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- COMPETITIVA MEXICANA DE FICÇÃO
Aurora Boreal (Sergio Tovar Velarde, México, 2007)
Vídeo-diário de uma
morte mais do que anunciada
Logo no primeiro plano de Aurora Boreal temos um certo estranhamento, porque a imagem desfocada, trêmula e
“videográfica” nos transporta para uma estética amadora e doméstica. Corta, e,
no plano seguinte, já nos é dada a explicação. Um menino (Mariano), de mais ou
menos uns 14 anos, olha para a câmera e se apresenta. A câmera do filme é a
câmera de seu protagonista adolescente. Ele não apenas será o narrador como
também o “produtor” das imagens “caseiras” que veremos nos próximos 78
minutos. Essa estratégia, de simular um
material de registro amador e através dele contar uma estória, está longe de
ser uma novidade. Um número considerável de filmes já realizou esse artifício;
lembro rapidamente de A Bruxa de Blair (Dir: Daniel Myrick, Eduardo Sánchez, EUA, 1999). Se, por um lado, trata-se de um recurso
que pode oferecer uma grande possibilidade de experimentação, por outro, ele é
limitante, porque o cineasta não pode sair das regras que impôs para si. Uma
vez optando em “transformar” a imagem que produz em uma imagem produzida por um
outro, o realizador não terá a oportunidade de desistir ou
voltar atrás no meio do caminho. É necessário muito cuidado e um mínimo de talento para não cair
na própria armadilha, armada automaticamente por esse jogo. E talento é algo que, decididamente, Sergio Tovar não
tem.
O primeiro conflito que surge por meio dessa estratégia de composição é o seguinte: o
choque travado entre o tom realístico-documental da estética do “registro” e
o que é encenado através dele. Tovar, de imediato, já cai nessa arapuca. Quando
Mariano vai entrevistar a avó, toda a precariedade da imagem, provocada por seu
parco manejo técnico, se contrasta com a evidente super-atuação da velhinha. Em outro momento, o protagonista está
sentado em uma praça e em off pede
desculpa ao espectador dizendo que o seu vídeo “não é totalmente real”. Segundo
ele, a falta de realidade de seu material está no fato de que “quando uma
pessoa sabe que está sendo filmada, ela subitamente se transforma em um ator”.
Ilustrando essa fala, nós vemos os transeuntes da praça se dando conta que
estão sendo filmados e logo se “preparando” para serem bem captados pela
câmera. Dificilmente alguma construção poderia soar mais didática e artificial
do que essa.
O segundo problema de Aurora Boreal é
mais de ordem temática do que formal, porém, ele também se imbrica inevitavelmente com sua escolha
estética. Mariano é um adolescente que quer se matar e a principal motivação da
realização de seu vídeo-diário é justamente registrar o cotidiano de seus
últimos dias para assim poder justificar o que o levou a praticar tal ato. Ou
seja, seu diário audiovisual serviria como uma espécie de testamento, que
sendo visto por seus potenciais espectadores (a sua família) depois de sua
morte, apresentaria a explicação de sua morte evidenciada pela articulação audiovisual de sua supostamente
atormentada vida. Porém, além de ser um diário filmado, o vídeo também é um
documentário. O protagonista entrevista uma série de pessoas e faz perguntas
como: “você alguma vez já pensou em suicídio?”, “você acha que a vida vale a
pena?”. Portanto, tanto quando ele se expressa pela sua própria voz como quando
ele oferece espaço para a voz de seus entrevistados, o movimento operado por
Mariano é sempre o de justificar e enfatizar a sua decisão. E essa
justificativa se estende, de forma reiterativa e pouco criativa, ao longo de
todo o filme.
E a questão é: o menino vai, de fato, se matar? No caso afirmativo, o filme
ficará inacabado? Quem irá terminar o filme? No caso negativo, é necessário
explicar de maneira convincente essa mudança de posição. O fato é que até o
final do longa, o moleque, sem ambigüidades, afirma categoricamente que vai se
suicidar. A sua resolução aparenta ser irrevogável. Logo, a todo momento, ele
torra a paciência do espectador dizendo que vai se matar e nunca se mata. Ele continua
vivo e, para o nosso sofrimento, continua filmando. Ficamos, então, na espera de
que o filme se interrompa abruptamente ou que ocorra alguma reviravolta
surpreendente. Nenhuma das duas opções acontece. Enquanto isso, o garoto chato
permanece falando que vai sair dessa para a melhor. E eis que surgem outras
situações: Mariano foge de casa e se esconde na casa do amigo “punk” e
“drogado”. O amigo, por não pagar os traficantes, é intimidado por eles até que
sofre uma agressão que o deixa à beira da morte. Tudo sempre registrado pela
câmera incansável do protagonista. A frieza de Mariano parece ser inabalável.
A alternativa que aponta é a seguinte: sensibilizado com a morte do amigo, ele
optará por permanecer vivo e Aurora
Boreal, finalmente, acabará. Que nada. Ele continua fiel às suas
convicções. Além da repetição e das muitas voltas que não chegam a nenhum
lugar, outra característica marca Aurora
Boreal: a absoluta falta de carisma de seu personagem principal. De fato,
seria complicado um adolescente deprimido e auto-destrutivo ser carismático, e,
mais complicado ainda, ele conseguir promover algum tipo de identificação com
o espectador. Porém, em um filme estruturalmente “clássico narrativo”, narrado
em primeira pessoa de forma cronológica, cujo narrador-protagonista é
onipresente, a sua completa falta
de simpatia, irremediavelmente,
resulta em uma experiência no mínimo enfadonha para o espectador. E é
exatamente isso que Aurora Boreal concretiza.
Estevão Garcia
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