sobre o texto um cinema de superficie

Olá Leonardo,

acredito que o cinema de superfície existe desde sempre, e a falta da narrativa que desenvolva os personagens é decorrente do diálogo que o cinema trava com a realidade exterior, e quando há algum personagem conhecido aqui fora o cinema só o reproduz, sem muita preocupação em desenvolvê-lo para além de seus caracteres básicos. Esse tipo de cinema se manifesta também em todos aqueles filmes que têm algum tipo de estereótipo, que todos já conhecem de outros filmes. O policial mocinho, a repórter esforçada e independente, o gordo engraçado ou o advogado íntegro. É certo que são centenas de estereótipos, mas eles se repetem profusamente com apenas pequenas variações.

Quanto à estrutura do roteiro, com as cenas e personagens indo e vindo sem regra numa velocidade extraordinária, isso pode ser um estilo existente desde sempre que o espectador nem sempre engole com satisfação. Não creio que seja uma conseqüência inevitável da sociedade contemporânea. Mas é de fato uma linguagem que se torna mais acelerada, pois os jovens têm o horizonte cada vez mais reificado com ações sem sentido dos videogames. Por outro lado, vemos a busca de grandes narrativas, como Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Mesmo que, infelizmente, elas não façam parte da realidade. Toda a discussão sobre a pós-modernidade, que eu não domino, parece tratar dessa questão da desconstrução das narrativas.

Creio que não dei conta de tudo o que você escreveu, mas acredito que há um cinema superficial desde sempre, que explora os clichês, estereótipos e símbolos conhecidos para substituir a imaginação, a inovação e o senso crítico. Por outro lado, é impossível que isso se torne dominante no cinema, mesmo no norte-americano. Seria assustador.
abraço
Rodrigo. 

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Oi Rodrigo,

Na verdade, quando eu digo de um cinema atual de "superfícies", eu parto do princípio de que o cinema não utiliza mais os estereótipos como forma de avançar ou resolver facilmente questões narrativas ou mesmo para "iludir" o espectador (como, digamos, no que chamamos de cinema clássico), mas partindo do princípio de que o próprio espectador reconhece já a existência desses estereótipos como parte constituinte do cinema americano. Com isso, este mesmo cinema - que tem a capacidade enorme de se reinventar para continuar o mesmo (ou vice-versa) - parte desses clichês para procurar novos caminhos.

Quando eu digo "cinema de superfície", eu tento entender que caminhos são esses que um certo cinema americano (não todo, naturalmente) busca alcançar hoje em dia. Mais do que partir do estereótipo, vejo uma tendência em assimilar uma menor psicologização dos personagens, criar explosões da narrativa, trabalhar uma ligação mais solta entre planos e sequências. Não é mais preciso, necessariamente, criar uma "história que envolva o espectador", quando este pode ser mais facilmente envolvido pela injeção de adrenalina non-stop de filmes como Velozes e Furiosos, ou as obras do Michael Bay; quando este pode se impressionar mais com as "brincadeiras de roteiro" de um Homem-Aranha 3 do que com a verossimilhança dos personagens; quando, este, enfim, está em um período em que o "cinema antigo" não é mais possível e no qual, assim, o possível atual está sendo criado. A "ilusão de profundidade" que marcou todo o cinema americano, ainda que criada, muitas vezes, a partir de fórmulas fáceis, anda caindo por terra (ou relegada a gêneros específicos). Mesmo as grandes narrativas épicas muitas vezes trabalham com iconografias já conhecidas (e reconhecidas) pelo espectador, e suas propostas estéticas não ficam longe dos jogos de videogame que você chama de "sem sentido".

Por fim, eu quero deixar claro que não sou, de forma alguma, um "crítico" desse novo cinema, pautado pela superficialidade dos temas e das imagens. Acredito que, assim como os jogos de videogame, ele traz uma série de novas questões para o desenvolvimento das narrativas e para o trabalho das imagens que ainda estamos começando a compreender. Acho, inclusive, que poucas experiências audiovisuais atuais são tão interessantes quanto passar um tempo descobrindo, pela primeira vez, o mundo de um Grand Theft Auto.

Espero que tenha conseguido "responder" algumas de suas indagações.

abraços,

Leonardo