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1.
Começando
por uma das melhores e mais significativas cenas de
O Informante: Lowell Bergman (Al Pacino) e Jeffrey Wingan (Russell Crowe) conversam no carro. Eles estacionaram
num espaço ermo, chuvoso, cenário melancólico. Lowell
está ganhando a confiança de Jeffrey.
Na verdade, ao longo do diálogo, um se reconhece no
outro de alguma forma – em parte porque sabem que partilham
uma mesma solidão. À semelhança de algumas locações
de Fogo Contra Fogo, esse espaço prolonga
um dilema existencial (na falta de expressão melhor)
dos personagens. É comum em Michael Mann a imagem possuir
áreas de não-preenchimento entre as figuras humanas,
ou ao lado dos rostos, ou ocupando metade do plano.
A narrativa, seguindo o mesmo movimento, possui pausas
silenciosas, bolsões de tristeza. E o espaço, por sua
vez, apresenta elipses geográficas, lugares imprecisos,
tecidos mortos. Mesmo o ambiente urbano – conforme a
crítica feita a Los Angeles
pelo personagem de Tom Cruise
em Colateral – é desintegrado, desconexo, separa os indivíduos mais do
que os une.
2. O
mundo que vemos em O Informante é azul, noturno, sombreado
– e incendiado por enigmas da trama política-policial
que envolve Jeffrey. Principalmente na primeira metade
do filme, ele se acha na corda
bamba do universo empresarial-judicial-midiático
(tripé aterrorizante), refém de uma sociedade que encurrala
o indivíduo para atender a interesses de entidades-fantasma,
sem rosto, sem compromisso com ninguém a não ser com
o mundo virtual do capital e do lucro. O apagamento
do sujeito é o que esse mundo espera – não à toa que,
na primeira versão do programa de TV que vai ao ar,
Jeffrey dá sua entrevista
transformado em sombra falante, com o rosto encoberto
por uma trucagem. O percurso de Lowell e Jeffrey confluirá
justamente para a versão do programa em que ele
aparece falando, seu rosto à mostra, escapando
à cruel deleção imposta pelo
capitalismo corporativo aos indivíduos que resolvem
afrontá-lo. Num texto sobre Thief,
Jean Douchet comenta a concepção
vampiresca (via Murnau)
do cinema de Mann: a escritura não obedece a um evento
externo; a realidade é fagocitada
e oferece sua aparência ao desenvolvimento de uma ficção
onírica, de um pensamento secreto. Na ficção paranóica
de O Informante,
a realidade se torna turva, incerta. Quando aparece
um carro pegando fogo à beira da estrada, por exemplo,
nos indagamos se aquilo é mero acaso ou foi colocado
ali no caminho de Jeffrey
como intimidação.
3. Ponto
central de Fogo Contra Fogo. Vincent (Pacino) é tirado de uma confraternização
com a mulher e alguns amigos para atender a um chamado
de urgência. Na cena do crime, ele encontra o corpo
de uma jovem assassinada. "Nice", comenta
ao ver o rosto dela ensangüentado. A mãe
da vítima chora, inconsolável. O cenário
é enlouquecedor: luzes, sirenes, policiais, multidão
de curiosos. Depois de abraçar a mãe desesperada,
Vincent olha para um ponto qualquer por alguns segundos,
vira de costas e volta ao trabalho.



A cena seguinte é ele retornando ao restaurante
em que se divertia antes com a esposa. Ela está
lá sozinha, todos já se foram. Ele senta ao lado dela
e começa um diálogo triste, filmado em um dos mais sublimes
campo-contracampos de Mann.
Cria-se um espaço neutro entre os dois, um vazio profundo
se instala na imagem. Os rostos estão afundados na escuridão
do ambiente, que pode não ser mais nada naquele momento,
apenas o buraco negro em que eles estão suspensos. A
área preta, o vazio entre um e outro rosto antecipa
o divórcio do casal. Um campo-contracampo que separa
(há outros, no mesmo filme, que aproximam, espelham,
fundem, como veremos adiante). Mann reflete melancolicamente
sobre Vincent e seu ofício. Ele está condenado a não
ajustar os ponteiros com a esposa. A visão sobre
os casais (todos os casais) em Fogo Contra Fogo
é trágica. O filme opera uma incrível
junção do enredo épico com o íntimo.
As cenas de assaltos, tiroteios monumentais, rotinas
de trabalho ou acertos de contas se alternam com cenas
domésticas. O espaço privado, da casa, se deixará
sempre invadir pelo que acontece nas ruas da cidade,
por um movimento de intrusão a que as construções modernas
dão forma, com seus lares de vidro transparentes, desprotegidos
(a violação do espaço familiar em Caçador
de Assassinos já passava por uma vulnerabilidade
impressa na própria arquitetura das casas das vítimas).
Mais para o final do filme, numa briga, Vincent ironiza
a casa em que morava com a mulher, tachando-a de pós-moderna,
decadente, idiota, despejando sua raiva em relação à
configuração do espaço em que vive, como se este reverberasse
a impossibilidade de uma vida tranqüila para ele. Vincent
não pode se fechar na casa, no casamento: a cidade o
chama, expõe-no à loucura com suas luzes, seu flair
alucinatório. "I got to hold onto my angst. I preserve it,
because I need it. It keeps me sharp,
on the edge, where I gotta be."


