CORPOS (E ALGO MAIS) EM EVIDÊNCIA
31 de Dezembro de 2007

A edição de janeiro da revista Playboy francesa acaba de chegar às bancas da França, trazendo na capa – e, claro, nas fotos – a atriz Ludivine Sagnier. A edição, que segundo a editoria da publicação “celebra a necessidade da criação de um índice para o que acontecerá em 2008”, é a terceira do novo projeto editorial da revista. Em novembro, ela causou enorme furor ao trazer em sua capa ninguém menos do que Juliette Binoche, musa de uma verdadeira atitude cinematográfica. Em dezembro, foi a vez da supermodelo e agora também atriz Julie Ordon. Agora, chega às lojas Ludivine. Isso junta a Playboy francesa à... brasileira no grupo das únicas Playboys nacionais no mundo a – diferentemente também da matriz americana – publicarem fotos de mulheres famosas fora do campo da beleza (modelos). Mais que isso, são estrelas de cinema o que a Playboy da França estampa em suas fotos de nus. E mais ainda, todas registradas por grandes fotógrafos, todas registradas em ensaios que dificilmente fugiriam a exposições de arte contemporânea – corpos fora de foco, poses improváveis, mais rostos do que sexos – e com entrevistas consistentes de cada uma delas atravessando as páginas de fotografias. As revistas, cujas capas aparecem reproduzidas abaixo, abrem um novo horizonte para o mercado desse tipo de publicação em seu país, claro. É uma estratégia de marketing importante. Mas é também uma ação simbólica curiosa, uma vez que recoloca – não apenas na França, dada a repercussão do movimento, que fez esgotar em seis dias a edição de Juliette Binoche – o papel do estrelismo e do poder na construção de uma noção de beleza. E de certa forma recoloca algo além da retina no aparelho de avaliação. Deixa de ser apenas uma noção plástica o definidor da beleza a ser exibida, e passa a ser também uma coordenação de fatores simbólicos, os papéis que a atriz vive, sua presença no plano, sua beleza nos filmes, sua atitude pública, sua posição no cinema.

Alexandre Werneck