American Idol 2007

O American Idol 2007 continua sendo, como em suas outras edições, um dos programas que melhor reciclam as fórmulas já desgastadas da televisão, injetando doses de dramaturgia. Como já foi observado nessa mesma revista, no ano passado (leia aqui), o programa se divide a grosso modo em duas fases: uma primeira que mescla show de calouros com show do gongo, cuja força dramática está no confronto violento entre participantes e jurados; e uma segunda, muito menos interessante, que se aproxima da lógica competitiva do reality show e que busca, nos pesados efeitos visuais e sonoros, uma espécie de sacralização da indústria pop musical.

Pois da "fase gongo" desse ano podemos destacar alguns momentos já clássicos, com os ocorridos nas audições do Texas – de onde, por razões óbvias, saem os casos mais bizarros (na Califórnia também saem casos extremos, mas de uma bizarrice mais intelectualizada e hype, e não tão representativa da América Profunda). Na minha opinião, ao menos uma das cenas do Texas já entrou para a história. É aquela em que mostra a mãe de um dos concorrentes – uma mãe típica dos grotões da América: grande barriga, voz grossa, afirmação da vida honesta dos subúrbios – indignando-se com Simon depois que ele, atirando sarcasmos, acabou dando o não que eliminou seu filho. Ela grita, e a fala dela parece saída direto de um episódio dos Simpsons: "Quem é esse Simon pra julgar? Quem ele acha que é? Ele nem é americano! Ele que vá julgar ingleses! Isso é o American Idol, queremos jurados americanos aqui!" Com uma tirada dessas, fica reafirmada a idéia, no imaginário americano, de Simon como a encarnação perfeita do vilão clássico, reunindo todos os clichês numa só figura: inglês arrogante, sofisticado, levemente afeminado, oriundo de uma cultura velha e decadente, e incapaz de compreender a potência criadora da vulgaridade americana.

Ainda no Texas, tivemos outros momentos de grande intensidade dramática. E até um caso excepcional, um tipo emocionante de "reversão dos fatos", nunca visto antes no American Idol. Aparece uma garota bonitinha e bem afinada, mas que faz muitas caretas ao cantar. Randy e Paula, meio indecisos, dizem não, sem dar uma chance pro Simon votar. A garota sai decepcionada, quase chorando, e antes dela abrir a porta, o Simon diz: "Se pode servir de consolo, eu teria votado sim". A garota, que para aumentar a dose folhetinesca era mesmo bonitinha, mas o tipo de bonitinha com aquela cara piedosa e coitada de heroína de Gloria Perez, se vira e diz, com a surpresa dos modestos: "Obrigada, Simon". Pronto: você se afeiçoa direto com ela. Nisso, a edição começa alternar imagens dos três jurados se olhando com cara de arrependidos e da garota, lá fora, chorando com os parentes. Momento foda de edição: A Paula diz "Acho que erramos com essa garota", Simon balança a cabeça, Randy também, e ai vem um inédito Deus ex-machina (Deus ex-machina no American Idol!). Eles falam: "Chamem a garota de novo!" A câmera corre pelos corredores e alcança a menina, que ainda chora, e que de repente nem acredita que terá uma segunda chance. A edição continua alternando sua emoção com as imagens dos jurados confusos, com direito a um monólogo de Paula – ou seria um aparte? –, olhando para a câmera: "A gente também erra. Nós somos humanos, não somos?" – e o curioso é que ela faz a indagação como se fosse uma pergunta retórica, mas seu olhar a trai, e mostra que ela própria não conhece a resposta. O que permite a nós mesmos de pensar: "Eles são humanos? Pensei que fossem personagens? Mas seriam personagens humanos? Ou seriam eles, apenas, ícones do mal, do bem, da esperança humana?" Só que acontece que não há mais tempo para pensar, porque subitamente a edição lança uma elipse e faz um corte brusco para a garota entrando na sala de testes, mais uma vez, o olhar concentrado, tenso, pronta para agarrar sua última chance. Pois bem, ela canta de novo, repete as mesmas caretas, mas dessa vez os jurados dizem sim, mostrando que a fase gongo também pode ter, além dos momentos circenses e burlescos, uma pitada de melodrama irresistivelmente barato.

Quanto à segunda fase (a fase das luzes, dos raios lasers e das
gruas), a verdade é que sobraram bons personagens esse ano, o casting até que está legal. Tem uma clone da Jennifer Lopez que teve fotos pornográficas caseiras circulando na internet; um adolescente indiano, versão totalmente gay do Mogli, o menino da selva; um gordinho meio seboso – mas muito carismático – que parece definitivamente fazer parte do sistema de cotas sexuais promovidas pelo programa; e uma black mama solteira muito simpática e raçuda, que concorre "para dar uma vida melhores para os dois filhos" e que faz de cada apresentação um exemplo de vontade e determinação (mais uma "Antônia"...). Mas o que me assusta acima de tudo é que a Paula anda usando menos decotes – que sempre foram, na minha opinião, a alma do programa – e além de tudo aparece bêbada ou chapada na maioria dos episódios. Em alguns momentos, ela chega a beirar o fernandovanuccismo: ela se enrola nas palavras, faz trocadilhos infames e começa a rir sozinha – um dia, de tão alterada, passou a impressão de que estava prestes a cair. Quando ela tenta mostrar seus conhecimentos musicais, se perde totalmente: "Você está bem usando esses agudos... e depois nos altos, e.. e... você tem que aproveitar esse seu talento que tem nos falsetes, pq os falsetes são... é..." A câmera pega o Simon rindo, com uma cara de "o que é que essa louca tá falando?". Uma noite, depois de ser obrigado a concordar com ela sobre a ruindade de um participante, Simon ainda largou a melhor frase do programa: "Dessa vez, eu quase entendi o que a Paula falou".

Outra coisa: a julgar pelas recentes eliminações, esse ano me parece
que a influência dos jurados sobre os telespectadores está mesmo cada vez menor. Isso confirma um pouco minha teoria (já explicada no texto anterior) de que na segunda fase os protagonistas não são mais os jurados, mas sim os concorrentes. Claro, é lógico que a maior parte do público precisa ficar esperando a opinião dos jurados pra saber se o concorrente foi bem ou não, mas em alguns casos mesmo idiotas musicais como eu conseguem perceber, por exemplo, de que o gordão de cavanhaque canta muito melhor do que o Mogli gay – e, mesmo assim, o público preferiu o Mogli. Segundo Simon, porque "gostaram do cabelo dele". Aliás, a tirada do Simon depois da escolha foi antológica: "os aparelhos de TV estavam sem som?"

Em 2007, fica cada vez mais evidente: American idol é grande, Simon é maior ainda.

Bolívar Torres