|
De
Six Feet Under eles tiram o prólogo que
conta a história do personagem que vai parar
no universo da série (e por vezes com a mesma
irritante virada de expectativa pra saber quem será).
De CSI eles tiram a intriga da tecnologia de
ponta sendo usada tão vertiginosamente que o
espectador mal pode acompanhar os personagens em suas
conclusões. De E.R. o ambiente médico,
de Scrubs ugh! o humor hospitalar.
Na verdade, House (ou House, M.D., nome
completo) tinha tudo para ser um daqueles veículos
ridículos que misturar um programa de sucesso
com outro, como os projetos ridicularizados no começo
de O Jogador de Robert Altman. Mas a série,
que acaba de terminar sua terceira temporada no Brasil
(Universal Channel), tem uma personalidade toda própria
e ao longo de suas temporadas adquiriu um culto impressionante
de devotos. A razão do charme? Muito simples.
O personagem principal, dr. Gregory House, e o ator
que lhe dá vida, Hugh Laurie. A série
toda, cada paciente que chega, cada situação
que aparece, tudo é um motivo para o Dr. House
exercitar seus dons para tiradas espirituosas e para
experimentação radical na busca de diagnósticos
para cada moléstia ou mal desconhecido que acomete
seus pacientes. A ponto, inclusive, da série
se desenvolver muito mais como uma comédia do
que qualquer outra coisa. Mas é nessa imbricação
da comédia e de "outra coisa" que a
série começa a ficar problemática,
nesse duplo registro de ao mesmo tempo se assumir e
não se assumir inteiramente como comédia.
Porque Greg House e seu sarcasmo extravagante são
decididamente o coração da série,
e quanto mais os episódios e as intrigas tendem
a se fechar sobre ele, a série ganha. Mas, por
outro lado, existem os numerosos diversionismos narrativos
que tendem a dar um caráter mais novelesco à
trama, trabalhar evolução de personagens,
mudanças de perspectiva, enriquecer as características
dos personagens secundários, etc. Tudo esse esforço,
que seria louvável em trocentas outras séries,
fica completamente deslocado e trabalha contra o funcionamento
de House. Pois, no fundo, não queremos
que nada se modifique em relação ao que
lá está. O eterno presente com ligeiríssimas
modificações que povoa o imaginário
da sitcom (Married with Children, Seinfeld)
é o perfeito para House: o episódio
começa, aparece o mistério, surgem complicações,
o mistério é descoberto, acabou e começa
outro igualzinho. Mas, com medo da repetição,
os produtores volta e meia arriscam tudo a perder, chegando
a colocar intrigas que horror! persistem
por três, quatro episódios. Na segunda
temporada foi um magnata que queria assumir o controle
do hospital para mandar House embora. Na terceira, um
policial ofendido pelas costumeiras respostas ultrajantes
de House que queria colocá-lo atrás das
grades. Vale dizer, essas intrigas são responsáveis
pelos momentos e episódios menos interessantes
de cada temporada, e imprimem um peso que acaba com
a leveza jocosa que o programa tem.
Nessa relação entre o assumir-se ou não
como comédia, reside também uma ambigüidade
de fundo sobre o personagem de House. Todos os outros
personagens estão ali o tempo inteiro buscando
incutir juízo nele, fazer com que ele perceba
que não é um super-herói infalível,
fazê-lo ter um coração, se importar
com os outros, revelar seus sentimentos, etc. O próprio
ponto-de-vista da série parece meio ávido
em sua ânsia de fazer o herói curvar-se
a sua finitude, a seu não-saber: inúmeras
tentativas de psicologizá-lo, de torná-lo
um personagem menos obscuro, mais compreensível
pelo senso comum. Por sorte a série é
ambígua, e até agora, ao menos, Greg House
não fraquejou uma só vez, levando até
o fim sua gaiata misantropia de Oscar Wilde de ambulatório,
irredutível ao sentimentalismo e à tentação
a tudo personalizar (profissionalmente ou alhures).
Até o momento, todo o esforço feito para
normalizar House só serviu para ele tornar-se
a nossos olhos um personagem mais maldito, aquele com
um mal incurável e as dores na perna são
apenas a expressão material, física dessa
dor que na verdade é imaterial, espiritual
e que no entanto faz dessa dor uma condição
de reafirmar sua personalidade ("A personalidade
já era assim antes da dor", diz Cuddy aos
auxiliares de House na segunda temporada).
Se quisermos brincar de Dr. Freud, diremos que House
representa o homem ainda não inscrito na lei,
não-castrado, um plenipotenciário Édipo
manco ao qual o receituário de dos e don'ts
não se aplica, que faz de seu saber ilimitado
um uso lúdico. Equivaleria, portanto, a um estágio
infantil, narcísico. Mas aí está
justamente a graça da série, e que faz
dela um objeto singular dentro de toda história
de personagens anti-heróis cheios de hybris que
sempre acabam de uma forma ou outra provando seu ponto:
o espectador só pode acompanhar House e gozar
com sua ilimitação de saber/prazer na
medida em que ele mesmo se assuma como maldito, ateu,
proscrito, herético, sem limiar de esperança
ou outras soluções cor-de-rosa. O paradoxo
fantástico de House é que ele goza dos
mesmos privilégios que o espectador convencional
(desprendimento, onisciência, prazer de desvendar)
e ao mesmo tempo exige uma adesão anti-social,
amoral entre espectador e personagem para que o gozo
de um passe até o outro. Dessa forma, podemos
até entender o porquê de tanta ambigüidade
de rumos dentro das intrigas da série, episódio
a episódio. É que ela tem um protagonista
evidentemente subversivo dentro de uma estrutura mais
convencional, que demanda uma certa dose de aparos em
tudo que for muito brusco, chocante, excessivo. O nobre
da série é que, ao invés de fazer
reinar um sobre o outro, House negocia o tempo
inteiro com as duas esferas, alternando entre padrão
e subversão, sanção e eterno habeas
corpus, jamais submetendo seu personagem definitivamente
à provação e conseqüente à
"aprendizagem" (da humildade, da finitude),
mas volta e meia acenando para essa onisciência
como um problema.
Irregular, ambígua, às vezes até
meio conservadora, com medo do personagem que criou,
a série House está longe de ser
um modelo de excelência dentro das séries
televisivas contemporâneas (esses seriam A
Família Soprano, Deadwood, Arrested
Development...). Mesmo em termos de escolhas visuais
o programa tem altos e baixos, recorrendo volta e meia
aos banais efeitos computadorizados de "dentro
do corpo humano". Mas acima desse enorme saco de
gatos de boas e más decisões, momentos
velocíssimos e momentos de empacar pior que mula,
paira o personagem do Dr. Gregory House com seu fatalismo
bem-humorado. Mais forte do que o próprio programa
que lhe dá vida, ele supera todas as irregularidades
de construção dramática e ultrapassa
todas as adversidades, erigindo-se ele mesmo como obra.
E com sucesso, porque ele faz de nós seguidores.
Ruy Gardnier
|