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- Competitiva Ibero-Americana de Ficção
Desierto Sur (Shawn Garry, Chile, 2007)
Sofía (Marta Etura) é uma nadadora profissional espanhola
que percebe o seu mundo e suas referencias se perderem após a morte da mãe.
Unida ao sentimento de culpa por não ter estado ao lado dela no momento de seu
falecimento, pulsa uma sensação de perda de identidade. A jovem, ao vasculhar
os diários, as cartas e os objetos da mãe, descobre de súbito que não a
conhecia. Uma carta que a mãe tinha enviado ao Chile, mas que foi devolvida
pelo correio porque o endereço do destinatário tinha mudado, é a propulsora da
mudança de rumo que a vida da protagonista experimenta. Sofía se inteira que
sua mãe era perdidamente apaixonada por um arqueólogo espanhol escondido nos confins
do norte do Chile. Que ela tinha sido feliz naquele distante e árido lugar e
que provavelmente o seu último desejo seria que as suas cinzas fossem
espalhadas naquele país. Partindo dessa premissa: a busca de Sofía pelo
autoconhecimento através da repetição do trajeto feito pela mãe no deserto do
Atacama, o diretor realiza um road movie se servindo de uma paisagem
exuberante. O deserto toma conta da visualidade do filme, o impacto de suas
montanhas, de suas dunas, de sua atmosfera reforça o aspecto de fábula de formação
que Shawn Garry aparenta querer buscar. Ao mesmo tempo que Sofía descobre as
belezas de um país desconhecido, desvenda os segredos de sua origem. O seu contato
e interação com a paisagem e as pessoas se desdobra de diversas formas. Primeiro
a protagonista conhece Nádia (Carolina Varleta), uma “riponga” malabarista que
sobrevive de sua arte e de pequenos furtos. Logo depois, se depara com o
argentino Gustavo (Alejandro Botto), com qual se envolve e se decepciona ao
descobrir sua verdadeira “profissão”. Trata-se de um enredo aparentemente simples,
desprovido de grandes ambições e filmado com a mesma despretensão.
Desierto Sur marca a estréia de Shawn Garry em
longa-metragem. O realizador é originário de um país cuja cinematografia é desprovida
de tradição, de história e de uma produção continua e sistemática. Por apresentar
essas características, a cinematografia chilena raramente consegue acolher
jovens diretores. Hoje, mais do que em décadas anteriores, é um privilégio um
diretor chileno chegar antes dos 30 anos no primeiro longa-metragem. Garry,
como grande parte dos cineastas latino-americanos de sua geração, possui formação
acadêmica e a adquiriu no exterior. E, realizando uma rápida pesquisa sobre a
sua trajetória depois de asistir Desierto Sur, é possível percebê-la refletida
no filme de alguma forma. Afirmamos isso porque Desierto Sur nos deixa
claro um evidente conhecimento técnico e um seguro apuro artesanal. Garry conhece
bem as regras e as sintaxe do cinema narrativo e as emprega com tranqüilidade.
Porém, se podemos dizer que o realizador mostra através de seu longa que foi um
aluno de cinema aplicado e disciplinado, também é lícito ressaltar que Desierto
Sur indica pouca ousadia para um estreante. Falar que Desierto Sur é
um filme pouco ousado não é sinônimo de uma cobrança por mais inventividade,
originalidade ou imaginação. As intenções e os objetivos de Garry são bem
claros. Não estamos pedindo um filme que não foi o almejado por seu realizador.
Mas, dentro das linhas que Garry propôs para si e contando com os recursos de
que dispôs (Desierto Sur não é um filme nada barato) teria sido possível
concretizar um vôo mais alto.
Se Desierto Sur tivesse sido rodado em um local
menos impactante e vigoroso visualmente como o deserto do Atacama, certamente o
resultado final teria sido completamente diferente. Sem sombra de dúvida, o cenário
de Desierto Sur é um de seus maiores trunfos, não só por sua beleza
intrínseca, mas principalmente por servir de metáfora e sugestão às texturas
psicológicas que o filme pretende construir. E essa analogia entre paisagem
dura, crua, desértica, e viagem existencial não é forcada e sim transparente.
Sofía pretende concretizar uma viagem interna e introspectiva através de uma
viagem física real. Mais do que um simples cenário e um entorno visual, o
deserto do Atacama é aqui um personagem fundamental e discreto. No entanto, as
potencialidades desse personagem geográfico seriam melhor exploradas se a
maioria das situações não fossem encenadas de maneira tão burocrática e
protocolar. O final, previsível e convencional, nos confirma, afinal, a pegada
principal do realizador.
Estevão Garcia
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