ARTE.MOV, DIAS 2 E 3

Para começar, deixando as coisas menos crípticas do que no texto anterior (e dado o tempo maior para sedimentar as impressões), acho adequado dizer que, sim, em parte de todo o evento existe um pouco esse deslumbre, de um lado, com o desempenho tecnológico e um certo determinismo gauche/libertário/blasé de tentar fazer da contemporaneidade um espaço inteiramente diferente graças às novas tecnologias, e de outro lado o deslumbre utópico, também um bocado blasé, de opor-se e subverter a tecnologia visando a construção de focos de resistência. Quanto ao último, muito saudável, mas o que aparece como forte evidência é que os projetos são mais ambiciosos que os resultados, e de todas as experiências apresentadas (ou ao menos todas as que pudemos ver e ouvir sobre) todas apenas acenam com processos de interatividade e socialização, abusando mais do fetiche de incorporação do acaso, do contato com o diferente em espaços inusitados, da molecagem pretensiosamente considerada como subversão.

Um traço comum: paradoxalmente todos parecem se colocar como vanguarda de experiência artística, trabalhar na crista da onda da novidade, mas sentem a necessidade de se historicizarem, ou seja, se alinharem com movimentos do passado que já tematizaram ou trabalharam em sentido semelhante: assim, aparecem dada, surrealistas, letristas, situacionistas, Fluxus, Walter Benjamin, Baudelaire, Deleuze, Foucault, e dá-lhe vigilância, nomadismo, controle, superfície estriada, deriva, deambulação, como abre-te-sésamos de adesão ao círculo para-acadêmico (com cobranças e divergências bastante similares, no fundo, até) das discussões sobre as "artes móveis" ligadas aos processos tecnológicos. Muitos, em conversas, me parecem até descontentes com a situação (de conversas com membros do Hapax, Milena Szafir, etc.), mas ainda que pela negativa, aparentam situar-se dentro do processo. Uma exceção: Graziela Kunsch, que em fala & filme revela projetos instigantes (como o Mutirão/A.N.T.I. Cinema), provocativos e acima de tudo extremamente coerentes e cientes do grau de intervenção possível a partir de cada um dos projetos. Descoberta.

Quanto aos filmes do segundo dia, há o youtubável do dia, Os Incompreendidos de Isaac Chueke, que consiste basicamente em zombar de mendigos de fala incompreensível pela loucura ou pela bebedeira. Os aplausos confirmam que a bobagem escrota tem seguidores (como se já não soubéssemos). Asas, Sombras, Bicos e Unhas de Sonhos, já exibido em alguns outros lugares, é um minicurta de Beto Brant em que um artista venezuelano cita Pablo Neruda, em preto-e-branco, entrando em fusão com desenhos circulares num painel. O efeito fica interessante, mas não vai muito além. Inserções Culinárias em Circuitos Ideológicos, de Pablo Paniagua, faz uma piada interna com Cildo Meireles, colocando manteiga em forma de garrafinha de Coca-Cola para ferver numa frigideira. Mas os dois destaques do dia ficam por conta dos dois últimos exibidos, Wireless, uma vinheta (26 segundos) brincando com o termo, retirando em animação o fio elétrico e fazendo cair dois passarinhos que descansavam tranqüilamente. Por fim, A Implacável Poluição Visual, de Shiron e Kid, remonta a alguns projetos de terrorismo de mídia dos últimos anos, como o grupo Telephone Colorido pixando outdoors de propaganda política. O filme consiste basicamente em colocar algumas figuras desferindo golpes e derrubando placas com propagandas de candidatos. Não inédito, não especialmente cativante, mas cativante ainda assim. O suficiente para ser o destaque da sessão. Sobre a terceira parte da competitiva, exibida ontem, comento da próxima vez, já que cheguei no meio da sessão (coisas boas, coisas boas). Até amanhã.

Ruy Gardnier