| No início de
novembro aconteceu em Belo Horizonte o CineBH, no aprazível bairro de Santa
Tereza. Aconteceram alguns encontros bacanas por lá,
tanto de filmes quanto em mesas de debate – participei
de duas delas, numa mostra em que foram exibidos em
sessão dupla o clássico São
Paulo S.A., do Person,
e o bonito A Via Láctea, da Lina
Chamie, e que também passou
Eu Matei Lúcio Flávio em tempos de Tropa de Elite. O filme do José Padilha acabou sendo discutido em
boa parte dos debates, mas é um filme com questões tão
específicas que merece um artigo à parte. De todo modo,
o que me motivou a escrever essa crônica foi a participação em duas mesas que, de certa forma, trataram
dos espaços tidos pelos filmes brasileiros recentes.
Isso, somado à leitura de uma interessante entrevista
de Jorge Peregrino, o responsável pelas ações de
distribuição da Paramount na América Latina, me levou
a querer voltar a alguns pontos aqui na Contra. Para
registro.
Não pude, para meu azar, estar presente na abertura
nem na primeira mesa de debates, que contava com a presença
de vários realizadores mineiros. Na primeira mesa em
que participei lá em Belo Horizonte, no segundo dia
da Mostra, estive na boa companhia do Hernani Heffner,
do José Carlos Avellar e do
Inácio Araújo. No final o debate esquentou: que tipo
de filme deve ser estimulado no país e que tipos de
filme devem ser produzidos?
Inicialmente o Hernani fez um histórico naquele
nível fabuloso que a gente conhece e me levou a pensar
em algo que pode parecer evidente, mas precisa ser compreendido
para se entender o panorama atual: por conta de todas
as alterações na própria forma de ter acesso aos filmes,
o público de cinema mudou inteiramente seus modos de
acesso, seus gostos e seu repertório. Não foram poucos
os que sonharam com uma indústria de cinema no Brasil
e gastaram fortunas e anos nessa quimera – mas hoje
um sistema desse porte soa ainda mais irreal justamente
porque se trata de um sistema insustentável, que foi
parte de uma outra era. Os sistemas com maior nível
de produção dependem do apoio governamental ou de redes
de televisão. E por aqui, como sabemos, há essencialmente
um suporte estatal para a produção, com ainda incipientes
esquemas de difusão.
Já que a produção depende das esmolas do suporte estatal,
a questão da escolha dos filmes a serem apoiados volta
sempre à tona, e esse primeiro debate de que participei
não foi exceção. Um jovem curta-metragista
mais entusiasmado defendia que era preciso apoiar mais
filmes como O Invasor e que filmes como Carandiru nem deveriam ser feitos, na sua opinião. Bem, apesar de achar curioso que os filmes
citados não sejam muito recentes, comentei que acho
Carandiru um filme bastante interessante, como os leitores da Contra
já souberam através de um Cinema Falado, mas o sentido
geral do que ele disse (além, é claro, da empolgação,
sempre louvável, mesmo que eventualmente cansativa)
não me parece de todo errado. Avellar
ponderou que, na sua opinião, qualquer filme realizado é algo bom, porque
por pior que seja permite uma discussão sobre ele. Não
discordo dessa afirmação, cuja tendência aqui no Brasil
seria associar ao pensamento do Paulo Emílio, mas acho
interessante voltar a essa questão depois de ter lido
a entrevista do Jorge Peregrino, porque nela o distribuidor
aponta que é preciso diferenciar filmes “autorais” de
filmes “comerciais” – que os primeiros podem ser feitos
a fundo perdido, mas os segundos precisam apresentar
retorno de bilheteria, uma vez que é a isso que se propõem.
Creio que qualquer tentativa de conceituar o que seria
“autoral” em oposição ao que seria “comercial” seria
bastante frágil – no entanto, parece-me mais simples
diferenciar orçamentos altos de baixos orçamentos. Seria
simples e estimulante para o espaço dos filmes se na
nova versão da Lei do Audiovisual tivesse sido inserido
um item que exigisse alguma espécie de reinvestimento
da renda. Na atual estrutura de apoio filme a filme,
no entanto, não existe cinema popular ou comercial,
existem apenas ocasionalmente filmes-fenômeno, a uma
média aproximada de um por ano, como se sabe.
De todo modo, vale lembrar, sem nenhuma dose de novidade,
que nem o incentivo à produção nem a discussão sobre
filmes podem ficar pautados pela questão da bilheteria.
E, justamente por isso, a lógica do apoio às produções
de baixo orçamento faz muito mais sentido do que o benefício
a um cinema dito comercial que no
entanto dá prejuízo – digo que “faz mais sentido”
porque é mais coerente com um esquema de incentivo que
permite fenômenos eventuais, mas não organiza um sistema
em que os filmes estão em relação direta com as platéias.
