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- COMPETITIVA IBERO-AMERICANA DE FICÇÃO
O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, de César Charlone e Enrique Fernandez, Uruguai/França/Brasil, 2007)
Exibido no último Festival do Rio, o filme que marca a estréia do fotógrafo
uruguaio-brasileiro César Charlone na direção inaugurou hoje a competitiva de longas-metragens
ibero-americanos de ficção. O Banheiro do Papa lembra muito o último filme de Carlos Sorín (El camino de San Diego, Argentina, 2006),
também projetado no Festival do Rio de 2007, o que já o situa de imediato em um
determinado nicho de produção freqüente no cinema latino-americano atualmente.
O longa de César Charlone e Enrique Fernandez, assim como o de Sorín, adota como principal estratégia de comunicabilidade a escrita de uma parábola
de superação. A confecção de tal escritura é, em ambos os casos, bem acabada e
fundada basicamente nas mesmas tradições cinematográficas: o cinema de gênero
levado a cabo na cinematografia do
continente (notadamente o melodrama) e uma certa apropriação/diluição da
cartilha do neo-realismo italiano (principalmente na direção de atores e na estruturação
de um determinado pano de fundo “social”).
Sem esquecer em nenhum momento o imperativo básico e prioritário de cativar o
espectador, os dois filmes constroem suas narrativas ancoradas na relação
estabelecida entre homem e espaço. O conflito básico está na luta travada por
seus protagonistas para superar a adversidade imposta pelo meio social onde
vivem. Se no filme de Sorín a fábula se centra no percurso de um humilde
torcedor para levar um presente a Diego Maradona, aqui, a trajetória de sacrifícios
do protagonista também está relacionada a uma figura pública. No filme
argentino, trata-se do famoso e polêmico jogador de futebol, em O Banheiro do Papa, do
Papa João Paulo Segundo. Se em Sorín a relação personagem-figura pública
está fundamentada na admiração e no afeto e, em certo sentido, no fanatismo, aqui a relação se baseia em anseios lucrativos. Nada de mal
nisso, mas o filme perde grande parte de sua metragem em uma introdução excessiva, na qual nos é delineado detalhadamente o choque entre os personagens e a escassez
material destes. A visita do Papa àquela pequena e “anônima” cidade situada na fronteira
entre o Uruguai e o Brasil, é um sinônimo de redenção, não espiritual, mas
financeira.
O que move os personagens e os fazem desejar a presença do Papa não é o que ele
representa e simboliza em si, e sim o que ele pode lhes trazer de benefícios econômicos. Em El camino de San Diego, a narrativa se
encaminha para nos dizer que, apesar da miséria, o homem ainda pode sonhar e
correr atrás destes, em O Banheiro do Papa, a mensagem que fica é
que o desejo de vencer as dificuldades proporcionadas por um meio hostil não
deve acabar, até porque, estas mesmas dificuldades parecem não ter fim. E é
justamente aí que reside a diferença central entre os dois longas. O torcedor
fanático de Sorín consegue chegar ao hospital onde o seu ídolo está internado e
realiza o ato de entregar o presente ao segurança
da clínica. Em O Banheiro do Papa, a
resolução do roteiro nos revela um gigantesco fracasso. Todo o sacrifício dos
personagens e de todos da comunidade acabam sendo em vão. O investimento de
que eles lançam mão não lhes dá nenhum retorno. Vemos imagens de “anônimos” da cidade ao lado de
alimentos estragados. O Papa, irremediavelmente, não trouxe redenção econômica.
O protagonista, furioso, não tendo como agredir a “vossa santidade”, desconta
em sua imagem que aparece na televisão. E o mais curioso nesse final do filme, não totalmente
surpreendente ou demolidor de protocolo porque está justificado pelo letreiro
inicial que diz “baseado em fatos reais”, é que tudo nos sugeria um desfecho
feliz. Se isolarmos a “jornada rumo a superação”
dos protagonistas de El camino de San
Diego e de O Banheiro do Papa e
enfocarmos na ultrapassagem de cada uma das “barreiras” encontradas no meio do caminho pelos dois ,
constataremos que, pelas regras do gênero, os dois filmes nos proporiam a mesma resolução. Mas O Banheiro do Papa, timidamente,
procura quebra essa expectativa. Se não vemos o êxito do protagonista e a alegria do
“dever cumprido” estampado na sua face, encontramos um olhar sobre o fracasso
pouco freqüente no cinema, no qual ele não é algo limitador e imoblizante, e sim um
propulsor para o inicio de uma nova jornada. Em O Banheiro do Papa, o seu “herói” tem o direito de fracassar e sua
narrativa pode, sem problemas, terminar assim.
Estevão Garcia
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