xxiIi FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINE EN
GUADALAJARA

Cobertura diária

- Competitiva Ibero-Americana de Ficção
No mires para abajo (Eliseo Subiela, Argentina, 2008
)

Os filmes que estiveram na competitiva Ibero-americana de ficção foram: O Banheiro do Papa (Dir: Cesar Charlone, Enrique Fernandez, Uruguai, Brasil, França, 2007), La rabia (Dir: Albertina Carri, Argentina, 2007), No mires para abajo (Dir: Eliseo Subiela, Argentina, 2008), Personal belongings (Dir: Alejandro Brugues, Cuba, 2007), Os Desafinados (Dir: Walter Lima Júnior, Brasil, 2008), A Outra Margem (Dir: Luis Felipe Rocha, Portugal, 2007), Perro come perro (Dir: Carlos Moreno, Colombia, 2008), El camino (Dir: Ishtar Yasin, Costa Rica, 2007), Matar a todos (Dir: Esteban Schroder, Uruguai, 2007), 14 kilómetros (Dir: Gerardo Olivares, Espanha, 2007), Tropa de Elite (Dir: José Padilha, Brasil, 2007), Maré, Nossa História de Amor (Dir: Lúcia Murat, Brasil, 2007) e Mataharis (Dir: Iciar Bollain, Espanha, 2007). O único filme desse conjunto de longas a que eu não consegui assistir foi esse último. Tropa de Elite e Maré, Nossa História de Amor já tinham sido vistos no ano passado. E, de todos estes, os que realmente chamaram a minha atenção foram Os Desafinados, No mires para abajo e La rabia, além do já muito comentado Tropa de Elite. Curiosamente, os filmes mais interessantes para mim foram dois brasileiros e dois argentinos. E dois desses quatro filmes “preferidos” foram dirigidos por cineastas veteranos: Walter Lima Júnior e Eliseo Subiela. Como já falei do filme de Walter, me ocupo agora com o de Subiela.

Muitos poderão afirmar que Subiela não realizou nada de novo nesse seu último filme. Afinal, o cineasta já está inserido no nicho de um certo “cinema de arte” e já há bastante tempo é classificado como um verdadeiro “autor” cinematográfico.  Seus traços claramente característicos e pessoais presentes em filmes como Hombre mirando al sudeste (1986), Últimas imágenes del naufragio (1989) e El lado oscuro del corazón (1992) o consagraram mundialmente. Depois de alcançado, seu estilo único e reconhecível para muitos críticos foi apenas repetido depois dessa trinca de filmes.  De fato, o tema preferido de Subiela, o amor, perpassa toda a sua filmografia e o seu olhar sobre este realmente aparenta  ser o mesmo, apesar de algumas variações. Porém, ele está longe se ser o típico autor de um tema só ou mesmo o autor que apenas “improvisa” a partir de um mesmo tema. Afinal, o amor é algo tão vasto e amplo que é complicado classificá-lo como um tema único e fechado. Me parece mais apropriado afirmar que o autor parte de uma mesma matriz e não de um mesmo tema. E mais que executar apenas variações sobre essa mesma matriz, ele parece jorrar sobre uma tela em branco distintas tonalidades de tinta. A metáfora pictórica aqui melhor se acomoda que a musical. Mais do que a de um músico de jazz que improvisa pelo intermédio de uma determinada sugestão, o processo de composição de Subiela parece se alinhar ao de um artista plástico moderno. Pollock poderia ser lembrado.

É bem verdade que o cinema de Subiela sempre esteve mais conectado a uma certa plástica e a uma certa poética do que a qualquer musicalidade. Poesia na métrica, na forma de falar e apurada construção estética na imagem, esses parecem ser os dois elementos que compõem a filmografia do realizador. No caso específico de No mires por abajo, as referências plásticas e poéticas de Subiela parecem, prioritariamente, convergir para uma mesma fonte. Primeiramente: a cartela inicial reproduz um parágrafo de André Breton, no qual o poeta expõe a sua trinca fundamental formada por amor, sonho e morte. O cineasta parte dos mesmos elementos. Eloy (Leandro Stivelman) é um rapaz de 19 anos que acabou de perder o pai e acredita vê-lo todas as noites através de seus sonhos. O personagem também é sonâmbulo, logo, seu espírito apresenta uma peculiar “independência”. O sonambulismo é “a expressão da independência do espírito”, nos diz uma das frases do filme. E a morte é presente no cotidiano de Eloy não apenas pelas visitas do pai, mas também pela sua própria profissão. O personagem trabalha na marmoraria de sua família cuja principal demanda é entregar lápides , ornamentos e estátuas para o maior cemitério da cidade. Portanto, o cemitério é um lugar-paisagem bem próximo e íntimo do personagem.

Eloy faz as suas entregas dirigindo uma bicicleta e portando um emblemático chapéu coco (referencia aos famosos chapéus de  Magritte). Ao realizar suas idas e vindas do cemitério, o jovem encontra uma estranha fila de idosos de gravata sentados. Os senhores, ao verem o garoto passar, articulam gestos e sinais esquisitos. Esta imagem, Eloy e os velhos bizarros sentados, se repete umas três ou quatro vezes.

Estranhamentos como este formam a tonalidade dominante de No mires para abajo. Outra imagem-chave é a de Eloy usando pernas de pau de 4 metros de altura, abraçado a uma árvore gigantesca. O personagem, desde criança, possuía o hábito de andar em pernas de pau, característica que nos leva a uma outra analogia da personalidade do rapaz com um anseio de transcendência ou de “sair de si”. Eloy, além de ter o espírito livre, também quer alcançar o infinito e as nuvens. Esse desejo de liberdade, de tocar o impalpável, de experimentar maravilhosas sensações, atinge uma nova dimensão, é claro, pela via do amor. E o amor se encarna harmonicamente e de forma incrivelmente  sublime no corpo-alma de uma linda mulher. Aqui, essa mulher especial é Elvira (Antonela Costa), que ensina a Eloy ,através do sexo , renovadas apreensões da vida e da realidade aparente. Eloy, através do sexo com Elvira, conhece diferentes partes do mundo. No momento do orgasmo, o personagem se transporta e visita por alguns segundos as mais diferentes cidades do planeta. Para ele, a saliva de sua amante apresenta algum “componente químico especial” e sua vagina resulta ser “alucinógena”. A vagina de Elvira o transforma e o amplia.  Vemos então muito sexo em No mires para abajo, outro elemento também presente nos anteriores trabalhos de Subiela. Mas, o autor decididamente parece não se importar nem um pouco se para alguns, ele soará repetitivo.

Estevão Garcia

 

 






Eloy em sua bicicleta.