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O Arte.Mov,
instalado ao redor do Parque Municipal, no Centro de
Belo Horizonte, não é um festival de cinema. Na definição,
é um festival de "arte em mídias móveis".
Mas na verdade é mais que isso. É acima de tudo um centro
de questionamentos – e exibição/exposição
de obras – em torno de artes interativas, de intervenção,
de reocupação dos espaços urbanos e tudo mais que a disseminação
de dispositivos de filmagem e comunicação provocou ou
possibilitou em termos de propostas e criação. Materiais
híbridos, entre jogos, projetos de ocupação lúdica ou
política/social de espaços,
experimentos de gravação com definição baixíssima, etc.
Então, passear pelo Palácio das Artes, pelo Conservatório
da UFMG e pelas outras áreas que abrigam o festival
é um tanto diferente de estar num festival de cinema.
A começar porque dá um pouco essa impressão de que no
festival mesmo as sessões competitivas
não carregam consigo a mesma hierarquia de outros festivais,
mas igualam-se em importância com todo o resto, as exposições,
as palestras, as mesas-redondas. Assim, ainda que não
seja de forma alguma uma maratona de coisas a fazer
(a programação, de fato, é bem coesa e os horários são
organizadinhos), dá sempre
essa impressão de simultaneidade, de que em algum outro
lugar pode se estar perdendo alguma coisa de muito interessante.
Primeira atividade do dia (ainda que a própria conversa
na van do aeroporto de Confins
até o Hotel Othon, com o palestrante
José Marcelo Zacchi, do Overmundo, e com os artistas Christian Caselli
e Paulo Paniagua, ambos
com filmes na mostra competitiva, já tenha passado
por diversos dos assuntos tratados nos debates: movimentos,
crescimentos e fenômenos demográficos, subversão dentro
de espaços bem codificados como a televisão, etc.):
Simpósio sobre "Distopias
e comunidades emergentes". Não sou crítico de simpósio,
e talvez nem haja tanto propósito em fazer exatamente
"crítica" de debates numa cobertura de festival
numa revista de cinema, então passemos correndo por
aí dizendo que, associado a falas extensas e um tanto
sem foco/interesse de um ou
outro, e de uma certa falta de jeito e de comunicação
por parte da produção (parte de fios, controles remotos,
ligação com cabos e iPods), pareceu que a curadoria preferiu reunir profissionais
que no fundo não tinham nada ou quase nada em comum
a trocar em matéria de informação, e o que se viu foi
uma espécie de apresentação do trabalho de cada um.
O que incomoda um pouco nas falas da platéia, da curadoria,
nos corredores, é um certo deslumbre com as "novas"
palavras, sejam elas do terreno das novas tecnologias,
de novas formas de organização (coletivo, smartmob,
viral, etc.) e de terreno filosófico (remoendo infinitamente
Deleuze – diversas vezes sem nem dar o crédito – e aplicando-o
a qualquer coisa que seja), como se todas essas coisas
tão distintas no fundo fizessem mais parte de uma pose,
de uma necessidade de estar in do que numa autêntica
postura filosófica/individual/política. Os tipos de questionamento
são encantadores, as propostas de interação social e
política são incríveis, mas parece que são os mais pragmáticos,
mais voltados em falar sobre seus projetos do que em
criar uma justificativa rizomática
desterritorializada sobre
eles, que sobressaem (como Zacchi
no primeiro dia ou Brian House
no segundo, mas isso vamos deixar
para amanhã). Não é tanto o direcionamento ou as preferências
filosóficas que incomodam, é principalmente a mesma
referência de repertório sempre, que deixa tudo um tanto
redundante.
Vamos à mostra competitiva, então. Seleção desigual,
como sempre em sessoes de curtas, mas fascinante pelo terreno em que se instalam.
Primeiro de tudo, uma diferença brutal em relação ao
que geralmente vemos como "filmes". A pouca
definição dos dispositivos de filmagem, associada à
limitação de três minutos para cada filme, faz com que
essas obras remetam diretamente às experiências de primeiro
cinema, quando ainda não se tinha "descoberto"
os principais meios expressivos que fizeram a linguagem
do cinema (decupagem, montagem,
noção de plano, mais precisamente). A maioria dos filmes
se furta à lógica de construção espacial, consistência
espaço-temporal, mise-en-scène.
O que há, de certa forma, são sempre atrações. Algumas,
bobinhas, youtubáveis, como Olé de Thales Alves de Quadros
ou outubro, manhã de sábado, 32 graus e agora?, de Robert
Frank e Mariana Zande, que
constróem seus efeitos a partir
de mímicas ou discursos que buscam cativar pela graça
imediata e nada mais. Alguns tentam cativar pela plasticidade
da imagem ou por sua persistência, como Tocata e
Fuga de Nélio Costa ou os mais felizes Zoi de Nelson Andrade e sobretudo
The Nature
de Eduardo Zonza. O Diário Secreto de Jane Joy,
inesperada incursão de Neville
d'Almeida (co-dirigindo com
a atriz Tamur Aimara)
no mundo dos filmetes móveis,
aproveita-se do dispositivo como mais uma possibilidade
de afrontar e provocar pelo libidinoso, e ainda que
não seja especial, constrói uma coerência com o formato
– gratuidade, espetáculo, vulgaridade – extremamente
instigante. Disco, de Lea Van
Steen, filma pés de porcos
e constrói uma pista techno
suína com música eletrônica forte e barulhos
de porcos na trilha sonora, criando um filme forte,
preciso, irônico sem precisar ficar apontando
dedo. mpegmovie
de Graziela Kunsch é um
exercício prático de autocrítica sobre disseminação
de imagens, remetendo o espectador ao próprio ato de
registro, filmando turistas que fotografam e filmam
tudo o que vêem pela frente, e criando pela ausência
de som o espaço de um desconforto crítico sobre o gesto
voluntário, talvez mesmo vaidoso e fútil, de filmar
(ou tudo filmar, ou filmar sem saber exatamente para
quê). Com mpegmovie,
a mente naturalmente passa por Remedial
Reading Comprehension (1975),
de George Landow, obra seminal
de provocação contra a letargia do consumo passivo de
imagens. Mas o destaque do dia, cinema de atrações levado
a seu limite mais elaborado, foi [caixa], de Rodrigo
Pazzini e Vicente Pessoa, que no fluxo de um único plano faz
um micro system tocar
"Pour Elise" e bota sua câmera
a subir uma escada e depois rodar, rodar, rodar, desinstalando
o espaço, fluidificando-o até que uma imagem final,
uma caixinha de música com bailarina rodando, ressignifica
todos os elementos vistos até então. Filme de sacação,
de viradinha final de roteiro (ainda que sem roteiro
propriamente dito), ok,
mas de construção tão perfeita e inteligente que remete
(ainda que a distância histórica e acima de tudo o pioneirismo
os separe definitivamente) ao fantástico The
Big Swallow (1903) de
James Williamson, marco de
sacação dos dez primeiros anos da história do cinema. É isso.
Amanhã tem mais.
Fiquem com Bruno Vianna na primeira entrevista relâmpago
da Contracampo (formato que tentaremos utilizar bastante
daqui pra frente), que disponibilizamos aqui
em áudio (arquivo de quase 6MB). Vianna
está apresentando Invisíveis, um projeto
em que os visitantes, munidos de celulares programados,
visitam o Parque Municipal e encontram personagens virtuais.
Os interessados podem conferir até domingo, sempre em
três horários: 11h, 14h e 17h.
Ruy Gardnier
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