xxiIi FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINE EN
GUADALAJARA

Cobertura diária

- Sessão Especial de Gala
Honeydripper (John Sayles, EUA, 2007)

O blues de John Sayles


Dois garotos negros estão na varanda de uma velha casa. Um deles tenta produzir música com um arame, enquanto o outro finge emanar eletrizantes melodias de seu piano de brinquedo.  Logo depois, os dois caminham por uma cidade pobre, cruzam campos de algodão, até que chegam, já de noite, em um decadente Social Club. Estampado na imagem, agora vemos os dizeres: Alabama, 1950, que nos situam no tempo-espaço onde se desenrolará a ação. Na verdade, essa cartela acaba sendo apenas reiterativa, porque todo o clima criado por Sayles, do prológo descrito acima, pasando por toda a seqüência dos créditos iniciais, já nos tinha localizado temporal e geograficamente de maneira bastante precisa e eficiente. Toda a atmosfera, a energia e a cadência que o filme desenvolve brilhantemente ao longo de sua projeção, já estão lá. Sayles realiza com maestria o feito de nos transportar para o sul dos Estados Unidos da década de 50. No interior do casebre caindo aos pedaços onde funciona o cabaré Honeydripper, vemos uma cantora idosa cantando blues para um público composto por três pessoas. Decadência, pobreza, ostracismo. Se aquela velha cantora não consegue atrair mais do que algumas  moscas para aquele estabelecimento, seu proprietário, também um músico frustrado, da mesma maneira, não tem em seu poder a fórmula mágica para deixar a casa cheia.

O objetivo central então esboçado pelo protagonista em companhia de sua mulher, enteada e fiel amigo é o de transformar Honeydripper em um sucesso de público e sair definitivamente da miséria. O dono do lugar já lhe tinha dado um prazo de três dias para pagar o que devia, caso contrário, o despejo seria inevitável. Dentro deste problema básico, a dificuldade que o seu personagem principal deverá superar, Sayles, constrói uma teia de relações humanas com doses consideráveis de sutileza. A esposa evangélica e sua interação com a religião, o sonho de ascensão social da enteada, a cantora decrépita e seu gigolô apaixonado, a construção dos personagens do jovem guitarrista e do músico cego. Tudo é arquitetado de maneira simples, porém, essa aparente simplicidade gradualmente acaba se convertendo em uma das principais forças do filme. Tudo está ali, perfeitamente posicionado em seu devido lugar. Vemos com poucos espaços de intervalo saltarem da mise-en-scène pequenas pérolas preciosas. Uma delas é a seqüência em que o jovem guitarrista está na cadeia. O prisioneiro está na sela junto com os outros detentos e de repente começa a cantar. Logo depois, seus companheiros o acompanham na canção. A cantoria termina e o personagem revela aos demais sua meta de ter suas músicas tocadas na rádio, de viajar pelo mundo com a sua arte, de ter muita fama. Recebendo gargalhadas e zombarias de seus colegas como resposta, ele volta a cantar, desta vez sozinho. Corta, e a câmera, em um traveling para trás, o isola lentamente. A sua imagem suavemente recua  até se escurecer completamente. A música ainda permanece por alguns segundos após o fade.

Simplicidade, eficiência e notável habilidade narrativa sempre foram ingredientes característicos do cinema de John Sayles, porém, em Honeydripper, eles pulsam como nunca. A seqüência final, com todos os personagens reunidos no Social Club, inclusive o guitarrista cego, que mais uma vez suscita o flashback que o conecta ao protagonista, é a grande prova disso. Ritmo, harmonia, compasso seguro. Sayles parece ter composto seu filme ao lado de um metrónomo. A analogia musical aqui utilizada, não se justifica apenas pelo fato de Honeydripper ser um filme em que a música (menos como trilha e mais como tema-pano de fundo e sugestão) apresentar um papel fundamental, porque o próprio processo de composição e criação do diretor realmente parece ser claramente musical. Esperemos, então, pela próxima canção de John Sayles.

Estevão Garcia