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- Competitiva Ibero-Americana de Ficção
Os Desafinados (Walter Lima Júnior, Brasil, 2008)


Tendo conhecimento da filmografía e da trajetória particular de Walter Lima Júnior e dando uma breve lida na sinopse de Os Desafinados antes da experiencia de assisti-lo, o espectador difícilmente deixará de sentir o inevitável  impulso  de imaginá-lo como um filme repleto de traços autobiográficos e extremamente nostálgico. Afinal, Walter Lima conhece muito bem o periodo histórico que escolheu como “cenário” de seu último filme: o que abrange o inicio dos anos 60 a segunda metade da década de 70. Utilizamos o termo “cenário” porque o movimento que o filme deseja operar narrativamente é justamente o de retorno a um antigo lugar. Como uma pessoa já adulta que está visitando a casa que tinha vivido na infância, o grupo de Bossa Nova que dá nome ao filme relembra as experiências do passado. Os Desafinados se inicia com os membros do conjunto no presente, nos dias atuais. Sabemos pelo rádio que Glória Backer (Claudia Abreu), a vocalista, recentemente faleceu. Aos poucos, vamos conhecendo os personagens, até que o espaço dedicado ao passado (território de maior interesse de Walter Lima) se amplia.

A relação estabelecida entre os músicos e os anos 60-70 se entrelaça diretamente com a do realizador. Se pegarmos os primeiros anos da banda, constataremos que eles correspondem exatamente ao período da formação artística e intelectual do diretor e de toda a sua geração. Estamos no Brasil pré-golpe militar, com o estouro da Bossa Nova no exterior, a conquista do bicampeonato de futebol, a mobilização pelas Reformas de Base, etc… A euforia e as esperanças experimentadas pela juventude, engajada ou não, daquele momento, estão resumidas ali. Há uma seqüência que sintetiza muito bem essa relação. Dico (Selton Mello), claramente o alter ego de Walter Lima, porque além de cineasta é também de Niterói, emana de sua boca a crítica que qualquer cinemanovista poderia ter feito ao movimento musical de João Gilberto naquela ocasião.  Na verdade, encontramos nessa cena a repetição de um velho clichê. Clichê que nos lembra o depoimento de Cacá Diegues em Que Coisa Mais Linda (Dir: Paulo Thiago, Brasil, 2005), no qual ele afirma: “a Bossa Nova queria mostrar o Brasil que o Brasil gostaria de ver e o Cinema Novo , o Brasil que o Brasil não queria conhecer”.  O personagem de Selton fala: “o problema de vocês é que tem muito barquinho, muito banquinho, muita tardinha, muito inho”. O personagem cineasta pede aos instrumentistas menos contemplação e mais engajamento ideológico.  Dico é, como Walter Lima e Cacá, um cineasta-autor comprometido, mas que se relaciona e tem fortes laços afetivos com os integrantes do movimento “alienado”. Dico é o único do grupo de amigos que não é músico, que não se expressa através dos sons. A sua linguagem, diferente da dos demais, é articulada por imagens e são justamente elas, e nao os sons, que compõem a nossa memória.

Dico é o homem do registro, é o homem com a câmera. Enquanto seus amigos tocam, ele filma. Ele é o responsável por eternizar os momentos de criação musical de seus companheiros. Se, no passado, era ele  quem captava as imagens, agora, no presente, ele tenta recuperá-las. A película, como a nossa memória, também se perde e se deteriora ao longo do tempo. Dico, hoje um cineasta veterano como Walter Lima, procura restaurar esse precioso material. Walter realiza exatamente o mesmo feito com o seu Os Desafinados. O diretor almeja recuperar, restaurar, restituir, um material bruto que tinha ficado na prateleira. Essa estratégia de recuperação, de releitura dos anos 60 e 70, se carrega nos traços autobiográficos que a leitura da sinopse nos fez prever, ela maneira em suas doses de nostalgia. É claro que, como não poderia deixar de ser, Os Desafinados é nostálgico e saudosista , porém ele não faz desses elementos a sua principal motivação. O realizador, ao contrario de Cacá Diegues em O Maior Amor do Mundo (Brasil, 2006), não olha para o passado negando o presente. Em Os Desafinados, o passado não é necessariamente superior ao presente. E é precisamente essa relação de valores que impede que a nostalgia presente no filme seja devastadora e excludente. Ela está ali não como desejo de retorno e sim como uma ferramenta de celebração à vida.

E vida é algo que não falta em Os Desafinados. No filme ela é composta por amores e amigos, seus dois temas fundamentais. O amor, o sentido por Joaquim (Rodrigo Santoro) e Glória, e a amizade, a compartilhada pelos 5 rapazes. Walter Lima Júnior, depois de quase 10 anos sem filmar, realiza uma grande homenagem aos seus amigos, aos seus amores e principalmente, à sua geração. Geração que, se em um primeiro momento é retratada na época de seus “verdes anos”, logo depois é vista em sua maturidade nos anos mais duros da ditadura militar. Glória volta ao Brasil em 1975 e reassume o comando dos vocais do conjunto, re-acendendo assim o dilema de Joaquim, dividido entre ela e sua esposa. O final nos explica a tragédia de Joaquim, antes apenas sugerida ao espectador.  Se ele não aparecia no presente, agora já sabemos o porquê. As lacunas narrativas de Os Desafinados são lentamente preenchidas no vai-e-vem promovido entre o passado e o presente. Vai-e-vem que prende eficientemente a nossa atenção ao longo de toda a projeção. O presente é, então, além do ponto de partida, o de chegada. Ele é o ponto final narrativo que, assim como o passado, é celebrado e cultuado. Os músicos estão juntos mais uma vez e, agora, uma outra câmera, mais moderna que há 40 anos, está presente para eternizá-los.

Estevão Garcia