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Impressões de vinte minutos, num sábado
nublado
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Este é
um texto sobre 20 minutos. São as impressões e as sensações
adquiridas durante os 20 minutos, não mais do que 20
minutos, que passei na frente da televisão, num sábado
à tarde.
Pode parecer pouco, mas foi tudo que consegui agüentar.
Gostaria de ter sido mais profissional. Gostaria de
ter ficado mais tempo. Mas eu não pude. Desculpem a
todos, mas não pude.
Não sei, ao certo, se foi a ressaca. Eu acordei muito
cansado, e mole, e com a impressão de que, no mundo,
nada dava certo. Aquilo era muito triste. A tarde de
sábado era nublada, meio fria, com aspecto azul acinzentada.
No dia anterior tinha chovido, e eu me molhara, encharcara
minhas roupas, caminhando primeiro pelo Rio Comprido,
no meio das poças de mijo, depois pelo Ouvidor. Quando
chovia mais forte, eu sentia a água pesada na minha
cabeça, que girava, por causa das cervejas.
À noite, peguei a barca. Fiquei ali, todo molhado, olhando
a chuva cair no escuro sobre a Baía de Guanabara.
Eu digo tudo isso porque quero ser franco. Nada de truques;
por uma questão de honestidade, é necessário dizer que
os efeitos da chuva, das roupas molhadas, da ressaca
e da melancolia cinzenta misturadas podem, de fato,
ter tido uma influência sobre a visão um tanto negativa
que eu tive, naquele sábado à tarde, ao ligar a tevê.
Ou não. Na verdade, a primeira coisa que a aparece na
tela... A primeira coisa que aparece é o Mariano Ulky
- e, sinceramente, acho que, no horizonte próximo, não
há nada pior do que Mariano Ulky. Só dizer esse nome
já me dá vergonha: Ulky. É um som que remete a um monte
de gente reunida, bolando planos pra dominar as mentes.
Eles estão ali, reunidos, pensando em como atolar de
jeito o fio-dental da garota, como arrancar a punheta
do adolescente espinhento, como fazer o pau-d’água olhar
pra gostosa da TV, no bar da esquina, e sentir vontade
de voltar pra casa, xingar a mulher gorda e desdentada,
depois bater nas crianças.
O Ulky entra no palco - aquilo é só orelha, só nariz!
Ele solta a voz... Como as pessoas podem gostar daquela
voz? O nome dele é pronunciado por uma voz metálica,
futurística, o tipo de voz de vinheta da Jovem Pan,
que fazem fremer os moto-boys. Quando eu ouço pronunciar
esse nome, quando eu ouço aquela voz, é um mundo triste
que aparece, um mundo antinatural, um mundo dos piores
sentimentos terrestres. Nada há nada pior do que isso.
Ou talvez tenha. Também tem o Celser Portnoville, com
aquele sorriso de propaganda de pasta de dente. E aquela
falsa risadinha afável, generosa, quanto da hipocrisia
humana não tem ali? Quando eu passo pelo programa dele,
ele está naquele jogo velho, velho, velho do apresentador
que mostra os eletrodomésticos e pergunta para o jogador
na cabine surda se ele quer trocar. Quando que vão aposentar
esse jogo? Os aparelhos eletrônicos e as utilidades
domésticas estão ali, expostos, brilhando sob uma luz
de auditório, uma luz irreal, meio dourada, aquela luz
de sonho, que parece dizer é esse! é esse!
- é esse que você quer. A câmera vai passando pra um,
pra outro, depois quase todos em plano geral e, meu
Deus, como aquilo brilha!
Ah, sábado, sábado, o sábado da família...
O jogo é com mãe e filha, e a mãe, uma jovem senhora
morena de aparelho, cabelo alisado, roupa justa e de
barriga de fora, aparece pulando, tentando orientar
a filha. A filha, uma menininha de cabelo espetado que
está dentro da cabine, vai dizendo, em espaços irregulares:
SIM... NÃO - com uma ênfase forte em cada "sim"
e "não", típica de uma criança que se impõe
num jogo, se impõe na vida, enfim, no mundo dos adultos.
E o engraçado é que todo mundo sabe que a garota não
pode ouvir. Mesmo assim, platéia e mãe, separadas da
menina por um muro de som, continuam gritando, orientando.
Como se pudessem violar as leis da física, realizar
o impossível. A brincadeira maso se justifica assim,
nessa incomunicabilidade: falar pra quem não pode ouvir,
numa esperança vã.
É aquela situação clássica. As pessoas não se cansam.
Na frente da TV, dá vontade de gritar: ela não pode
ouvir, ela não pode, você não entende! A câmera passa
da geladeira à coleção de panelas, o Portnoville pergunta
Troca geladeira por panela - e a mãe se desespera
ouvindo a filha dizer "sim". A mãe insiste
em orientar, gritando NÃO! NÃO! NÃO!
