XXIII FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINE EN
GUADALAJARA

Cobertura Diária

- COMPETITIVA MEXICANA DE FICÇÃO
Aurora Boreal (Sergio Tovar Velarde, México, 2007)

Vídeo-diário de uma morte mais do que anunciada


Logo no primeiro plano de Aurora Boreal temos um certo estranhamento, porque a imagem desfocada, trêmula e “videográfica” nos transporta para uma estética amadora e doméstica. Corta, e, no plano seguinte, já nos é dada a explicação. Um menino (Mariano), de mais ou menos uns 14 anos, olha para a câmera e se apresenta. A câmera do filme é a câmera de seu protagonista adolescente. Ele não apenas será o narrador como também o “produtor” das imagens “caseiras” que veremos nos próximos 78 minutos.  Essa estratégia, de simular um material de registro amador e através dele contar uma estória, está longe de ser uma novidade. Um número considerável de filmes já realizou esse artifício; lembro rapidamente de A Bruxa de Blair (Dir: Daniel Myrick, Eduardo Sánchez, EUA, 1999). Se, por um lado, trata-se de um recurso que pode oferecer uma grande possibilidade de experimentação, por outro, ele é limitante, porque o cineasta não pode sair das regras que impôs para si. Uma vez optando em “transformar” a imagem que produz em uma imagem produzida por um outro, o realizador não terá a oportunidade de desistir ou voltar atrás no meio do caminho. É necessário muito cuidado e um mínimo de talento para não cair na própria armadilha, armada automaticamente por esse jogo. E talento  é algo que, decididamente, Sergio Tovar não tem.

O primeiro conflito que surge por meio dessa estratégia de composição é o seguinte: o choque travado entre o tom realístico-documental da estética do “registro” e o que é encenado através dele. Tovar, de imediato, já cai nessa arapuca. Quando Mariano vai entrevistar a avó, toda a precariedade da imagem, provocada por seu parco manejo técnico, se contrasta com a evidente  super-atuação da velhinha. Em outro momento, o protagonista está sentado em uma praça e em off pede desculpa ao espectador dizendo que o seu vídeo “não é totalmente real”. Segundo ele, a falta de realidade de seu material está no fato de que “quando uma pessoa sabe que está sendo filmada, ela subitamente se transforma em um ator”. Ilustrando essa fala, nós vemos os transeuntes da praça se dando conta que estão sendo filmados e logo se “preparando” para serem bem captados pela câmera. Dificilmente alguma construção poderia soar mais didática e artificial do que essa.

O segundo problema de Aurora Boreal é mais de ordem temática do que formal, porém, ele também se imbrica inevitavelmente  com sua escolha estética. Mariano é um adolescente que quer se matar e a principal motivação da realização de seu vídeo-diário é justamente registrar o cotidiano de seus últimos dias para assim poder justificar o que o levou a praticar tal ato. Ou seja, seu diário audiovisual serviria como uma espécie de testamento, que sendo visto por seus potenciais espectadores (a sua família) depois de sua morte, apresentaria a explicação de sua morte evidenciada  pela articulação audiovisual de sua supostamente atormentada vida. Porém, além de ser um diário filmado, o vídeo também é um documentário. O protagonista entrevista uma série de pessoas e faz perguntas como: “você alguma vez já pensou em suicídio?”, “você acha que a vida vale a pena?”. Portanto, tanto quando ele se expressa pela sua própria voz como quando ele oferece espaço para a voz de seus entrevistados, o movimento operado por Mariano é sempre o de justificar e enfatizar a sua decisão. E essa justificativa se estende, de forma reiterativa e pouco criativa, ao longo de todo o filme.

E a questão é: o menino vai, de fato, se matar? No caso afirmativo, o filme ficará inacabado? Quem irá terminar o filme? No caso negativo, é necessário explicar de maneira convincente essa mudança de posição. O fato é que até o final do longa, o moleque, sem ambigüidades, afirma categoricamente que vai se suicidar. A sua resolução aparenta ser irrevogável. Logo, a todo momento, ele torra a paciência do espectador dizendo que vai se matar e nunca se mata. Ele continua vivo e, para o nosso sofrimento, continua filmando. Ficamos, então, na espera de que o filme se interrompa abruptamente ou que ocorra alguma reviravolta surpreendente. Nenhuma das duas opções acontece. Enquanto isso, o garoto chato permanece falando que vai sair dessa para a melhor. E eis que surgem outras situações: Mariano foge de casa e se esconde na casa do amigo “punk” e “drogado”. O amigo, por não pagar os traficantes, é intimidado por eles até que sofre uma agressão que o deixa à beira da morte. Tudo sempre registrado pela câmera incansável do protagonista. A frieza de Mariano parece ser inabalável. A alternativa que aponta é a seguinte: sensibilizado com a morte do amigo, ele optará por permanecer vivo e Aurora Boreal, finalmente, acabará. Que nada. Ele continua fiel às suas convicções. Além da repetição e das muitas voltas que não chegam a nenhum lugar, outra característica marca Aurora Boreal: a absoluta falta de carisma de seu personagem principal. De fato, seria complicado um adolescente deprimido e auto-destrutivo ser carismático, e, mais complicado ainda, ele conseguir promover algum tipo de identificação com o espectador. Porém, em um filme estruturalmente “clássico narrativo”, narrado em primeira pessoa de forma cronológica, cujo narrador-protagonista é onipresente, a  sua completa falta de  simpatia, irremediavelmente, resulta em uma experiência no mínimo enfadonha para o espectador. E é exatamente isso que Aurora Boreal concretiza.

Estevão Garcia