(Talvez esse seja um comentário paradoxalmente repetitivo
e fora de época, uma vez que a Lei do Audiovisual já
foi prorrogada sem alterações nesse sentido).
No debate do dia seguinte, mediado pelo cinético Léo Mecchi, estiveram juntas pessoas
que representavam algumas tentativas de difusão dos
filmes, à margem do esquema de exibição em circuito
comercial: cineclubes, festivais, DocTV, pontos de cultura. A discussão
focava o fato de que cada vez há mais esquemas de difusão
dos filmes que ficam à margem do circuitão
se estabelecendo por aí – se o circuitão
está cada vez mais barra-pesada, então a solução para
a difusão é arrumar esquemas alternativos. Eu já tinha
comentado com o Léo noutra
ocasião que tenho tido a chance de ver como isso anda
rolando por conta das notícias que recebo sobre as exibições
do Conceição
– fiquei sabendo de esquemas de difusão em horários
alternativos, como faz o Cinecult, e dos esquemas de exibição em cineclubes que andam
acontecendo, por exemplo. No final do debate, o foco
na difusão pela TV levou a um questionamento sobre as
ações recentes do governo, que foi defendido pelo Mauricio
Hirata, diretor do programa DocTV.
Essa ação do MinC
de que o Mauricio participa é muito interessante, mas
ele ficou numa saia justa, até injusta, quando foi lembrada
a questão da exibição dos filmes incentivados na rede
pública de TV. Por que os filmes não são exibidos assim?
Seria injusto cobrar uma resposta do Mauricio Hirata,
que estava representando uma outra ação do MinC,
muito boa como já foi dito. Mas a TV é a questão inevitável
quando se pensa em difusão alternativa em larga escala.
Outra questão bem óbvia seria o uso da web.
Não seria interessante se os filmes incentivados se
tornassem disponíveis para download após alguns anos de janela comercial?
(Começo a ficar receoso de que esse texto se torne uma
coleção de idéias fora de hora... Mas não fora de lugar,
ao menos)
O segundo debate de que participei (e último em que
pude estar presente), com mediação do Ricardo Calil,
tratou de diálogos entre filmes de diferentes períodos
– a curadoria do cinético Cléber Eduardo, como já comentei,
juntou na programação filmes tematicamente próximos,
como São Paulo
S.A. e A Via
Láctea ou Menino do Rio e Houve Uma Vez Dois Verões (além de relembrar Eu Matei Lúcio Flávio em tempo de Tropa de Elite). Lina Chamie
falou sobre sua alegria em ver a reunião do seu filme
com o do Person em uma sessão dupla – algo que ela já havia comentado
com emoção quando apresentou o filme para o público
– e também falou sobre outras relações com obras diversas
que lhe ajudaram/inspiraram a produzi-lo. Como andei
tratando dessas relações entre filmes de épocas diferentes
em alguns trabalhos recentes (uma proposta de mostra,
um texto juntando Rio Zona Norte e Madame Satã, outro juntando O Signo
do Caos e Serras
da Desordem), tentei tratar não exatamente do que
aproxima os filmes, mas o que aproxima a própria origem
deles – o que têm em comum na perspectiva de que partem
para mostrarem seus mundos. O debate ficou animado pelos
questionamentos propostos pelos mineiros da mesa, os
professores Ataídes Braga
e Paulo Augusto Gomes. No caso do primeiro, Ataídes
comentou como as relações históricas imediatas entre
filmes são ao mesmo tempo redutoras e irrestritas, já
que outros filmes de temas semelhantes poderiam ser
usados, levando a outras relações
– Paulo Augusto, por sua vez, fez uma defesa do viés
autorista, considerando de
modo geral que essa perspectiva de diálogos não trata
das questões ligadas ao talento dos realizadores. A
partir de um comentário do mediador Calil
e de outro do Cléber, saí do debate com uma questão
na cuca, por conta da reincidência de algumas questões
que aparecem nos filmes de uma forma quase cíclica,
se esse termo já não estivesse contaminado demais ao
se falar de filmes brasileiros. Cheguei a comentar sobre
a relação que vejo entre O
Signo do Caos e Carnaval Atlântida, mas talvez tudo seja uma grande
refilmagem de Carnaval
Atlântida – e, eis o drama, agora sem Oscarito
nem Severiano para ajudar a dar certo.
A impressão final, como ciclo, dá a volta e se assemelha
ao início: a gente pode fazer filmes, mas sistema de
produção que possibilite um cinema “popular” ou “comercial”
só vai acontecer com espaço de difusão na TV e chance
de reembolso e reinvestimento
em novas produções. Sem isso, os filmes vão ser feitos,
mas só vão poder se espalhar pelas margens – e ocasionalmente
podem chegar à crista, que afinal é a margem superior
das ondas.
Daniel Caetano
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