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Homenagem ao Cinema Argentino
O Festival Internacional de Cine en Guadalajara escolhe todo
ano um país para homenagear. Na edição anterior, o homenageado foi o Brasil e,
por conta disso, foi programada uma retrospectiva de Nelson Pereira dos Santos e
uma pequena seleção de nossa produção mais recente. Este ano, o país convidado
é a Argentina e os cineastas escolhidos como os grandes homenageados foram os
diretores Fernando Birri e Fernando Solanas e a produtora-diretora Lita
Stantic. Dentro desta homenagem ao cinema argentino também houve um certo espaço,
claro que bem menor e menos significativo, dedicado à Argentina Sonofilms e
à atriz Isabel Sarli. Mas falaremos primeiro dos argentinos considerados “mais
importantes e mais fundamentais”.
Lita Stantic exerceu um importante papel como produtora
nos anos 70, fez parte do grupo Cine Liberación e, mais recentemente, produziu
alguns dos mais significativos filmes do Nuevo Cine Argentino, surgido
no final dos anos 90: Mundo Grua (1999) de Pablo Trapero , O Pântano (2001)
e Menina Santa (2004) de Lucrécia Martel, Bolivia (2001) de
Adrián Caetano e Tan de Repente (2002) de Diego Lerman. A produtora estaria,
então, conectada tanto ao “cinema de renovação” argentino de outrora, quanto
ao de agora. O critério utilizado no ano passado para eleger Nelson como o
principal representante da cinematografia brasileira foi o mesmo adotado neste
ano para designar Birri/Solanas e, a reboque, Lita Stantic, como os principais
nomes da cinematografia argentina. Obviamente, não estamos querendo questionar
aqui a fundamental importância de Nelson para o cinema brasileiro ou a de Birri,
Solanas e Stantic para o argentino. As historiografias desses dois países já os
acolheu e já os bem acomodou (me refiro agora apenas a Nelson, Birri e Solanas
porque, até hoje, nenhuma História do Cinema considerou o papel de um produtor
ou de qualquer outro cineasta tão importante quanto o de um diretor).
Nelson é tido como o precursor do Cinema Novo e é,
ao lado de Fernando Birri, o pioneiro do Nuevo Cine Latinoamericano.
Nelson e Birri são classificados como os verdadeiros pais do cinema
latino-americano moderno. Segundo os livros, eles foram os primeiros que
transplantaram para a cinematografia do continente os valores éticos e
estéticos do neo-realismo italiano. Essa importância, que é tão bradada aos
quatro ventos, não pode de fato ser negada. Também não devemos esquecer a
relevância dos movimentos de renovação latino-americanos dos anos 60. Fernando
Solanas é, de fato, o principal nome do Cine Liberación, assim como
Glauber Rocha é indiscutivelmente o principal nome do Cinema Novo. Porém,
se rótulos de destaque como “pioneiro” e precursor”, no caso de Nelson e Birri,
e o de “principal” e “líder”, no caso de Glauber e Solanas, são legítimos,
eles não precisam ser excludentes.
Afinal, o Cinema Novo não era a única tendência do
cinema brasileiro na década de 60, assim como o Nuevo Cine Latinoamericano não era o único tipo de cinema que se produzia na América-latina nessa época.
Há outros cinemas latino-americanos a serem descobertos, recuperados e
difundidos. Há todo um mundo que precisa vir à tona. A eleição de determinados
nomes e filmes como “os melhores” ou “os mais significativos” não deve, necessariamente,
colocar outros nomes e filmes no limbo. Ou com o carimbo de “importância moderada”.
Algo como: “esse filme tem lá a sua relevância, mas o assista com moderação”. É
necessário que os Festivais de cinema de um modo geral, ao promoverem suas
retrospectivas e homenagens, tenham uma visão mais histórica e mais abrangente.
Ter uma visão mais histórica significa apresentar o interesse em conhecer, sem
preconceitos, tudo o que o cinema latino-americano produziu ao longo das
décadas. É ter a curiosidade de estabelecer uma relação direta com os filmes em
si, e não apenas com o que foi escrito sobre eles por pesquisadores e
historiadores. É tentar encontrar nos filmes, pelo intermédio de um olhar
diferenciado, outros achados e outras mensagens. Quando um Festival histórico,
tradicional e importante como o de Guadalajara escolhe os seus grandes
homenageados do cinema latino-americano, o faz a partir de critérios mais de
ordem estética e política do que histórica. Estética, porque o cinema feito por
esses homenageados é tido como de qualidade, como um bom cinema. Política,
porque esses diretores estão relacionados a um certo cinema moderno
comprometido e engajado.
Se por um lado, ao eleger Birri, Solanas e Stantic, o
Festival adota esses critérios, as pequenas e escondidas homenagens à Argentina Sonofilms e a Isabel Sarli nos indicam que a postura histórica-englobalizante,
embora menor, também é efetivada pelo festival. Fazem parte da programação
dedicada ao ativo estúdio portenho dos anos 40 e 50 os filmes: El conde de
Montecristo (Dir: León Klimovsky, 1952), Guacho (Dir: Lucas Demare,
1954), Rosaura a las diez (Dir: Mario Soffici, 1957) e El hombre de
la esquina rosada (Dir: René Mogica, 1961). A exibição destes quatro
filmes, mesmo que apenas em uma única sessão e sem holofotes, já demonstra uma postura
mais renovada. A Argentina Sonofilms não ocupa uma posição marginal
dentro da cinematografia argentina, muito pelo contrário. As suas produções, na
maioria melodramas, fazem parte, junto com outros profícuos estúdios portenhos,
de um período de grande êxito popular. Essa etapa, a das tentativas industriais
miméticas de Hollywood, levadas a cabo na América-Latina, teve, nos estúdios
argentinos e mexicanos, os seus principais articuladores. Se o cinema de gênero
mexicano dos anos 30, 40 e 50 é hoje reconhecido, o argentino igualmente o é.
O que, a priori, não mereceria nenhum destaque, nem pequeno que fosse, pelo
crivo da “qualidade” e do “bom gosto”, seria o cinema comercial argentino dos
anos 60 e 70, notadamente, o cinema erótico. Pois, a grande musa desse cinema é
homenageada com a exibição de somente um dos trinta filmes que compõem a sua
filmografia. Desnuda en la arena (Dir: Armando Bó, 1969) é projetado
logo depois que Isabel Sarli, hoje uma senhora de 73 anos, recebe o troféu do
Festival. Mas falaremos mais sobre Isabel Sarli e Desnuda en la arena em
um próximo texto.
Estevão Garcia
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