POLLOCK AO REDOR DE JÚPITER

Existe esse ponto limítrofe onde a fotografia científica e a pintura abstrata se encontram. O máximo de progresso técnico de uma e o máximo de ousadia estética de outra se deparam com uma mesma "catástrofe" do visual, uma supressão brusca da perspectiva e do relevo geométrico, e uma propensão a formas originadas de emaranhamentos, misturas, entropia. Nas imagens de superfícies e texturas de planetas distantes, a aventura científica se conecta à aventura da arte moderna. Dentro da própria ciência, um curto-circuito já se estabelece antes: a medicina e a cosmologia criam uma esfera confusa em que fotografias de detalhes do corpo humano, lâminas microscópicas e fotografias de planetas terminam por se assemelhar. Um aspecto íntimo da pele, uma colônia de bactérias e uma lua de Júpiter podem render imagens parecidas. As fronteiras entre o grande e o pequeno se diluem. Em paralelo ao mouvement-fou da pintura moderna, a aceleração hiperbólica que leva o homem à conquista do espaço coincide com a aceleração do gesto pictural, de que o ápice é a action-painting. Não há mais distância ou horizonte, mas simplesmente um campo espacial sem começo nem fim, fora do tempo. Ultrapassada uma certa barreira da aceleração, ocorre uma perda da perspectiva e das distâncias, e também uma desaparição das figuras, que cedem lugar a traços, a trajetos indeterminados da cor. O macrocosmo contemplado pela astronomia pode vir a ter a mesma aparência da pintura de Pollock, que opera num nível molecular dos elementos plásticos. O gesto pollockiano descobre uma dimensão irreversível do processo no decurso do qual as cores e as matérias interagem e se transformam. A tinta é então suporte de um estudo de movimentos que se dão em camadas corpusculares da pintura. São trajetórias de colisão: um regime acelerativo da arte que extrapola os limites do visual e vai parar em Júpiter. A imagem lá obtida, por sua vez, desrealiza os contornos do legível e faz o caminho de volta, unindo-se ao expressionismo abstrato. No longe demais, na extremidade do sistema solar, a imagem que é possível captar se torna parente da pintura feita no perto demais, essa pintura atrelada à criação de um espaço essencialmente tátil, construído a partir não de um ponto de vista, e sim de uma interação corpórea com os materiais à disposição do artista. As imagens que vemos aqui ao lado, em suma, apresentam arte e ciência como duas formas de abstração.

Luiz Carlos Oliveira Jr.

 

 









Superfície de Europa, uma das principais luas de Júpiter


Superfície pollockiana