| DESERTO
FELIZ,
de Paulo Caldas
Deserto Feliz começa nos apresentando a um ambiente
sertanejo onde vive uma família em que o padrasto estupra
violentamente a
própria enteada, personagem interpretada por uma atriz que sabemos ser maior
de
idade, mas cujas feições são ainda bastante infantis, violência que conta aparentemente
com a conivência do pequeno cosmos social ali envolvido (a mãe da menina, um
amigo da família), e que resultará fatalmente na saída da menina de casa para
uma carreira de prostituição em que reproduzirá, ainda que inconscientemente,
esta corrupção inicial em sua vida. Mas diferente de Baixio
das Bestas, que tem exatamente a mesma amarração dramática, Paulo Caldas
não está cavando uma fossa ao lado da casa, onde simbolicamente enterrará toda
esta podridão, vista como uma patologia só resolvível com a morte de tudo o que
participa dela. A humanidade não está aqui para ser negada, ainda que exista
tanto em Deserto Feliz como no filme de Cláudio Assis um elo bastante
estreito com a realidade, onde se tenta (ou se imagina) reproduzir em filme algo
que sabemos existir, mas cuja imagem nunca vemos, a prostituição infantil, na
maioria dos casos resultado mesmo da exploração sexual anterior, no ambiente
familiar, um dado do "real puro" ao qual se prestará tributo muito
mais
freqüentemente que a ficcionalização das situações. Mas se com Baixio das
Bestas a estratégia foi entregar-se ao "é tudo assim mesmo", criando-se
um
ambiente de miséria humana total e insuperável, Deserto Feliz tentará produzir
dentro deste quadro diversas ilhas de conforto e certa proteção para sua protagonista,
mesmo diante das maiores perversidades, mesmo no contato com os personagens que
deveriam mais claramente lhe ferir, e não lhe acolher.
Nestas pequenas ilhas, Deserto Feliz não faz mais que fabricar proximidades,
interações carinhosas, momentos de afeto, espaços que
emprestam à trajetória desta menina um descolamento da obrigação de destino trágico
a que mesmo uma narrativa ficcional parece estar fadada. Sua mãe explode de culpa
e bate no marido quando descobre que a filha fugiu de casa para fazer ponto no
pior restaurante de beira-de-estrada da cidade. A pequena comunidade de putas
em que vive (onde participa, curiosamente, uma Hermila Guedes interpretando algo
como o projeto fracassado de Suely) se transforma num núcleo
familiar claro – nem mesmo a condenação da idéia de família não é promovida aqui,
uma vez que uma outra surge no caminho da menina, e a acolhe bem. E até a velha
cafetina, que vai aumentar o aluguel das putas sem razão para isso, tipo
clássico de participação especial no cinema brasileiro que só empobrece um certo
espírito dramatúrgico não-oficial que o filme apresentava até ali (no caso interpretada
por Zezé Motta, mas pensemos também no exemplo recente de Ângela Leal no mesmíssimo
papel em Querô e em como sua atuação over não ecoava em nenhuma outra
do filme), pois bem, até a velha cafetina consegue ter seu momento de ternura
com a protagonista, dando-lhe conselhos sobre a vida.
