito a um certo deslumbre
pela sociedade da imagem, pela fugacidade
da experiência contemporânea, uma efemeridade que é incapaz de se materializar
em memória (uma vez que tudo passa muito rápido), e que só é passível de registro
se for, em alguma medida, levada à fotografia, ao vídeo, ao cinema. É o efeito
puro: presente fabricado, preenchido de visualidade e esvaziado de historicidade.
Lembremos das imagens alteradas de A Concepção, da constante invasão da
palavra escrita, estilizada, dos truques de montagem, da fotografia
luz-de-boate.
Ainda que isto tudo valha também para Meu Mundo em Perigo, aqui Belmonte
aprofunda sua aproximação perigosa (e sempre consciente, desejada) dessa dubiedade
do conceito de modernidade. A começar pelo registro, inscrito num certo naturalismo
fotográfico, que estava completamente ausente em A Concepção e sua imagem
dopada pelo ácido. Mas, ainda que plasticamente ocupem lados opostos, os dois
filmes dividem uma mesma crença na produção da
imagem como o espaço mínimo de sobrevivência destes personagens errantes, desprendidos
da terra por algum trauma sofrido e ainda não recuperado. A
Concepção trazia um tipo (laconicamente chamado X, interpretado por Matheus
Nachtergaele) sobre o qual se diz que, se não houvesse sido registrado pelas
câmeras de vídeo do grupo de concepcionistas loucos do filme, talvez nunca pudesse
ter sua existência comprovada. Em termos tecnológicos, Meu Mundo em Perigo é ainda
um passo atrás nesta mesma lógica: o protagonista, Elias (Eucir de
Souza), é um fotógrafo profissional que, no cotidiano, utiliza uma câmera Polaroid
para preservar uma certa banalidade poética da vida, e mais ainda, nos é apresentado
enquanto narra a tragédia de seu casamento e conseqüente
separação e disputa pela guarda do filho ao mesmo tempo em que vemos um registro
em Super-8, azul vibrante e ensolarado, da lua-de-mel com sua mulher numa praia.
Já não é apenas a figura do personagem que só sobrevive se transformada em imagem:
suas próprias emoções e crenças mais íntimas dependem
da impressão no papel, na película. Cinema moderno anos 2000.
Objetivamente, Meu Mundo em Perigo é um filme de
implosão da idéia da família como espaço primeiro e mais importante do encontro
entre pessoas, da troca afetuosa de experiências. Elias se nega a deixar o filho
com a ex-esposa porque a considera mentalmente instável, mas também é incapaz
de criar um ambiente verdadeiramente familiar em sua casa; Fito (Milhem
Cortáz) é constantemente atacado pelo pai, que o ridiculariza por ser simplório
demais, um sujeito que abusa sexualmente da mulher do filho sem que este nunca
realmente tenha forças para impedir isso; Ísís (Rosanne Mulholland) está hospedada
num hotel vagabundo no centro da cidade depois de fugir dos rituais
desagradáveis que a mãe sempre promovia no aniversário da morte de seu pai. Estes
três
personagens estanques irão, evidentemente, esbarrar uns nos outros, e novamente
Belmonte se arriscará, desta vez no clichê moderninho da multi-narrativa que
se
entrecruza a partir de uma tragédia central. O que garante ao filme um fôlego
diferente de todo esse cinema do desastre e redenção (Iñarritú virá à cabeça,
porque há um atropelamento a conectar todos ali), é que Belmonte não fala apenas
de todas estas crises, de todos estes dramas, de todo esse estatuto da
codificação: ele ativamente participa delas, se dispõe a encená-las de peito
aberto, sem medos ou pudores.
Meu Mundo em Perigo produz as seqüências mais inventivas que se podem
tirar desse painel fadado à repetição de fórmulas. No julgamento da causa da
guarda do filho de Elias, o que se encaminhava para um
cena típica de choro e exposição melodramática acaba se transformando numa colagem
de imagens abstraídas daquela ação, um conjunto de planos fechados onde uma boca
sussurra algo bastante desconexo para um ouvido, em combinações aleatórias (Elias
fala para a ex-esposa, a juíza ouve o promotor, a advogada de defesa ataca o
próprio cliente), tudo ao som estridente de "It’s a Long Way", de
Caetano Veloso. É um cinema da impossibilidade do monólogo, em que um filme só se
faz se duas pessoas se puserem diante da câmera (e quando não há uma segunda,
ou uma terceira, ou uma quarta, é disso que se fará a narrativa: da busca por
companhia). É preciso voltar sempre a momentos de puro encantamento como a longa
conversa entre Elias e Ísis sobre o pai dela ("que era igual a
Yoko Ono", sempre sentado nu na cadeira da sala), ou no pequeno ensaio documental
que um passeio pelo tal hotel vagabundo se transforma, a medida que Eucir de
Souza e Rosanne Mulholland vão entrevistando os empregados que atuam no filme.
Mais ainda, à pequena e estarrecedora participação de Helena Ignez
como a mãe de Ísis, numa interpretação de louca ainda não precipitada que só nos
faz pensar em como o cinema brasileiro contemporâneo deve papéis como este a
essa grande atriz.
Uma vez que o destino venha cobrar sua conta, personagens e
diretor já estão em tamanho estado de comunhão que é como se, de fato, Meu
Mundo em Perigo fosse o único espaço em que seus dramas realmente pudessem
ser vividos em sua mais sincera ambigüidade. "Um mundo à salvo",
mesmo que tudo
ao redor insista em dar errado.
Rodrigo
de Oliveira
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