Mas é sábado. Sábado da família... Sofá, cozinha, porta-retrato,
pia, mesa com flores, uma subida grande, muito grande,
onde fica uma casa - é como se tudo estivesse ali, naquela
luz brilhando.
E, naquela luz brilhando, eu vejo um início de pôr-do-sol,
numa cidade pequena (São Paulo? Piauí? Serra italiana
do Rio Grande), dois velhinhos no sofá, de mãos dadas,
e a voz de Raoul Gibert ecoando pela sala...
A cidade quase deserta. Um cachorro late ao longe. Tranqüilidade.
Agonia. Duas garotas cruzam uma esquina. Desviam de
uma poça d'água. As árvores quietas. Algumas flores
se curvando no jardim.
E, saindo pela janela das casas, aquela voz, aquela
voz, aquela voz rouca, grave, estranha...
São dois velhinhos? Não. É um só. É uma viúva. A sala
coberta de porta-retratos, com fotos do falecido.
A velhinha encurvada, no sofá ou na poltrona, ouvindo
a voz do Gilbert:
Agora, agora...
O Raoul Gilbert avança em direção a câmera. Avança com
um andar frenético, que parece dança tribal. A cada
passo, levanta alto os joelhos, encurva o pescoço...
Diz pra velhinha.
Diz pra mim.
Novos talentos!
A platéia da TV aplaude.
Aparecem em letras garrafais, no fundo do auditório:
Novos talentos.
O Gilbert sacode o pulso. O pulso está cheio de ouro.
Correntes, pulseiras, braceletes, anéis - tudo de ouro.
Ele mostra o antebraço, e parece dizer:
"Tenho um apartamento no pulso. Tenho dois, três,
tenho um condomínio inteiro".
Depois, leva o microfone até a boca. Até o microfone
é de ouro! O microfone tem não sei quantos quilates.
Ele o leva até a boca e ri, uma risada profunda, assustadora.
A velhinha se mexe na poltrona. Mas é o Gilbert que
importa. O Gilbert diz (a voz se ouve na quadra inteira
da cidade, no exato momento que as duas garotas passam
para o outro lado da esquina, e uma planta balança):
Candidata fulana.
A Fulana entra rápido, meio que rebolando. É uma garota.
16, 17 anos... O GC informa: 13 anos!
A Fulana busca seu lugar no palco. Mas ela se movimenta
de maneira estranha. A roupa dela parece desconfortável.
O jeans muito apertado. Seu cinto é enorme, dourado,
parecido com o dos campeões mundiais de boxe.
A música começa. É uma música dançante. A garota começa
se mexer, acompanhando o ritmo da música, mas com a
mesma maneira estranha de se mexer. Mexendo-se daquele
jeito, parece um tipo raro de ave... Parece uma galinha
no cio. Enquanto canta com aquela voz pré-fabricada,
cheia de maneirismos forçados, vai movendo os braços
pra cima, e traçando desenhos estranhos com as pernas...
De vez em quando, mexe a cabeça, também, joga-a pra
trás. O cabelo voa. Aquilo não parece bom. Mas ela insiste.
Pula, balança, de um lado pro outro...
A música pára. A platéia grita. Aplaude. Ela agradece.
Antes de chamar a opinião dos jurados, Raoul Gilbert
vai vender um presunto. Ele se desloca prum canto do
auditório onde fica uma mesa carregada de presunto (caixas
cobertas, caixas abertas, fatias de presunto solto e
no sanduíche, tudo envolto por um grande S). E aí ele
lê o TP com aquele jeito de quem não está lendo, e dando
um ar de "conversa descontraída":
Eu só como presunto S... Todos os dias. Todo o santo
dia, eu como presunto S... Aliás, todo mundo só compra
presunto S... É impressionante, quando eu vou à padaria
lá perto de casa, todo mundo só pede presunto S... É
S... É S... que eles pedem.
É um momento abstrato, onde o tempo fica suspenso para
Raoul Gilbert vender presunto. Um pouco como o discurso
do Charlie Chaplin no Ditador, quando o filme pára pra
ele dar seu recado pra platéia.
Sanduíche com presunto S... é muito bom.
Mas o momento acaba. E ele volta pro centro do auditório:
Jurado x. Sua opinião sobre a candidata.
A câmera mostra um garotão com ar esportivo e camiseta
preta, que o Raoul Gilbert diz ser professor de dança.
O garotão não parece falar pro candidato. Com jeitão
de galã latino de musical vagabundo, cheio de cheap
carisma, parece falar só pro telespectador. Parece
seduzi-lo:
O que mais me agrada em você - O garotão está
sempre com aquele sorriso colado no rosto, um sorriso
bem-sucedido, de garotão simpático, e está sempre mexendo
os braços de forma enérgica e esportiva - é que você
tem essa preocupação de se expressar não apenas com
a voz, mas também com o corpo.