Claramente, Deserto Feliz faz parte de um mesmo
espírito de projetos recentes que buscam esta formatação do amor pelos personagens
em oposição ao ambiente cada vez mais opressor (O Céu de Suely sendo,
ao mesmo tempo, o auge e a ruína deste tipo de filme no contexto recente), tentativa
de fazer o cinema brasileiro participar de um certo movimento mundial do cinema
contemporâneo, ao mesmo tempo garantindo algumas facilidades de financiamento
exterior (caso do filme de Paulo Caldas) ao oferecer doses muito equilibradas
da cor local e do drama universal
reconhecível por platéias estrangeiras. O custo estético para estes filmes é exatamente
essa sensação de manufatura do afeto, uma suposta sensibilidade da
câmera na mão, perseguindo personagens sem rumo, deslocados, instáveis, e copiando
assim seus movimentos, um primado das longas seqüências, do pouco
diálogo, do "silêncio revelador". Tudo isso se aplica a Deserto
Feliz,
mas acaba lhe servindo melhor que a alguns outros filmes recentes (pensemos em A
Casa de Alice, por exemplo) justamente porque é de fabricações, do anúncio
claro da intenção do diretor em resguardar sua protagonista de certos desafios
e, por outro lado, de proporcionar se não um desfecho feliz, pelo menos sugerir
sua possibilidade, que o filme vive. É, em certa medida, o sorriso final no ônibus
de Suely, em oposição à frustração amorosa de Alice no último plano do filme
de Chico Teixeira. Na mesa do bar em que vão caçar clientes gringos, a personagem
de Hermila informa à Jéssica (Nash Laila) que "nunca viu puta
sonhar". Deserto Feliz terminará exatamente com a dúvida se a viagem
inicialmente
redentora de Jéssica ao exterior, indo morar na Alemanha com um de seus clientes,
era um fato ou imaginação da menina à beira de uma cama. Não importa muito, na
verdade: que Paulo Caldas tenha fabricado toda esta ilusão
não só desmonta a tese da personagem de Hermila como demarca claramente que as
putas, pelo menos nos filmes que ele dirigir, sonham sim.
E do mesmo modo que Paulo Caldas consegue escapar do vício de um formato restrito
para respirar ar próprio sempre que mostra que sua
devoção à protagonista é uma questão de princípios antes de ser uma questão de
moda,
toda vez que estiver falando do universo que circunda Jéssica, mas que não toma
parte dela diretamente, Deserto Feliz se provará extremamente desastrado.
Isso está mais bem expresso na relação que o filme mantém com os clientes da
menina, sobretudo com o alemão por quem se apaixona. Logo no primeiro programa
que vemos Jéssica fazer no Recife, o cliente é um sujeito velho e incrivelmente
gordo, uma barriga quase obscena. Jéssica, por si, se diverte com a situação,
o
quarto de hotel chique, as poucas palavras em inglês que já decorou para se comunicar
com gringos como aquele, e até mesmo participa feliz da tara do sujeito ao tirar
fotos dele nu na cama. Pois num último plano desta seqüência,
Paulo Caldas colocará o cliente em primeiríssimo plano, ressaltando ainda mais
sua
imensa barriga. Ali se cria uma distinção fundamental entre o sentimento da protagonista
(que segue satisfeita com o programa, só que agora desfocada no fundo do quadro),
enquanto o filme quer crer – e fazer a platéia acreditar também – no
asco automático que surge quando se pensa numa menina menor de idade transando
com alguém como ele.
Esse abismo que Deserto Feliz sempre cria entre os sentimentos da personagem
a quem supostamente se devota incondicionalmente e
uma série de comentários "em vôo solo", que realiza a revelia dela, gera
contradições insolúveis no filme. Tudo talvez se resuma na estratégia muito duvidosa
de colar a câmera no corpo de Mark (Peter Ketnath), um alemão que inicialmente
vem apenas repetir a lógica de exploração de turistas estrangeiros sobre as meninas
pernambucanas, mas que o filme eleva a condição de amante recíproco
de Jéssica. O dispositivo (literalmente, uma câmera com lente grande-angular
presa ao corpo do ator) é introduzido de maneira quase aleatória, e em boa parte
delas para sustentar uma certa agressividade ou crueza dos gestos do
personagem – o momento mais forte deles é certamente quando estamos colados no
rosto dele enquanto cheira carreiras de cocaína e chora olhando para a menina
nua dormindo na cama. Jéssica fora sempre retratada com aquela mesma câmera dardenniana,
obrigatoriamente na mão, obrigatoriamente presente, mas quando Deserto Feliz assumir
um corpo para esta câmera, não será o da protagonista, mas sim a do sujeito que,
logo adiante, verá nela a impossibilidade de um
futuro juntos em seu país de origem (um retrato bastante negativo, diga-se, inconformado
com a letargia da menina brasileira). E assim, nem mesmo todo o projeto de proximidade
amorosa de Paulo Caldas esconde que, no fundo, seu olhar
sobre aquele amor é sempre estrangeiro, que sua câmera se identifica muito mais
com o explorador que com a explorada.
Rodrigo
de Oliveira
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