THE EXILED BUNCH
Johnnie To vs. Sam Peckinpah

A seqüência de fotogramas abaixo é um duelo de imagens, um mash up visual entre Johnnie To e Sam Peckinpah. São fotogramas dos filmes Exiled (2006) e The Wild Bunch (1969). De um lado um gangster western moderno de movimentos fluidos e atmosferas vaporosas, do outro um clássico produto de um momento em que o cinema mobilizava tudo que havia a seu dispor para encontrar os aspectos físicos (e não apenas gráficos) da violência. Johnnie To presta homenagem explícita a The Wild Bunch, sobretudo nos minutos finais do filme, quando os quatro cavaleiros do apocalipse enfrentam o exército inimigo de peitos abertos e a violência resultante é encenada como um transe. Aquela matança não terá recompensa material, o ouro já ficou para trás. Os heróis sorriem para o inferno que os agurda. O banho de sangue que encerra Exiled ocupa o tempo de vôo de uma lata de Red Bull: todos se aniquilam mutuamente no intervalo entre a subida indefinida da latinha e, atingido o ponto mais alto de sua trajetória, sua volta ao chão. A explosão da violência, em To, ganha essa dimensão de divertimento, de virtuosismo prazeroso, lúdico. Em Exiled ele se afasta um pouco do peso político do dístico Election (onde o crime é uma economia e vice-versa). Mesmo a mestria da mise en scène insiste em seu aspecto de leveza, e a câmera parece flutuar, infundir-se nos cenários e evaporar como um álcool. Como em The Wild Bunch, as cenas de descanso e as cenas de convulsão se alternam enquanto a figura de autoridade (representada, em Exiled, por um policial medroso que fica contando as horas que faltam para sua aposentadoria) acusa, no fim das contas, uma lacuna, uma latência de poder onde cada um (bad guy ou mocinho bandidos todos são) vai se alojar temporariamente. Exiled põe em harmonia uma tendência estática-posada-blasé dos personagens com um descontrole do mundo que os circunda. Assim como as coreografias dos tiroteios são um misto de manipulação precisa das leis físicas, chegando ao cúmulo de modular a gravidade de acordo com o ritmo da cena (na já citada queda da latinha de Red Bull), e desenquadramento, desorientação, movimentos explosivos que ultrapassam os limites da imagem. O inusitado do filme está nisso: um formalismo tranqüilo e febril ao mesmo tempo. Johnnie To comprova, mais uma vez, que forma e força não são coisas antagônicas.














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Luiz Carlos Oliveira Jr.