4. Mais ou menos
na metade de Fogo Contra Fogo, uma seqüência
extraordinária transporta a velha história
de que crime e lei são duas faces da mesma moeda
para um terreno estético inaudito, poderosíssimo.
Trata-se da cena do roubo que Vincent intercepta de
dentro de um furgão, atento a monitores que reproduzem
imagens captadas por câmeras de segurança,
no local onde Neil (De Niro) e seus comparsas tentam
abrir um cofre munidos de toda tecnologia disponível.
A decupagem lembra o fascínio de Jean-Pierre
Melville pela dilatação da ação,
o detalhismo, a construção de clima. Uma
decupagem que corresponde ao estado de concentração
máxima necessário à prática
de um roubo tão sofisticado. Também os
policiais de tocaia devem estar concentrados, qualquer
barulhinho pode denunciar a presença deles (como
de fato ocorre). A melhor parte da cena se dá
no momento em que Neil vai até a calçada
e se recolhe a uma região de sombra, um cantinho
onde a luz dos postes não pode inclui-lo. Acontece
que a câmera dos policiais faz a leitura infravermelha
de seu rosto. O paradoxo do personagem de De Niro fica
escancarado: o mesmo mundo da técnica que facilita
seus roubos submete-o à ultravisibilidade, pelo
aperfeiçoamento dos dispositivos de vigilância.
Neil vive nas sombras, precisa se tornar fantasma para
viver no espaço urbano. Mas essa existência
fantasmática está cada vez mais difícil
de sustentar, seus dias de invisibilidade estão
contados. Não é questão de mascarar
a identidade (Neil não quer ser outra pessoa
nem exercer outro ofício, como confessa a Vincent
no famoso diálogo), mas de agir como fantasma,
sem se mostrar. A noção de vigilância
se vê em curto-circuito: a aleatoriedade da câmera
de segurança se reverte na deflagração
(não no sentido criminalista, mas sim ontológico-cinematográfico)
do rosto apanhado em seu momento exato –
o timing perfeito do cinema clássico.
O espelhamento entre Vincent e Neil é feito através
de planos frontais, com seus rostos ocupando o centro
da imagem, centro gravitacional e simbólico do
plano. A imagem de Neil apanhado pela câmera de
segurança faz mais do que espelhar a imagem anterior
de Vincent: ela representa uma fusão dos dois
rostos, uma síntese visual de suas trajetórias.
Um não é a imagem do outro em negativo,
e sim uma potência dupla, ainda que multiplicada
no vazio. Neil é um semblante que palpita no
centro da imagem anunciando sua iminência de sumiço,
seu fading existencial. Diferentemente do telefilme
original (Mann fez Fogo Contra Fogo como um remake
de seu Os Tiras de L.A.), Neil não é
morto por um outro bandido, mas por Vincent. É
como se só pudesse haver um deles na cidade;
ambos seria incongruente, insustentável. Dois
corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo.



5. Cena medular de Miami Vice. Tubbs (Jamie
Foxx) avisa a Sonny (Colin Farrell) que é chegada
a hora, identidade fabricada e realidade vão
colidir uma sobre a outra. Cineasta do plano (logo da
montagem, da unidade cênica), Mann vem buscando
a coesão de seus filmes em lugares cada vez mais
complexos. Em Ali, em Miami Vice, o mapa
narrativo vai perdendo as fronteiras nítidas
e assumindo uma geografia fractal. Mas o muthos
do espetáculo (o agenciamento coerente das ações)
permanece lá; Mann trabalha a plasticidade das
imagens em plena comunhão com seus conteúdos
dramáticos. Ele não repete aqui a relação
de exaustão do campo-contracampo consagrada na
cena com Pacino e De Niro em Fogo Contra Fogo.
A duração da cena agora é bem menor.
A cenografia, o enquadramento e as cores montam uma
estrutura em harmonia, mas a câmera se mostra
sutilmente inquieta, através de um zoom-in
suave e de uma leve flutuação. O corte
já não separa nem divorcia, ele retrata
uma relação de parceiros, de amigos. Mas
que espécie de equilíbrio está
em jogo nessa cena de Miami Vice? O filme tem
esse momento de estase exatamente antes do tiroteio
que condensa seu lado de descontrole e de selvageria
(ou, por assim dizer, de desarmonia das forças).
O equilíbrio contraditório talvez seja
esse: entre a estética do plano e a sensação
de que estão todos à beira do precipício.
Se há nesse diálogo entre Tubbs e Sonny
uma grande atenção à cenicidade,
à dramaturgia, ao mesmo tempo há o convite
a uma aventura da percepção, uma sideração
discreta.

6. A tristeza durará para sempre?
Luiz Carlos Oliveira Jr.
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