HOUSE
David Shore, House, M.D., EUA, 2004-?

De Six Feet Under eles tiram o prólogo que conta a história do personagem que vai parar no universo da série (e por vezes com a mesma irritante virada de expectativa pra saber quem será). De CSI eles tiram a intriga da tecnologia de ponta sendo usada tão vertiginosamente que o espectador mal pode acompanhar os personagens em suas conclusões. De E.R. o ambiente médico, de Scrubs – ugh! – o humor hospitalar. Na verdade, House (ou House, M.D., nome completo) tinha tudo para ser um daqueles veículos ridículos que misturar um programa de sucesso com outro, como os projetos ridicularizados no começo de O Jogador de Robert Altman. Mas a série, que acaba de terminar sua terceira temporada no Brasil (Universal Channel), tem uma personalidade toda própria e ao longo de suas temporadas adquiriu um culto impressionante de devotos. A razão do charme? Muito simples. O personagem principal, dr. Gregory House, e o ator que lhe dá vida, Hugh Laurie. A série toda, cada paciente que chega, cada situação que aparece, tudo é um motivo para o Dr. House exercitar seus dons para tiradas espirituosas e para experimentação radical na busca de diagnósticos para cada moléstia ou mal desconhecido que acomete seus pacientes. A ponto, inclusive, da série se desenvolver muito mais como uma comédia do que qualquer outra coisa. Mas é nessa imbricação da comédia e de "outra coisa" que a série começa a ficar problemática, nesse duplo registro de ao mesmo tempo se assumir e não se assumir inteiramente como comédia.

Porque Greg House e seu sarcasmo extravagante são decididamente o coração da série, e quanto mais os episódios e as intrigas tendem a se fechar sobre ele, a série ganha. Mas, por outro lado, existem os numerosos diversionismos narrativos que tendem a dar um caráter mais novelesco à trama, trabalhar evolução de personagens, mudanças de perspectiva, enriquecer as características dos personagens secundários, etc. Tudo esse esforço, que seria louvável em trocentas outras séries, fica completamente deslocado e trabalha contra o funcionamento de House. Pois, no fundo, não queremos que nada se modifique em relação ao que lá está. O eterno presente com ligeiríssimas modificações que povoa o imaginário da sitcom (Married with Children, Seinfeld) é o perfeito para House: o episódio começa, aparece o mistério, surgem complicações, o mistério é descoberto, acabou e começa outro igualzinho. Mas, com medo da repetição, os produtores volta e meia arriscam tudo a perder, chegando a colocar intrigas que – horror! – persistem por três, quatro episódios. Na segunda temporada foi um magnata que queria assumir o controle do hospital para mandar House embora. Na terceira, um policial ofendido pelas costumeiras respostas ultrajantes de House que queria colocá-lo atrás das grades. Vale dizer, essas intrigas são responsáveis pelos momentos e episódios menos interessantes de cada temporada, e imprimem um peso que acaba com a leveza jocosa que o programa tem.

Nessa relação entre o assumir-se ou não como comédia, reside também uma ambigüidade de fundo sobre o personagem de House. Todos os outros personagens estão ali o tempo inteiro buscando incutir juízo nele, fazer com que ele perceba que não é um super-herói infalível, fazê-lo ter um coração, se importar com os outros, revelar seus sentimentos, etc. O próprio ponto-de-vista da série parece meio ávido em sua ânsia de fazer o herói curvar-se a sua finitude, a seu não-saber: inúmeras tentativas de psicologizá-lo, de torná-lo um personagem menos obscuro, mais compreensível pelo senso comum. Por sorte a série é ambígua, e até agora, ao menos, Greg House não fraquejou uma só vez, levando até o fim sua gaiata misantropia de Oscar Wilde de ambulatório, irredutível ao sentimentalismo e à tentação a tudo personalizar (profissionalmente ou alhures). Até o momento, todo o esforço feito para normalizar House só serviu para ele tornar-se a nossos olhos um personagem mais maldito, aquele com um mal incurável – e as dores na perna são apenas a expressão material, física dessa dor que na verdade é imaterial, espiritual – e que no entanto faz dessa dor uma condição de reafirmar sua personalidade ("A personalidade já era assim antes da dor", diz Cuddy aos auxiliares de House na segunda temporada).

Se quisermos brincar de Dr. Freud, diremos que House representa o homem ainda não inscrito na lei, não-castrado, um plenipotenciário Édipo manco ao qual o receituário de dos e don'ts não se aplica, que faz de seu saber ilimitado um uso lúdico. Equivaleria, portanto, a um estágio infantil, narcísico. Mas aí está justamente a graça da série, e que faz dela um objeto singular dentro de toda história de personagens anti-heróis cheios de hybris que sempre acabam de uma forma ou outra provando seu ponto: o espectador só pode acompanhar House e gozar com sua ilimitação de saber/prazer na medida em que ele mesmo se assuma como maldito, ateu, proscrito, herético, sem limiar de esperança ou outras soluções cor-de-rosa. O paradoxo fantástico de House é que ele goza dos mesmos privilégios que o espectador convencional (desprendimento, onisciência, prazer de desvendar) e ao mesmo tempo exige uma adesão anti-social, amoral entre espectador e personagem para que o gozo de um passe até o outro. Dessa forma, podemos até entender o porquê de tanta ambigüidade de rumos dentro das intrigas da série, episódio a episódio. É que ela tem um protagonista evidentemente subversivo dentro de uma estrutura mais convencional, que demanda uma certa dose de aparos em tudo que for muito brusco, chocante, excessivo. O nobre da série é que, ao invés de fazer reinar um sobre o outro, House negocia o tempo inteiro com as duas esferas, alternando entre padrão e subversão, sanção e eterno habeas corpus, jamais submetendo seu personagem definitivamente à provação e conseqüente à "aprendizagem" (da humildade, da finitude), mas volta e meia acenando para essa onisciência como um problema.

Irregular, ambígua, às vezes até meio conservadora, com medo do personagem que criou, a série House está longe de ser um modelo de excelência dentro das séries televisivas contemporâneas (esses seriam A Família Soprano, Deadwood, Arrested Development...). Mesmo em termos de escolhas visuais o programa tem altos e baixos, recorrendo volta e meia aos banais efeitos computadorizados de "dentro do corpo humano". Mas acima desse enorme saco de gatos de boas e más decisões, momentos velocíssimos e momentos de empacar pior que mula, paira o personagem do Dr. Gregory House com seu fatalismo bem-humorado. Mais forte do que o próprio programa que lhe dá vida, ele supera todas as irregularidades de construção dramática e ultrapassa todas as adversidades, erigindo-se ele mesmo como obra. E com sucesso, porque ele faz de nós seguidores.

Ruy Gardnier

 

 





Gregory House (Hugh Laurie) com seus três auxiliares