A Fulana sacode a cabeça, feliz, mas parecendo cansada.
A platéia aplaude.
E então Raoul Gilbert chama:
Candidato Cicrana.
Quando a Cicrana chega, a Fulana já desapareceu, como
que por magia.
A Cicrana é uma morena alta, com dread lock no cabelo.
Toda arrumada, com um vestido rosa, é a mais elegante
de todas. O Gilbert se encanta com ela, e chega pra
falar pertinho do ouvido da moça:
Arrasou no visual hoje, hein?
Ela agradece. Depois começa a cantar uma versão barata
de uma música americana, num arranjo meio disco, ou
coisa parecida. Quando acaba, a platéia aplaude.
O Gilbert chama outro jurado: a câmera mostra um homem
bem tranqüilo, com camisa pólo e bigode de caminhoneiro,
que fala, meio que balançando a cabeça:
Eu nem preciso dizer. - O bigodudo com cara de
caminhoneiro dá um sorriso de tio malicioso: - Eu
acho você uma gracinha.
E, antes dos aplausos:
Você vai muito longe.
Obrigado - diz a morena, sem corar.
Agora é o terceiro candidato, que o Gilbert chama:
Candidato Fulano.
E, dessa vez, a platéia delira.
Quem entra é um garotinho rechonchudo, com rosto gordinho,
bochechas cheias e rosadas, todo sorridente. Ele chega
saudando a platéia, e então se nota que a voz dele é
fina, fina, fina - como de uma menina. E tem estilo,
é o mais estiloso: o cabelo cheio de luzes, reflexos
luminosos, um penteado bizarro, todo engomado.
As roupas dele têm cores vivas, contrastantes, que se
cruzam. O conjunto todo é um grito difuso, o grito dos
trezentos estilistas, cabeleireiros e empresários que
o pegaram como cobaia.
O garoto tem naturalidade. Naturalidade ao se mexer,
naturalidade ao cantar. Ele começa a cantar uma versão
mais açucarada de um hit de Ivan Lins. A platéia adora.
Faixas na platéia. Gritos histéricos. Enquanto ele canta,
ele abre os olhos, e os olhos brilham, sobre as bochechas
rosadas.
Os jurados parecem felizes. As câmeras vão mostrando
um por um. Mostra o garotão dançarino, com seu sorriso
ainda colado. Mostra o bigodudo caminhoneiro, que tem
uma reação estranha, quase um sobressalto, quando percebe
que está sendo filmado. Depois uma morena bonitinha,
de olho meio puxado. Depois uma coroa decotada, e excessivamente
maquiada. Finalmente, um magro e imponente engravatado,
sentado com ar sério e altivo na cadeira dos jurados,
com marcas no rosto e cabelo pixaim, como um Manguita
Fenômeno de gravata - uma figura misteriosa, que eu
não vou chegar a ouvir, que eu nunca vou chegar a ouvir,
e que eu nunca vou saber quem é...
Todos (com exceção do "Manguita Fenômeno"
engravatado) balançam a cabeça, ao ritmo da música.
E o garotinho de voz fina ergue a mão aos céus, indicando
o clímax final do hit de Ivan Lins.
A platéia vai ao delírio. As faixas com o nome dele
balançam. É a glória.
Gilbert:
Querem ouvir o jurado z?
A câmera mostra o "Manguita" misterioso.
A platéia grita:
Nãaaaaaaao!
Gilbert repete:
Vocês querem ouvir o z?
Nãaaaaaaaaaao!
"Manguita Fenômeno", mais misterioso que nunca,
permanece sério em sua cadeira.
Gilbert:
E o jurado y?
A câmera mostra o bigodudo caminhoneiro, que sorri com
sorriso cafajeste. Ouvem-se gritos contraditórios.
Gilbert insiste:
E o jurado y?
Finalmente, a platéia grita:
Siiiiiiiiiim.
Gilbert conclui:
A platéia quer ouvir o jurado y.
O bigodudo caminhoneiro dá mais uma risadinha cafajeste,
e finalmente diz:
Não precisa dizer. Você é maravilhoso. Só esse grito
da platéia já diz tudo.
A platéia grita.
E o bochechudo, naquela voz fina:
Obrigado.
Gilbert se sente na obrigação de falar:
Isso que é elogio.
E o bochechudo, naquela voz fina:
Obrigado.
Acho que já passava dos 19 minutos quando o Gilbert
chamou um novo candidato.
A velhinha se acomodou na poltrona, as garotas passaram
rindo, sob a luz roxa do crepúsculo. A cidade se preparou
para escurecer. As garotas iam desaparecendo, mais adiante,
numa rua deserta.
Eu desliguei.
Foram 20 minutos.
Quanto da miséria humana cabe em 20 minutos?
Bolívar Torres
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